Americano defende contracepção de cavalos selvagens
Jim Robbins
Direto de Hot Springs, Dakota do Sul
A controvérsia que fervilha há muito tempo quanto ao tratamento que deve ser dado aos cavalos selvagens dos Estados Unidos voltou a se intensificar recentemente. No ano passado, funcionários do governo federal informaram que as autoridades tinham tantos cavalos selvagens em cativeiro - 34 mil, e o número não para de crescer - que desejavam autorização para sacrificar animais.
Alguns Estados também estão considerando a possibilidade de abate. Os cuidados com os cavalos selvagens custam US$ 27 milhões ao ano às autoridades federais, de acordo com o Serviço de Administração de Terras, que supervisiona o programa de atendimento aos cavalos selvagens. Em fevereiro, os deputados federais Nick Rahall, democrata da Virgínia Ocidental, e Raul Grijalva, democrata do Arizona, apresentaram um projeto de lei com o objetivo de impedir o abate.
A resposta real, de acordo com Jay Kirkpatrick, diretor da ZooMontana, uma organização sem fins lucrativos que promove a conservação e estudo científico dos animais, na cidade de Billings, seria uma anticoncepcional chamado PZP. "Existem mais de 30 mil cavalos selvagens vivendo em terras públicas, e eles estão se reproduzindo em ritmo acelerado", afirmou Kirkpatrick.
"O verdadeiro problema não está no que fazer quanto aos cavalos excedentes, mas sim em como controlar a reprodução. O que fazemos com os cachorros e gatos excedentes? Nós os castramos". Kirkpatrick, 69 anos, vem usando o PZP, um medicamento anticoncepcional, desde 1988 para promover o controle de populações de cavalos selvagens e cervos. O zoólogo vem defendendo o uso desse método para o controle dos cavalos selvagens que o governo protege no oeste do país praticamente durante todo esse período, mas suas idéias até agora não foram aceitas pelas autoridades.
Kirkpatrick tem uma opinião sobre os motivos para que o método que propõe não seja utilizado de maneira mais ampla. "Não se trata de uma questão científica, mas de uma questão política e cultural", ele afirma. "O que temos aqui é uma cultura de caubóis. E um deles me disse que não é assim que um caubói resolve problemas, e que eles preferem fazê-lo a cavalo, e usando laços".
O Serviço de Administração de Terras interpreta a questão de maneira diferente. O anticoncepcional é utilizado, em 2,2 mil cavalos, mas as autoridades afirmam que a técnica tem suas limitações. "Em sua forma fluida, o medicamento tem validade de apenas um ano", disse Tom Gorey, porta-voz do Programa de Cavalos e Burros Selvagens do serviço, em Washington. "Nós só recolhemos as tropas de cavalos a cada quatro anos, e com isso já temos um problema". "Se houvesse um método prático de controle da fertilidade disponível, adoraríamos usá-lo", afirma Gorey.
Os cavalos selvagens estão espalhados por toda a região oeste do país, ele acrescenta, e rastreá-los e reuni-los para tratamento anual é impossível. "Não somos a ilha de Assateague", ele declarou, em referência a um pequeno e isolado refúgio de cavalos em Maryland.
Quando a porção da ilha de Assateague que pertencia ao Estado de Maryland se tornou parte da reserva costeira federal, em 1968, ela abrigava 28 cavalos selvagens. Até 1994, a população havia crescido para 166 animais, e o Serviço Nacional de Parques solicitou a Kirkpatrick, naquele ano, que iniciasse um programa de redução da fertilidade, com o uso de PZP. O número de animais abrigados na ilha subiu a um máximo de 175 em 2002, mas desde então se reduziu a 130.
Enquanto outras abordagens de controle da natalidade ou esterilização envolvem métodos químicos ou hormonais, o PZP é um anticoncepcional que opera por imunização: cria anticorpos que não permitem que os espermatozóides se vinculem aos óvulos.
Em dois dias, em março, no Santuário de Cavalos Selvagens das Black Hills, que Kirkpatrick ajuda a administrar no Dakota do Sul, ele imunizou 140 animais usando dardos anticoncepcionais disparados por uma espingarda de ar comprimido. Quando atingido pelo dardo, o cavalo saltava como se uma abelha o houvesse picado, mas retomava rapidamente sua alimentação.
