O que adoece não são nossos filhos, é o sistema.

O que adoece é o sistema? Por trás da rotina de mães atípicas, existem histórias de abandono, preconceito e uma sobrecarga que poucos veem.

31 out 2026 - 16h00
(atualizado às 16h02)
Resumo
O artigo denuncia que o adoecimento de mães de crianças atípicas não decorre dos filhos, mas da falência coletiva da sociedade e do Estado. A sobrecarga materna é alimentada pelo abandono parental, pela exclusão escolar, pela precariedade da saúde pública e privada e pelo preconceito no mercado de trabalho. Ao romantizar o sacrifício e negar direitos básicos, o sistema isola essas mulheres e naturaliza a exaustão física e mental de quem precisa lutar sozinha pelo cuidado e pela dignidade familiar.

O que adoece não são nossos filhos, é o sistema.

O que adoece é o sistema / Crédito: Canva
O que adoece é o sistema / Crédito: Canva
Foto: SaúdeLab / SaúdeLAB

Sistema que também tem o nome do pai que foi embora porque era pesado demais.

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E da avó. E da tia. Dos amigos que desapareceram. Da família que deixou de convidar para os almoços de domingo porque a criança dá muito trabalho.

Que tem o nome da escola que negou a vaga para o menino autista que ainda usa fralda, ou que é não verbal, ou que necessita de medicação em horários específicos, ou que precisa de adaptações nos espaços físicos, ou que emite "sons desagradáveis" que "perturbam" os colegas.

Tem o nome da professora que chama de falta de limites aquilo que não compreende. Da direção que sugere procurar outra escola. Dos pais que se organizam em grupos para pedir a retirada de uma criança da turma.

Dos aniversários para os quais nunca chega um convite.

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Sistema que tem o nome dos planos de saúde que interrompem os tratamentos sem a menor cerimônia. Ou do SUS que avisa que o CAPS e o posto de saúde estão sobrecarregados e sem profissionais, mas quem sabe em 2027. Ah, na farmácia também não há previsão de chegada do remédio.

Tem o nome do gestor público que anuncia investimentos em inclusão diante das câmeras, enquanto famílias esperam meses por uma consulta, anos por um diagnóstico e uma vida inteira pelo cumprimento de direitos que já estão escritos na legislação.

O sistema tem o nome dos empresários que negam emprego às mães de crianças atípicas porque elas são "encrencas" e não irão entregar os níveis de produção necessários para a roda girar a contento.

Tem o nome do empregador que pergunta, durante a entrevista, quem ficará com a criança quando ela adoecer.

E que jamais faria a mesma pergunta a um homem.

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O sistema tem o nome das mulheres que competem com outras mulheres e que julgam maternidades. Escolhas. Vivências e dores.

Tem o nome de quem pergunta por que essa mãe não trabalha.

E de quem pergunta por que ela trabalha tanto.

De quem a acusa de negligência quando está exausta e de exagero quando procura ajuda. De quem exige que ela esteja sempre disponível para o filho, para o marido, para o trabalho, para a casa, para os outros. E de quem desaparece quando ela própria precisa de alguma coisa.

Tem o nome do homem grande que olha feio no supermercado pelo uso da fila prioritária.

O nome da médica que nem sequer escuta a família do paciente, mas receita medicação para "deixar ele melhor e sem gerar tantas demandas".

Do outro, também médico, que vende a cura para o autismo na internet, escondido atrás de um terno caro e de um cabelo bem cortado.

Tem o nome de quem transforma o desespero de uma família em oportunidade de negócio. De quem promete resultados impossíveis, cobra fortunas e depois responsabiliza a mãe quando a promessa não se cumpre.

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Tem o nome do vizinho que reclama do choro. Do passageiro que revira os olhos no avião. De quem filma uma criança em crise para publicar nas redes sociais. De quem exige respeito à própria liberdade, mas não tolera a existência de alguém que se comporta de maneira diferente.

Tem o nome do profissional que fala sobre inclusão em congressos, mas não admite uma criança autista na sala de aula do próprio filho. Da autoridade que discursa sobre direitos humanos, mas não reserva orçamento para garantir atendimento. De quem conhece a legislação, reconhece a violação e recomenda que a família procure a Justiça.

Tem o nome das audiências, dos protocolos, dos requerimentos, dos laudos e das perícias. Das mães que precisam provar repetidamente que seus filhos existem, que suas necessidades são reais e que os direitos reivindicados já deveriam estar assegurados.

Tem o nome de quem compartilha campanhas de conscientização em abril e passa os outros onze meses do ano reproduzindo as mesmas violências que diz combater.

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E tem o nome de uma sociedade que naturalizou o esgotamento materno.

Que se acostumou a ver mulheres abandonarem carreiras, estudos, projetos e a própria saúde para preencher, com seus corpos e suas horas, as ausências do Estado, das instituições e das pessoas que deveriam dividir com elas a responsabilidade pelo cuidado.

Mulheres que dormem pouco, adoecem muito, envelhecem precocemente e aprendem a organizar a vida em torno de consultas, terapias, reuniões escolares, recursos administrativos, negativas de cobertura, filas de espera e contas que não fecham.

Mulheres que, quando finalmente dizem que estão cansadas, ainda precisam ouvir que deveriam agradecer, porque seus filhos são especiais e foram escolhidas para uma missão.

Como se o amor pagasse as contas. Como se a maternidade eliminasse a necessidade de descanso. Como se uma mulher pudesse passar décadas cuidando de todos sem que ninguém precisasse cuidar dela.

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O sistema devora vidas inteiras.

E tem também o meu nome. E o seu.

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Fonte: SaúdeLAB
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