Petosemtamab: um novo anticorpo contra o câncer

Em laboratórios e centros oncológicos de vários países, um medicamento experimental chamado petosemtamab vem ganhando espaço nas discussões sobre terapias contra o câncer. Saiba mais!

5 jan 2026 - 19h00

Em laboratórios e centros oncológicos de vários países, o medicamento experimental petosemtamab vem ganhando espaço nas discussões sobre terapias contra o câncer. Trata-se de um anticorpo biespecífico, desenvolvido para atingir ao mesmo tempo duas proteínas envolvidas no crescimento dos tumores: o EGFR e o LGR5. A proposta é simples na teoria, mas complexa na prática: bloquear sinais que alimentam o câncer e, ao mesmo tempo, aproximar o sistema imunológico das células doentes.

Esse tipo de estratégia chama a atenção especialmente no carcinoma de células escamosas de cabeça e pescoço, um tipo de câncer que pode afetar boca, garganta e laringe. Apesar dos avanços com imunoterapia e terapias-alvo, muitos pacientes ainda enfrentam recidivas e resposta limitada aos tratamentos atuais. Assim, o petosemtamab surge nesse cenário como uma possível alternativa para casos em que as opções se tornam escassas, embora ainda esteja em fase experimental e sob avaliação rigorosa.

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Trata-se de um anticorpo biespecífico, desenvolvido para atingir ao mesmo tempo duas proteínas envolvidas no crescimento dos tumores: o EGFR e o LGR5 – depositphotos.com / exty
Trata-se de um anticorpo biespecífico, desenvolvido para atingir ao mesmo tempo duas proteínas envolvidas no crescimento dos tumores: o EGFR e o LGR5 – depositphotos.com / exty
Foto: Giro 10

O que é o petosemtamab e por que o EGFR é tão relevante no câncer?

O petosemtamab é um anticorpo biespecífico, ou seja, uma molécula de anticorpo projetada para reconhecer dois alvos diferentes ao mesmo tempo. Um desses alvos é o EGFR (Receptor do Fator de Crescimento Epidérmico), proteína que é alvo de estudos em oncologia. O EGFR funciona como uma espécie de antena na superfície das células: quando ativado, envia sinais que estimulam proliferação, sobrevivência e formação de novos vasos sanguíneos. Em muitos tumores, esse receptor está em excesso ou hiperativado.

No câncer de cabeça e pescoço e em outros tumores sólidos, o EGFR pode atuar como motor de crescimento celular descontrolado. Por isso, já existem medicamentos mais antigos que se destinam a bloquear esse receptor. Porém, nem todos os pacientes respondem bem, e parte dos tumores encontra maneiras de escapar. O petosemtamab busca interferir na sinalização do EGFR, mas com uma abordagem ampliada: além de bloquear o receptor, a molécula foi desenhada para recrutar células de defesa e atuar sobre outra população celular importante dentro do tumor.

Como o alvo LGR5 entra em cena e qual a importância das células-tronco tumorais?

O segundo alvo do petosemtamab é o LGR5, um marcador associado a células-tronco em alguns tecidos e, em muitos estudos, a um subgrupo de células-tronco tumorais. Essas células são apontadas em pesquisas como potenciais responsáveis por manter o tumor, favorecer sua recidiva e, em certos casos, contribuir para resistência a tratamentos. Em alguns tumores de cabeça e pescoço e em outros cânceres, o LGR5 aparece em níveis elevados nessas células mais resistentes.

Ao reconhecer o LGR5, o petosemtamab pretende atingir justamente essa fração de células que tende a sobreviver após quimioterapia ou radioterapia. A ideia é reduzir o "reservatório" tumoral que pode voltar a crescer com o tempo. Em termos práticos, o anticorpo tenta combinar o bloqueio de uma via de sinalização amplamente usada pelas células cancerígenas (EGFR) com o ataque a um grupo celular que pode sustentar o tumor em longo prazo (células LGR5-positivas).

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Como o petosemtamab atua nas células tumorais e no sistema imunológico?

Além de reconhecer EGFR e LGR5, o petosemtamab é projetado para aproximar o sistema de defesa das células do câncer. Em estudo de laboratório, anticorpos desse tipo podem funcionar como uma "ponte" entre as células tumorais e células imunológicas, como linfócitos e outras células efetoras. Ao se ligar aos alvos presentes no tumor, o petosemtamab marca essas células para destruição e favorece mecanismos como a citotoxicidade mediada por anticorpos.