Uma segunda aplicação realizada um mês mais tarde garantiria que 95% das éguas abrigadas na reserva não tivessem filhotes por alguns anos. Combinando esse método ao índice de mortalidade de 5% que os cavalos selvagens apresentam, o crescimento das tropas de cavalos selvagens por reprodução seria eliminado.
Dayton Hide, o proprietário do refúgio de cavalos selvagens aqui em Hot Springs, deseja limitar o índice de natalidade entre os animais que protege de forma a que possa recolher mais cavalos selvagens. "Os dias em que os cavalos selvagens podiam correr livremente, sem controle, por todo o oeste são coisa do passado", afirma Hyde. "A realidade é que precisamos reduzir o número desses animais".
Mas Ginger Kathrens, uma diretora de documentários que já realizou trabalhos de cinema e televisão sobre cavalos selvagens e defende esses animais, acredita que o PZP não deveria ser utilizado nas tropas de cavalos selvagens que vivem na natureza, porque para alguns cavalos o método apenas retarda o nascimento. "O PZP pode causar partos fora de temporada", diz Kathrens.
Embora os animais que vivem em refúgios possam receber cuidados nessa situação, aqueles que vivem na natureza e tenham filhotes no outono podem enfrentar riscos devido à aspereza do clima. "É uma situação de risco de vida", disse a documentarista. "É cruel observar uma égua tentando amamentar um filhote em meio a uma tempestade de neve. Os animais sofrem, e alguns deles morrem".
Numerosos estudos publicados por Kirkpatrick e outros especialistas em revistas especializadas sobre a fauna demonstram que o uso de PZP é efetivo para diversos tipos de animais, de alces a cangurus. O PZP também está sendo usado para controlar a natalidade entre os cervos que vivem perto de áreas urbanas e suburbanas altamente povoadas. Em estudo publicado no ano passado pela revista "Wildlife Research", dois pesquisadores que trabalharam com a aplicação de PZP em cervos, em estudo para o Instituto Nacional de Normas e Tecnologia, em Gaithersburg, Maryland, escreveram que, em um período de nove anos, o sistema de controle da natalidade reduziu em quase 60% o número de animais.
"Nós resolvemos o problema técnico que afetava a questão dos cervos que ocupam áreas próximas a cidades grandes e pequenas, subúrbios e parques", disse Allen Rutberg, professor assistente e pesquisador da Escola Cummings de Medicina Veterinária, na Universidade Tufts.
Quentin Kujala, diretor da divisão de administração de fauna no Serviço de Pesca, Fauna e Parques do Estado de Montana, disse que sua organização não utiliza o PZP por algumas razões. Uma delas é que os cervos que vivem perto de áreas urbanas vivem em um sistema "aberto" e têm acesso livre áreas selvagens e cervos selvagens, e é difícil identificar quais deles foram tratados e quais não. Os cervos de Maryland vivem em um sistema fechado.
Também existem questões filosóficas. "Há também a maneira pela qual consideramos a fauna", disse Kujala. "Quando você administra um medicamento a um animal a fim de controlar sua procriação, não estaria fazendo de um animal selvagem um animal de criação?" Ainda assim, há quem diga que essa é uma solução melhor do que permitir caça aos cervos perto dos limites urbanos.
Dave Pauli, diretor regional da Humane Society, uma organização de proteção aos animais dos Estados Unidos, diz o PZP é importante. "É uma das ferramentas de que dispomos", ele disse. "Mas ela serve apenas para reduzir o número de cervos, de modo que ainda são necessárias coisas como arbustos à prova de cervos e bolas de tênis com as quais espantá-los".
Kirkpatrick e outros produzem o PZP por conta própria, utilizando ovários de porcos, em um laboratório que é parte do zoológico de Billings. O processo é demorado e laborioso, mas ninguém descobriu como sintetizar a substância até agora. O custo é de US$ 21 por dose e de US$ 2 por dardo. Na ilha de Assateague, Zimmerman estima que o tratamento anticoncepcional dos cavalos selvagens custe US$ 35 mil ao ano, incluindo o custo do tempo de trabalho do pessoal envolvido.
Tradução: Paulo Migliacci