Cocaína, relaxante muscular e mais: o que pesquisadores acharam nas águas do estuário de São Vicente
Cafeína também foi encontrada em volumes que oferecem risco a crustáceos, peixes e algas
Levantamento inédito da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp) revelou a presença de cocaína e seu derivado benzoilecgonina, além de quatro drogas lícitas, no estuário de São Vicente, litoral sul de São Paulo. Em vários pontos de coleta, as concentrações encontradas são suficientes para oferecer risco ecológico de baixo a moderado a crustáceos, peixes e algas. Os resultados do estudo foram publicados na edição de julho da revista científica Marine Pollution Bulletin.
Além da cocaína e seu derivado, foram achadas concentrações relevantes na água, nos sedimentos e também em ostras de outras quatro substâncias:
- losartana (um medicamento para pressão alta)
- carbamazepina (contra a epilepsia)
- orfenadrina (um relaxante muscular)
- cafeína
As substâncias estão presentes em diversos medicamentos comercializados legalmente e largamente consumidos pela população. Acionada, a Secretaria de Meio Ambiente de São Vicente ainda não se posicionou sobre o resultado do estudo.
A região do estuário de São Vicente apresenta uma grande quantidade de casas construídas irregularmente sobre palafitas que descartam seus dejetos sem tratamento diretamente nas águas. Mesmo nas regiões que dispõem de rede de esgoto, não há tratamento desse material. Os dejetos são descartados diretamente na água por meio do Emissário Submarino de Santos, que libera o material a 4 quilômetros da costa.
Quando a cocaína é usada por pessoas, ela é quase que totalmente metabolizada no fígado, e, por isso, surge nos dejetos como o derivado benzoilecgonina. No entanto, na região, foram encontrados volumes incomuns de cocaína pura na água.
Segundo os pesquisadores, isso pode ser explicado pelo fato de o estuário estar próximo ao Porto de Santos, o mais movimentado do Hemisfério Sul, também usado irregularmente para o tráfico de drogas. A descoberta sugere que parte do produto traficado acaba sendo perdido, contaminando o mar.
"As concentrações mais altas são registradas no Ano Novo e no carnaval", diz o oceanógrafo Camilo Seabra, do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade de Ambientes Costeiros da Unesp, responsável pelo estudo. "E a gente já sabe que a droga bioacumula nos mexilhões, nas ostras e nos peixes, que são todos organismos comestíveis, o que já dá uma ideia do risco para o consumo humano, ainda que o foco desse estudo tenha sido o risco para os animais."
O pesquisador estuda há quase dez anos contaminação das águas por drogas ilegais e outros fármacos, sobretudo no litoral de São Paulo, mas essa foi a primeira vez que analisou as águas do estuário.
O estudo determinou que as concentrações de cocaína e losartana encontradas oferecem toxicidade moderada para crustáceos. Os volumes de benzoilecgonina são moderadamente tóxicos para peixes. Dependendo da espécie afetada, a cocaína interfere na formação de músculos e na produção de hormônios - o que afeta a reprodução dos animais - e também no funcionamento de órgãos como os rins e o fígado.
A detecção de drogas na água é uma informação importante para o estabelecimento de políticas públicas para a área ambiental. Esse levantamento também proporciona um retrato peculiar dos padrões de consumo de substâncias ilícitas, e serve de alerta para estudos que avaliem outros problemas decorrentes da poluição, como a contaminação de peixes consumidos por nós.
"A mera presença desses compostos na água já é um indicador de preocupação", diz Vinicius Roveri, professor da Universidade Metropolitana de Santos, que é coautor do trabalho, em entrevista ao Jornal da Unesp. "(A presença de drogas) revela que não existe um bom tratamento de esgoto na região, ou mesmo que há um consumo excessivo dessas substâncias."