Quando a viralidade ameaça a saúde: A prática do plástico na boca

Comer com plástico na boca: tendência viral nas redes sociais expõe jovens a graves riscos físicos, mentais e possíveis transtornos alimentares

23 mai 2026 - 10h33

Um novo desafio nas redes sociais, em que jovens aparecem mastigando plástico dentro da boca enquanto comem, acende um alerta entre médicos, psicólogos e educadores em 2026. A prática, apresentada em vídeos curtos como uma "brincadeira" ou truque para reduzir a fome, está associada a sérios riscos para a saúde física e mental e pode estar ligada ao agravamento de transtornos alimentares em adolescentes e adultos jovens.

Esse comportamento viral se espalha principalmente em plataformas baseadas em vídeos curtos, onde influenciadores mostram refeições com embalagens plásticas, filmes de PVC ou pedaços de sacolas na boca, sugerindo que o plástico ajudaria a "enganar" o estômago ou a comer menos. Profissionais de saúde alertam que a combinação de exposição constante, repetição de imagens e linguagem sedutora aumenta a chance de normalização de hábitos perigosos relacionados à alimentação.

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O que é a tendência de "comer com plástico na boca" e como ela se espalhou?

A tendência conhecida informalmente como "comer com plástico na boca" consiste em colocar pedaços de plástico — geralmente limpos, mas nem sempre — entre os dentes ou misturados à comida, enquanto a pessoa grava o conteúdo. Em muitos vídeos, o plástico não é engolido, mas permanece na boca durante a mastigação, com sons amplificados e closes, explorando o caráter sensorial e visual do ato.

Especialistas em comportamento digital apontam que o fenômeno combina elementos de desafios virais, conteúdo de ASMR (vídeos focados em sons de mastigação e texturas) e discursos sobre corpo e emagrecimento. A prática costuma aparecer associada a hashtags ligadas a dieta, controle de apetite e estética corporal, o que reforça a ligação entre essa tendência e transtornos alimentares já existentes ou em desenvolvimento.

Vídeos de jovens colocando plástico na boca enquanto comem viralizaram em plataformas digitais e acenderam um alerta sobre riscos físicos, transtornos alimentares e a influência de conteúdos extremos nas redes – Reprodução de redes sociais
Vídeos de jovens colocando plástico na boca enquanto comem viralizaram em plataformas digitais e acenderam um alerta sobre riscos físicos, transtornos alimentares e a influência de conteúdos extremos nas redes – Reprodução de redes sociais
Foto: Giro 10

Quais são os riscos físicos de comer com plástico na boca?

Do ponto de vista médico, a ingestão ou uso de plástico na boca representa um conjunto de ameaças. De acordo com gastroenterologistas consultados por veículos de referência e sociedades médicas, fragmentos de plástico podem causar desde engasgos e obstrução das vias aéreas até lesões no esôfago e no trato gastrointestinal. Mesmo quando não há ingestão visível, pequenas partículas podem se desprender durante a mastigação e ser deglutidas sem que a pessoa perceba.

Estudos recentes sobre microplásticos indicam que essas partículas vêm sendo encontradas em diversos tecidos do corpo humano, incluindo sangue, pulmões e até placenta. Pesquisas publicadas entre 2022 e 2025 em revistas como Environment International e The Lancet Planetary Health relacionam a exposição crônica a microplásticos a processos inflamatórios, estresse oxidativo e possíveis alterações hormonais. Ainda que muitos mecanismos sigam em investigação, sociedades médicas recomendam evitar ao máximo qualquer contato desnecessário com plástico na boca.

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Além disso, dentistas lembram que o atrito constante entre dentes e superfícies rígidas pode levar ao desgaste do esmalte dentário, fraturas em restaurações e aumento da sensibilidade. Há ainda o risco de cortes na mucosa interna da boca, especialmente quando se trata de embalagens com bordas irregulares ou restos de resíduos químicos presentes no material.

Impactos na saúde mental e relação com transtornos alimentares

Profissionais de saúde mental observam que a tendência de comer com plástico na boca dialoga com um cenário mais amplo de insatisfação corporal, restrição alimentar e busca por métodos extremos de emagrecimento. Psicólogos especializados em transtornos alimentares relatam, em serviços públicos e privados, o aumento de relatos de adolescentes que experimentam práticas perigosas inspiradas por vídeos, incluindo o uso de objetos na boca para tentar diminuir a fome.

