Traição: como lidar com o trauma e reconstruir relações, segundo especialista

Antes do flagrante, a traição costuma começar de forma silenciosa. Entenda como identificar sinais, lidar com a dor e decidir os próximos passos.

3 ago 2026 - 12h22
Resumo
A traição é vista como um trauma relacional que afeta a confiança e reconfigura relacionamentos, segundo a terapeuta Aline Cantarelli. Além da traição sexual, há emocionais e financeiras. O processo de superação envolve distinção de responsabilidades, reflexão sobre continuidade, busca por apoio e, eventualmente, perdão com reconstrução genuína. Escolhas conscientes são cruciais. 💔

A traição quase nunca surge do nada. Antes da mensagem descoberta ou do encontro revelado, existe um processo silencioso de afastamento e desgaste dentro da relação. Quando a verdade aparece, o impacto vai muito além do ato em si.

Foto: Reprodução/Shutterstock / Alto Astral

Isso porque a traição atinge a confiança, reescreve memórias e desmonta a imagem que se tinha da pessoa amada. Portanto, entender esse processo ajuda a lidar melhor com a dor e com as decisões que vêm depois.

Publicidade

Traição como trauma relacional

Para a terapeuta familiar Aline Cantarelli, é preciso encarar a traição como um trauma relacional, e não apenas como um erro pontual. Segundo ela, essa marca costuma acompanhar a pessoa por muito tempo.

"Uma traição é um trauma que quem é traído carrega para uma vida inteira. A pessoa pode superar, pode reconstruir, mas é uma marca", afirma.

Além disso, a especialista destaca um erro comum: confundir a responsabilidade pela traição com a responsabilidade pela relação que existia antes dela. "A traição é 100% responsabilidade de quem trai. Isso é um fato. Agora, a relação que ambos levavam antes é responsabilidade dos dois", explica.

Essa distinção evita que a pessoa traída carregue uma culpa que não é dela. Ao mesmo tempo, ajuda o casal, quando há desejo real de reconstrução, a olhar com honestidade para o relacionamento anterior.

Publicidade

Traição não é só sexual

Embora a traição sexual seja a mais lembrada, a quebra de confiança pode acontecer de outras formas. Existem traições emocionais, financeiras e de confiabilidade, cada uma com seu próprio peso.

Isso significa que a relação também pode ser ferida quando alguém esconde dinheiro, cria vínculos afetivos paralelos ou compartilha intimidades do casal com terceiros. "Existem traições de diversos níveis. A traição sexual bate em lugares muito doloridos, mas não é a única forma de traição", observa Aline.

Além disso, a especialista destaca que muitas rupturas começam de forma sutil. Pequenas permissões cotidianas, como intimidade excessiva com colegas ou conversas emocionais constantes com terceiros, podem abrir brechas perigosas.

"De repente, o sujeito que dá carona para a colega de trabalho passa mais tempo de qualidade com ela do que com a própria esposa. Ele se esvazia ali e, quando chega em casa, não tem mais o que dividir", explica.

Publicidade

O que fazer ao descobrir uma traição

A descoberta de uma traição costuma vir acompanhada de choque, raiva e vontade imediata de reagir. No entanto, Aline recomenda cautela antes de qualquer decisão definitiva.

Segundo ela, antes de confrontar ou expor a situação, é importante refletir sobre uma pergunta central: existe desejo real de continuar na relação depois do ocorrido? "Se você quer seguir com essa relação e tem razões claras sobre isso, é um caminho. Se não quer seguir, é outro caminho", diz.

A terapeuta também alerta sobre os riscos de reações impulsivas, exposição pública ou vingança. Esses comportamentos podem gerar consequências difíceis de reverter. Ainda assim, isso não significa esconder a dor, e sim buscar apoio antes de agir apenas pelo impacto emocional inicial.

Perdão não apaga a marca da traição

Outro ponto importante é a diferença entre perdão e esquecimento. Para Aline, quem foi traído não apaga o que aconteceu. O que pode existir é um processo de aceitação, elaboração do trauma e reconstrução gradual da confiança.

Publicidade

Esse processo, quando acontece, exige arrependimento consistente de quem traiu e disposição real de reparar o vínculo. Além disso, a terapia individual ou de casal pode ser essencial, principalmente diante de obsessão pelo tema, rancor constante ou dificuldade de seguir em frente.

Um cuidado especial envolve a comparação com a terceira pessoa envolvida. Muitas pessoas passam a questionar a própria aparência, idade ou capacidade de serem amadas. Sobre isso, a especialista é direta: "A sua autoestima não pode ser abalada porque ele não tem esse direito. Autoestima é uma percepção sobre você mesma", afirma.

Existe vida após a traição?

Segundo Aline, sim, mas não em todos os casos e não de qualquer forma. Algumas relações terminam, e esse também pode ser um caminho legítimo diante da traição. Outras, quando existe arrependimento real e desejo dos dois lados, podem seguir para uma nova fase.

"Não estou dizendo que alguém é obrigado a perdoar. Mas, quando as pessoas perdoam de verdade e se propõem a refazer a relação, podem encontrar uma nova chance", diz.

Publicidade

A especialista reforça que essa decisão precisa ser consciente. Permanecer por medo, dependência ou pressão social pode prolongar o sofrimento. Por outro lado, reconstruir exige coragem, apoio mútuo e compromisso real dos dois lados.

Traição e o poder da escolha

No fim, o debate sobre traição sempre esbarra em uma pergunta maior: que tipo de escolha cada pessoa quer fazer diante da ruptura? Para Aline, essa resposta define muito sobre o caminho que vem a seguir.

"A vida inteira é composta por escolhas. Das mais simples às mais difíceis. E são essas escolhas que contam quem você é", afirma.

Encarar a traição como um processo, e não apenas como um evento isolado, ajuda a compreender melhor a dor envolvida. Além disso, entender os diferentes tipos de ruptura e os caminhos possíveis pode tornar essa fase menos solitária e mais consciente.

Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se