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Ciência

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Americano defende contracepção de cavalos selvagens

29 abr 2009 - 14h02
(atualizado às 14h15)
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Jim Robbins

Direto de Hot Springs, Dakota do Sul

A controvérsia que fervilha há muito tempo quanto ao tratamento que deve ser dado aos cavalos selvagens dos Estados Unidos voltou a se intensificar recentemente. No ano passado, funcionários do governo federal informaram que as autoridades tinham tantos cavalos selvagens em cativeiro - 34 mil, e o número não para de crescer - que desejavam autorização para sacrificar animais.

Crescimento acelerado da espécie tem esquentado debate sobre se deve ou não haver abate
Crescimento acelerado da espécie tem esquentado debate sobre se deve ou não haver abate
Foto: The New York Times

Alguns Estados também estão considerando a possibilidade de abate. Os cuidados com os cavalos selvagens custam US$ 27 milhões ao ano às autoridades federais, de acordo com o Serviço de Administração de Terras, que supervisiona o programa de atendimento aos cavalos selvagens. Em fevereiro, os deputados federais Nick Rahall, democrata da Virgínia Ocidental, e Raul Grijalva, democrata do Arizona, apresentaram um projeto de lei com o objetivo de impedir o abate.

A resposta real, de acordo com Jay Kirkpatrick, diretor da ZooMontana, uma organização sem fins lucrativos que promove a conservação e estudo científico dos animais, na cidade de Billings, seria uma anticoncepcional chamado PZP. "Existem mais de 30 mil cavalos selvagens vivendo em terras públicas, e eles estão se reproduzindo em ritmo acelerado", afirmou Kirkpatrick.

"O verdadeiro problema não está no que fazer quanto aos cavalos excedentes, mas sim em como controlar a reprodução. O que fazemos com os cachorros e gatos excedentes? Nós os castramos". Kirkpatrick, 69 anos, vem usando o PZP, um medicamento anticoncepcional, desde 1988 para promover o controle de populações de cavalos selvagens e cervos. O zoólogo vem defendendo o uso desse método para o controle dos cavalos selvagens que o governo protege no oeste do país praticamente durante todo esse período, mas suas idéias até agora não foram aceitas pelas autoridades.

Kirkpatrick tem uma opinião sobre os motivos para que o método que propõe não seja utilizado de maneira mais ampla. "Não se trata de uma questão científica, mas de uma questão política e cultural", ele afirma. "O que temos aqui é uma cultura de caubóis. E um deles me disse que não é assim que um caubói resolve problemas, e que eles preferem fazê-lo a cavalo, e usando laços".

O Serviço de Administração de Terras interpreta a questão de maneira diferente. O anticoncepcional é utilizado, em 2,2 mil cavalos, mas as autoridades afirmam que a técnica tem suas limitações. "Em sua forma fluida, o medicamento tem validade de apenas um ano", disse Tom Gorey, porta-voz do Programa de Cavalos e Burros Selvagens do serviço, em Washington. "Nós só recolhemos as tropas de cavalos a cada quatro anos, e com isso já temos um problema". "Se houvesse um método prático de controle da fertilidade disponível, adoraríamos usá-lo", afirma Gorey.

Os cavalos selvagens estão espalhados por toda a região oeste do país, ele acrescenta, e rastreá-los e reuni-los para tratamento anual é impossível. "Não somos a ilha de Assateague", ele declarou, em referência a um pequeno e isolado refúgio de cavalos em Maryland.

Quando a porção da ilha de Assateague que pertencia ao Estado de Maryland se tornou parte da reserva costeira federal, em 1968, ela abrigava 28 cavalos selvagens. Até 1994, a população havia crescido para 166 animais, e o Serviço Nacional de Parques solicitou a Kirkpatrick, naquele ano, que iniciasse um programa de redução da fertilidade, com o uso de PZP. O número de animais abrigados na ilha subiu a um máximo de 175 em 2002, mas desde então se reduziu a 130.

Enquanto outras abordagens de controle da natalidade ou esterilização envolvem métodos químicos ou hormonais, o PZP é um anticoncepcional que opera por imunização: cria anticorpos que não permitem que os espermatozóides se vinculem aos óvulos.

