O suicídio entre jovens de 10 a 24 anos cresceu 38% nas Américas em duas décadas, tornando-se a terceira causa de morte nessa faixa etária. Diante do alerta da OPAS, educadores exercem papel crucial na identificação de sinais de sofrimento psíquico, como isolamento, queda de rendimento e alterações de humor. Sem assumir o papel de terapeutas, as escolas devem oferecer acolhimento, combater o bullying e encaminhar casos de risco aos serviços de saúde pública, como UBSs e CAPSi, prevenindo tragédias.
Uma mudança repentina de comportamento pode parecer apenas uma fase difícil da adolescência. Entretanto, quando sinais como isolamento, irritabilidade e queda no rendimento persistem ou aparecem juntos, eles merecem atenção. Nesse cenário, professores podem ocupar uma posição importante na identificação do sofrimento emocional, já que convivem diariamente com os jovens.
A discussão ganha ainda mais importância no Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, celebrado em 10 de setembro. Dados publicados no periódico científico The Lancet Regional Health - Americas mostram que o problema cresceu entre adolescentes e jovens adultos nas Américas nas últimas duas décadas.
Em 2021, foram registradas 18.157 mortes por suicídio entre jovens na região. Além disso, o crescimento mais acentuado ocorreu entre crianças e adolescentes de 10 a 14 anos. O suicídio permanece como a terceira principal causa de morte entre pessoas de 10 a 24 anos nas Américas.
"O fato de que a taxa de suicídio entre os jovens tenha aumentado 38% em pouco mais de duas décadas — em comparação com um aumento de 17% na população geral — é um sinal de alerta", afirmou Jarbas Barbosa, diretor da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) em comunicado. "Devemos fortalecer as ações de prevenção, especialmente entre crianças, adolescentes e adultos jovens, e garantir que recebam apoio a tempo", acrescentou.
Quais sinais professores podem observar?
Mudanças isoladas nem sempre indicam um problema de saúde mental. A atenção deve aumentar, sobretudo, quando determinados comportamentos persistem ou surgem em conjunto. Uma cartilha sobre saúde mental de adolescentes elaborada pelo Instituto Vita Alere orienta profissionais da educação a observar sinais como:
- Alterações repentinas de humor, irritabilidade ou apatia;
- Afastamento dos amigos e maior isolamento;
- Piora inesperada no desempenho escolar ou abandono de atividades;
- Mudanças perceptíveis no sono, alimentação ou autocuidado;
- Comentários frequentes relacionados à desesperança, morte ou vontade de desaparecer;
- Comportamentos que colocam o adolescente em risco, incluindo autolesão.
Como agir para prevenir o suicídio?
Perceber os sinais, contudo, não significa assumir a função de um profissional de saúde mental. Karen Scavacini, doutora em psicologia pela USP, ressalta que existem limites para a atuação dentro da escola. "É importante entender quais são os limites éticos e técnicos da atuação dos educadores, destacando que professores não devem realizar diagnósticos nem guardar segredos em situações de risco", explica.
Por isso, o acolhimento começa pela escuta. O educador pode oferecer espaço para que o adolescente fale sobre o que está vivendo, sem minimizar seus sentimentos. Ademais, a escola pode atuar na construção de ambientes seguros e no enfrentamento de situações como bullying, discriminação e violência.
Quando houver sinais de risco, então, o próximo passo é buscar ajuda adequada. Entre os caminhos indicados estão as Unidades Básicas de Saúde (UBS) e os Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi), além dos serviços de emergência em situações que exigem atendimento imediato.
"Muitos adolescentes não chegam aos serviços de saúde, mas chegam aos professores. A cartilha foi criada para oferecer linguagem, sinais, limites de atuação e rotas de cuidado, sem sobrecarregar os educadores. Uma escuta atenta, a validação do sofrimento e um encaminhamento responsável podem mudar trajetórias e reduzir riscos", conclui.