Baleias-jubarte realizam travessia recorde entre Austrália e Brasil
Pela 1° vez, pesquisadores observam duas baleias-jubarte percorrendo longo trajeto entre a costa brasileira e o litoral australiano através do Oceano Antártico. É a maior distância percorrida já registrada para a espécieDuas baleias-jubarte foram avistadas em áreas de reprodução distintas nas costas da Austrália e do Brasil, sendo esta a primeira vez que cientistas observam exemplares da espécie percorrerem distâncias tão vastas pelo Oceano Antártico.
O estudo com o rastreamento dos trajetos das duas baleias, publicado nesta quarta-feira (20/05) na revista científica Royal Society Open Science, resulta do uso de dezenas de milhares de imagens das caudas (ou nadadeiras caudais) singulares desses mamíferos marinhos para identificar os animais e seus hábitos de deslocamento.
Uma baleia foi avistada em Queensland, na costa leste da Austrália, em 2007 e novamente em 2013. Posteriormente, ela apareceu perto da costa do estado brasileiro de São Paulo, em 2019 - pontos separados por aproximadamente 14.200 quilômetros.
A outra baleia foi observada pela primeira vez na costa da Bahia, em 2003, e 22 anos depois, na costa de Hervey Bay, em Queensland, a 15.100 quilômetros de distância.
Rotas diferentes entre as espécies
O estudo afirmou que não foi possível registrar a distância que as baleias realmente percorreram em suas jornadas, porque seus números "refletem a separação entre os locais de avistamento, e não as distâncias reais percorridas, já que a fotoidentificação registra apenas os pontos finais da viagem de cada indivíduo".
Os pesquisadores disseram que as descobertas ampliaram os limites espaciais conhecidos da conectividade entre bacias para as baleias-jubarte do Hemisfério Sul, apoiando a "hipótese da troca no Oceano Antártico", segundo a qual as espécies podem se encontrar em áreas de alimentação compartilhadas na Antártica e, em casos excepcionais, seguir rotas diferentes de volta para as áreas de reprodução.
As baleias se alimentam de krill e pequenos peixes em águas mais frias durante os meses mais quentes do ano e, em seguida, migram para águas tropicais mais amenas, como as do Brasil e da Austrália, para se reproduzir durante o inverno.
"Intervalos de avistamento de 6 e 22 anos sugerem que esses são eventos raros, possivelmente únicos na vida, em vez de mudanças migratórias regulares", escreveram os autores.
Jornadas longas são muito raras
Das milhares de baleias identificadas e estudadas, apenas 0,01% completou essas jornadas. Os pesquisadores pediram a continuidade da colaboração global em plataformas de fotoidentificação para tentar entender melhor a frequência com que isso pode ocorrer.
"Apesar de sua raridade, essas colaborações são importantes para a saúde a longo prazo das populações de baleias", disse Stephanie Stack, pesquisadora de doutorado da Universidade Griffith e coautora do relatório.
"Indivíduos que se deslocam ocasionalmente entre áreas de reprodução distantes podem ajudar a manter a diversidade genética entre as populações", disse a cientista.
O papel do clima na migração das baleias
Os cientistas suspeitam que as mudanças climáticas e o aquecimento dos oceanos podem tornar esse fenômeno mais comum.
"As mudanças climáticas no Oceano Antártico, incluindo alterações no gelo marinho e na distribuição do krill antártico, podem estar tornando essas travessias mais prováveis ao longo do tempo", afirmou em nota a Universidade Griffith.
A Dra. Cristina Castro, da Pacific Whale Foundation, agradeceu aos observadores amadores de baleias por suas fotografias, que serviram como banco de dados para o estudo e permitiram a identificação dos deslocamentos.
"Esse tipo de pesquisa destaca o valor da ciência cidadã", disse ela. "Cada foto contribui para nossa compreensão da biologia das baleias e, neste caso, ajudou a revelar um dos movimentos mais extremos já registrados."
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