A literatura científica sobre anorexia nervosa, bulimia e transtorno alimentar restritivo evita já estabeleceu que conteúdos que glamurizam dietas radicais ou romantizam o sofrimento físico podem funcionar como gatilhos para pessoas vulneráveis. Pesquisas divulgadas em periódicos como JAMA Psychiatry e International Journal of Eating Disorders entre 2020 e 2025 reforçam que a exposição repetida a imagens de controle extremo do corpo, somada a comparações sociais constantes, está associada a maior risco de desenvolvimento ou piora desses quadros.

Psicólogos também apontam a dimensão simbólica da prática: o uso de plástico na boca pode representar uma tentativa de controle, uma forma de "bloquear" a comida ou de transformar o ato de se alimentar em algo performático, voltado para a aprovação externa. Em pessoas com predisposição a transtornos alimentares, esse tipo de comportamento pode intensificar sentimentos de culpa, vergonha e obsessão com peso e aparência.

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Pesquisadores apontam que vídeos chocantes ou ligados a emagrecimento extremo recebem maior alcance nas redes sociais, criando um ambiente que pode normalizar práticas nocivas entre adolescentes e adultos jovens – Reprodução de redes sociais
Foto: Giro 10

Como os algoritmos das redes sociais alimentam essa tendência?

Pesquisadores em comunicação digital destacam que o algoritmo das principais plataformas prioriza conteúdos capazes de gerar retenção, curtidas, comentários e compartilhamentos. Vídeos que chocam, causam estranhamento ou despertam curiosidade, como pessoas comendo com plástico na boca, tendem a receber maior entrega e alcançar públicos que não pesquisaram ativamente esse tipo de tema.

Estudos sobre recomendação automática publicados desde 2022 mostram que, ao interagir com um vídeo de dieta extrema ou conteúdo sobre corpo, o usuário passa a receber sugestões de materiais semelhantes. Esse efeito de "túnel" pode criar uma linha de tempo repleta de desafios alimentares arriscados, reforçando a percepção de que práticas como a mastigação de plástico são mais comuns ou aceitáveis do que realmente são.

Organizações de saúde pública têm pressionado empresas de tecnologia para que incorporem mecanismos de identificação e limitação da disseminação de conteúdos que incentivem danos físicos. Algumas plataformas anunciaram, nos últimos anos, políticas específicas para remover vídeos que promovam transtornos alimentares ou autolesão, mas especialistas apontam que a moderação ainda falha em capturar rapidamente novas formas de comportamento nocivo, como essa tendência emergente.

Como prevenir e conscientizar sobre o perigo de comer com plástico na boca?

Profissionais de saúde e educadores sugerem uma combinação de informação clara, diálogo aberto e ações preventivas nas escolas, em casa e nos ambientes digitais. Em vez de apenas proibir ou ridicularizar quem participa desses desafios, especialistas recomendam abordar o tema de forma direta, explicando os riscos à saúde física e mental e incentivando a busca de ajuda em caso de sofrimento com a própria imagem ou alimentação.

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Algumas medidas indicadas por especialistas incluem:

  • Monitorar o tipo de conteúdo consumido por crianças e adolescentes, sem vigilância excessiva, mas com presença ativa.
  • Conversar sobre desafios virais e tendências, explicando que popularidade online não é sinônimo de segurança.
  • Estimular o pensamento crítico, questionando por que certos vídeos viralizam e quais interesses podem estar por trás.
  • Orientar para não reproduzir práticas que envolvam engolir ou mastigar objetos não alimentares.
  • Buscar apoio profissional ao perceber sinais de transtornos alimentares, como restrição intensa, culpa ao comer ou obsessão com o peso.

Campanhas públicas de comunicação, materiais educativos em escolas e a participação de influenciadores comprometidos com saúde baseada em evidências são apontados como caminhos importantes para reduzir o apelo desse tipo de conteúdo. Ao mesmo tempo, especialistas defendem a responsabilização das plataformas digitais, tanto na moderação de vídeos que naturalizam comer com plástico na boca quanto na oferta de avisos e links para serviços de apoio quando termos ligados a transtornos alimentares aparecem nas buscas.

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