De maneira simplificada, o processo envolve dois movimentos principais:

  • Bloqueio de sinais de crescimento por meio da inibição do EGFR, reduzindo estímulos que favorecem a multiplicação tumoral.
  • Reconhecimento e ataque imunológico facilitado tanto contra células com EGFR quanto contra células que expressam LGR5, incluindo possíveis células-tronco tumorais.

Oncologistas que acompanham os estudos descrevem essa classe de medicamentos como uma evolução das terapias-alvo clássicas. Em entrevistas a congressos e publicações científicas, alguns especialistas ressaltam que a combinação entre bloqueio de via de crescimento e recrutamento do sistema imunológico pode oferecer respostas mais duradouras, especialmente em tumores conhecidos pela tendência à recidiva.

Em que estágio estão as pesquisas e o que significa a "Terapia Revolucionária" da FDA?

O petosemtamab ainda está em fase de pesquisa clínica. Ensaios de fase inicial avaliaram segurança, possíveis efeitos adversos e primeiras indicações de eficácia em pacientes com tumores avançados, incluindo o carcinoma de células escamosas de cabeça e pescoço recorrente ou metastático. Dados preliminares apresentados em congressos internacionais mostraram respostas em parte dos pacientes tratados, o que motivou a expansão dos estudos para grupos maiores.

A Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, concedeu ao petosemtamab a designação de "Terapia Revolucionária" (Breakthrough Therapy Designation) em um contexto específico de tratamento de câncer de cabeça e pescoço. Esse rótulo não significa aprovação, mas indica que os resultados obtidos até o momento sugerem um benefício clínico potencialmente relevante em comparação às terapias disponíveis.

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Com essa designação, o desenvolvimento do medicamento passa a ter:

  1. Acompanhamento mais próximo por parte da FDA.
  2. Processos regulatórios acelerados para análise de dados.
  3. Possibilidade de ajustes mais rápidos no desenho dos estudos, conforme novos resultados surgem.

Pesquisadores envolvidos nos ensaios destacam que, mesmo com essa classificação, o petosemtamab ainda precisa cumprir todas as etapas de avaliação, demonstrando benefício clínico consistente e perfil de segurança aceitável antes de qualquer decisão sobre registro.

O petosemtamab ainda está em fase de pesquisa clínica. Ensaios de fase inicial avaliaram segurança, possíveis efeitos adversos e primeiras indicações de eficácia em pacientes com tumores avançados, incluindo o carcinoma de células escamosas de cabeça e pescoço recorrente ou metastático – depositphotos.com / pressmaster
Foto: Giro 10

Quais podem ser os impactos do petosemtamab no tratamento do câncer?

Se os resultados dos estudos forem confirmados em fases mais avançadas, o petosemtamab pode representar uma opção adicional para pacientes com câncer de cabeça e pescoço que já passaram por linhas anteriores de tratamento. Em cenário prático, especialistas apontam alguns impactos potenciais:

  • Ampliação do arsenal terapêutico para tumores com poucas alternativas após falha de quimio ou imunoterapia.
  • Abordagem mais específica, ao mirar EGFR e LGR5, com foco em populações celulares envolvidas em crescimento e resistência tumoral.
  • Possível combinação com outros tratamentos, como imunoterapias já aprovadas, dependendo dos resultados de novos ensaios.

Em entrevistas concedidas a veículos científicos e painéis de congressos, oncologistas costumam enfatizar a necessidade de cautela. Embora a designação de Terapia Revolucionária e os dados iniciais sejam considerados encorajadores no meio acadêmico, ainda é cedo para definir o papel exato do petosemtamab na rotina clínica. Questões como duração de resposta, efeitos em diferentes grupos de pacientes e toxicidade em longo prazo estão em avaliação contínua.

Enquanto os estudos avançam, o petosemtamab passa a integrar um grupo de terapias inovadoras que tentam combinar alvos moleculares específicos com ativação do sistema imunológico. Para pacientes, famílias e equipes de saúde, o foco permanece em acompanhar com atenção os dados gerados, entender quais perfis de tumor podem se beneficiar mais e, sobretudo, garantir que eventuais futuras aplicações clínicas sejam baseadas em evidências robustas e criteriosamente analisadas.

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