Em dois dias, em março, no Santuário de Cavalos Selvagens das Black Hills, que Kirkpatrick ajuda a administrar no Dakota do Sul, ele imunizou 140 animais usando dardos anticoncepcionais disparados por uma espingarda de ar comprimido. Quando atingido pelo dardo, o cavalo saltava como se uma abelha o houvesse picado, mas retomava rapidamente sua alimentação.

Uma segunda aplicação realizada um mês mais tarde garantiria que 95% das éguas abrigadas na reserva não tivessem filhotes por alguns anos. Combinando esse método ao índice de mortalidade de 5% que os cavalos selvagens apresentam, o crescimento das tropas de cavalos selvagens por reprodução seria eliminado.

Dayton Hide, o proprietário do refúgio de cavalos selvagens aqui em Hot Springs, deseja limitar o índice de natalidade entre os animais que protege de forma a que possa recolher mais cavalos selvagens. "Os dias em que os cavalos selvagens podiam correr livremente, sem controle, por todo o oeste são coisa do passado", afirma Hyde. "A realidade é que precisamos reduzir o número desses animais".

Mas Ginger Kathrens, uma diretora de documentários que já realizou trabalhos de cinema e televisão sobre cavalos selvagens e defende esses animais, acredita que o PZP não deveria ser utilizado nas tropas de cavalos selvagens que vivem na natureza, porque para alguns cavalos o método apenas retarda o nascimento. "O PZP pode causar partos fora de temporada", diz Kathrens.

Embora os animais que vivem em refúgios possam receber cuidados nessa situação, aqueles que vivem na natureza e tenham filhotes no outono podem enfrentar riscos devido à aspereza do clima. "É uma situação de risco de vida", disse a documentarista. "É cruel observar uma égua tentando amamentar um filhote em meio a uma tempestade de neve. Os animais sofrem, e alguns deles morrem".

Numerosos estudos publicados por Kirkpatrick e outros especialistas em revistas especializadas sobre a fauna demonstram que o uso de PZP é efetivo para diversos tipos de animais, de alces a cangurus. O PZP também está sendo usado para controlar a natalidade entre os cervos que vivem perto de áreas urbanas e suburbanas altamente povoadas. Em estudo publicado no ano passado pela revista "Wildlife Research", dois pesquisadores que trabalharam com a aplicação de PZP em cervos, em estudo para o Instituto Nacional de Normas e Tecnologia, em Gaithersburg, Maryland, escreveram que, em um período de nove anos, o sistema de controle da natalidade reduziu em quase 60% o número de animais.

"Nós resolvemos o problema técnico que afetava a questão dos cervos que ocupam áreas próximas a cidades grandes e pequenas, subúrbios e parques", disse Allen Rutberg, professor assistente e pesquisador da Escola Cummings de Medicina Veterinária, na Universidade Tufts.

Quentin Kujala, diretor da divisão de administração de fauna no Serviço de Pesca, Fauna e Parques do Estado de Montana, disse que sua organização não utiliza o PZP por algumas razões. Uma delas é que os cervos que vivem perto de áreas urbanas vivem em um sistema "aberto" e têm acesso livre áreas selvagens e cervos selvagens, e é difícil identificar quais deles foram tratados e quais não. Os cervos de Maryland vivem em um sistema fechado.

Também existem questões filosóficas. "Há também a maneira pela qual consideramos a fauna", disse Kujala. "Quando você administra um medicamento a um animal a fim de controlar sua procriação, não estaria fazendo de um animal selvagem um animal de criação?" Ainda assim, há quem diga que essa é uma solução melhor do que permitir caça aos cervos perto dos limites urbanos.

Dave Pauli, diretor regional da Humane Society, uma organização de proteção aos animais dos Estados Unidos, diz o PZP é importante. "É uma das ferramentas de que dispomos", ele disse. "Mas ela serve apenas para reduzir o número de cervos, de modo que ainda são necessárias coisas como arbustos à prova de cervos e bolas de tênis com as quais espantá-los".

Kirkpatrick e outros produzem o PZP por conta própria, utilizando ovários de porcos, em um laboratório que é parte do zoológico de Billings. O processo é demorado e laborioso, mas ninguém descobriu como sintetizar a substância até agora. O custo é de US$ 21 por dose e de US$ 2 por dardo. Na ilha de Assateague, Zimmerman estima que o tratamento anticoncepcional dos cavalos selvagens custe US$ 35 mil ao ano, incluindo o custo do tempo de trabalho do pessoal envolvido.

Tradução: Paulo Migliacci

The New York Times
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