A maternidade é um sonho que, muitas vezes, encontra obstáculos biológicos. Nesse cenário, a ovodoação surge como uma alternativa cada vez mais procurada e aceita pelas brasileiras.
Dados recentes do Grupo Huntington, referência nacional em medicina reprodutiva, mostram um cenário de transformação. O número de tratamentos com óvulos doados cresceu 27,8% entre 2024 e 2025.
O que é a ovodoação?
A ovodoação é uma técnica de reprodução assistida onde uma mulher recebe óvulos de uma doadora anônima.
Esses óvulos são fertilizados em laboratório com o sêmen do parceiro da paciente (ou de um doador) e, posteriormente, o embrião formado é transferido para o útero da mulher que deseja engravidar.
É importante destacar que, no Brasil, a doação é voluntária, anônima e altruísta (sem fins comerciais).
A doadora passa por uma bateria rigorosa de exames clínicos, genéticos e psicológicos para garantir a segurança de todos os envolvidos.
Já a receptora é quem vai gestar o bebê, vivenciando todas as etapas da gravidez, do parto e da amamentação.
Por que a procura aumentou tanto?
O crescimento de quase 30% em apenas um ano não é coincidência. Diversos fatores sociais e biológicos explicam essa alta demanda pela ovodoação.
O principal deles é o adiamento da maternidade. Muitas mulheres optam por engravidar mais tarde, priorizando a carreira ou a estabilidade financeira.
No entanto, a reserva ovariana (quantidade e qualidade dos óvulos) cai drasticamente após os 35 anos. Além da idade, outros fatores clínicos tornam a recepção de óvulos a melhor (e às vezes única) alternativa.
Principais indicações do tratamento
A técnica é recomendada especialmente para:
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Mulheres com baixa reserva ovariana;
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Casos de falência ovariana precoce (menopausa precoce);
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Mulheres com histórico de tratamentos oncológicos (quimioterapia ou radioterapia);
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Mulheres que possuem alterações genéticas transmissíveis;
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Casais homoafetivos masculinos (em gestação solidária).
"O filho é realmente meu?"
Talvez esta seja a barreira emocional mais comum. A insegurança sobre o vínculo com o bebê é natural no início do processo.
A pergunta "o filho será meu mesmo não tendo meu DNA?" passa pela cabeça da maioria das tentantes.
A resposta dos especialistas, porém, é categórica: sim, o filho é seu. E essa afirmação se sustenta tanto biológica quanto psicologicamente.
Segundo a Dra. Ana Paula Aquino, especialista em reprodução humana do Grupo Huntington, a maternidade não começa no óvulo, mas na decisão de gerar.
"A mulher que engravida por ovodoação vive todas as transformações hormonais, físicas e emocionais da gravidez. É esse processo que constrói o vínculo materno", explica a médica.
O corpo prepara o vínculo
Durante a gestação, o corpo da mulher que recebe o embrião trabalha intensamente.
É o organismo dela que nutre o feto, fornece oxigênio e cria o ambiente necessário para o desenvolvimento da vida.
Além disso, a interação entre o útero materno e o embrião é única. A mãe sente os movimentos do bebê, conversa com ele e estabelece uma conexão diária ainda no período intrauterino.
Essas experiências sensoriais são fundamentais para a construção do apego, muito antes do nascimento.
Maternidade além da genética
A sociedade está ressignificando o que define uma família. Histórias públicas têm ajudado a normalizar e tirar o estigma do tratamento.
A atriz Viviane Araújo, por exemplo, compartilhou abertamente sua experiência ao engravidar através da ovodoação.
Relatos como o dela mostram que o amor e a parentalidade são construídos na convivência e na entrega, não apenas em sequências de DNA.
Para a Dra. Cássia Avelar, psicóloga do Grupo Huntington, acreditar que o vínculo depende apenas da biologia é um "mito social".
"A parentalidade e a filiação não são aspectos somente biológicos, pois é o desejo e o discurso dos pais que irá definir o lugar que o filho ocupará na família", afirma a psicóloga.
Papel fundamental das doadoras
Se de um lado há o desejo de ser mãe, do outro há a solidariedade de quem doa.
Mulheres que escolhem doar óvulos permitem que outras realizem seus sonhos. Recentemente, a atriz Yana Sardenberg tornou pública sua decisão de ser doadora após congelar seus próprios óvulos.
Esse ato de empatia é o que move a engrenagem da reprodução assistida.
A doadora não tem qualquer responsabilidade legal ou parental sobre a criança, mas tem o papel crucial de possibilitar a vida.
Como iniciar o processo?
Se você se identificou com as situações descritas e considera a ovodoação, o primeiro passo é buscar uma clínica de reprodução assistida de confiança.
O processo envolve etapas claras:
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Avaliação médica: Análise da saúde geral e reprodutiva do casal.
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Apoio psicológico: Fundamental para alinhar expectativas e trabalhar questões emocionais.
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Compatibilidade: A clínica busca uma doadora com características físicas compatíveis com a receptora (tipagem sanguínea, cor de olhos, cabelo, etc.).
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Preparação do útero: A receptora utiliza medicamentos para preparar o endométrio para receber o embrião.
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Fertilização e Transferência: Ocorre em laboratório e, dias depois, o embrião é transferido.
A ovodoação é mais do que um tratamento médico; é uma possibilidade real de amor e constituição de família.
Como reforça a Dra. Ana Paula Aquino, "o que sustenta a maternidade é a presença emocional, o cuidado e a disponibilidade afetiva".
Se o seu sonho é ser mãe em 2026, a genética não precisa ser o fim da linha, mas apenas um detalhe em uma grande história de amor.