Nos últimos anos, muitas pessoas passaram a associar alimentação sem glúten à perda de peso. Assim, a expressão "dieta sem glúten" aparece em rótulos, redes sociais e cardápios de restaurantes. Portanto, isso cria a ideia de que tirar o glúten automaticamente ajuda a emagrecer. No entanto, essa relação é mais complexa e depende de vários fatores ligados ao padrão alimentar como um todo, e não apenas à presença ou ausência dessa proteína.
O glúten é um conjunto de proteínas presente em cereais como trigo, centeio e cevada. Ele é responsável pela elasticidade de massas de pães, bolos e massas em geral. Porém, em pessoas com doença celíaca ou sensibilidade ao glúten, a retirada dessa proteína é uma necessidade médica. Já para quem não tem essas condições, a conexão entre eliminar o glúten e diminuir o peso precisa ser analisada com mais cuidado e sem generalizações.
Eliminar o glúten emagrece por si só?
A ideia de que retirar o glúten da alimentação leva, por si só, à redução de peso não se sustenta de forma consistente por estudos científicos em pessoas saudáveis. O que frequentemente acontece é que, ao cortar alimentos com glúten, a pessoa também passa a reduzir o consumo de itens ultraprocessados. Entre eles estão pães de forma recheados, biscoitos recheados, bolos prontos e fast food, o que naturalmente diminui o total de calorias ingeridas.
Nesses casos, a perda de peso relaciona-se mais à redução calórica e à mudança de padrão alimentar do que ao glúten em si. Quando a retirada do glúten é acompanhada de aumento do consumo de frutas, legumes, verduras, proteínas magras e grãos sem glúten, como arroz e quinoa, o resultado tende a ser um cardápio mais equilibrado, que pode favorecer o emagrecimento. Porém, se os alimentos com glúten forem simplesmente trocados por versões sem glúten altamente processadas, ricas em açúcares e gorduras, o efeito pode ser o oposto.
Alimentação sem glúten ajuda mesmo a diminuir o peso?
Para avaliar se uma dieta sem glúten favorece a perda de peso, é preciso observar o conjunto da alimentação. Muitos produtos industrializados "gluten free" utilizam farinhas refinadas, óleos em excesso e mais açúcar para manter textura e sabor. Alguns pães e bolos sem glúten podem ter valor calórico igual ou até maior do que as versões tradicionais com trigo.
Assim, a eliminação do glúten só tende a contribuir para a redução de peso quando vem acompanhada de outras mudanças, como:
- Redução de alimentos ultraprocessados, independentemente de terem ou não glúten.
- Maior consumo de alimentos in natura e minimamente processados.
- Atenção ao tamanho das porções e à frequência das refeições.
- Associação com prática regular de atividade física.
Em pessoas com doença celíaca diagnosticada, a retirada completa do glúten pode inclusive levar a ganho de peso no início do tratamento, pois o organismo volta a absorver nutrientes de forma adequada. Nesses casos, a meta principal é a recuperação da saúde intestinal, não o emagrecimento.
Quais fatores realmente influenciam o emagrecimento?
A perda de peso está ligada a um conjunto de variáveis, entre elas o balanço entre calorias consumidas e gastas, o tipo de alimento ingerido, o nível de atividade física, o sono e até o grau de estresse diário. O glúten é apenas um componente possível dentro desse cenário.
Alguns pontos costumam ter impacto mais direto na balança do que a simples presença de glúten:
- Quantidade de calorias: ingerir mais energia do que o corpo gasta tende a causar ganho de peso, mesmo com alimentos sem glúten.
- Qualidade nutricional: refeições com muitos açúcares, gorduras saturadas e farinhas refinadas, com ou sem glúten, podem dificultar o emagrecimento.
- Consumo de fibras: fibras presentes em frutas, legumes, verduras e grãos integrais ajudam na saciedade e no funcionamento intestinal.
- Rotina de exercícios: atividade física regular aumenta o gasto calórico e contribui para a manutenção de massa muscular.
- Organização das refeições: fazer lanches planejados e refeições completas costuma reduzir beliscos em excesso ao longo do dia.
Quando faz sentido adotar uma dieta sem glúten?
A retirada total do glúten da alimentação é indicada de forma clara em três situações principais: doença celíaca, alergia ao trigo e sensibilidade ao glúten não celíaca, desde que devidamente avaliadas por profissionais de saúde. Nesses cenários, seguir uma dieta sem glúten é fundamental para evitar sintomas e complicações.
Fora dessas condições, a adoção de um cardápio livre de glúten por conta própria tende a ser uma escolha mais de estilo de vida do que de necessidade clínica. Em qualquer caso, o foco recomendado pelos especialistas costuma ser a qualidade geral da alimentação, com prioridade para alimentos variados, boa hidratação e rotina ativa. Em vez de concentrar a atenção exclusivamente na eliminação de um único componente, como o glúten, a orientação mais segura é observar o padrão alimentar completo e, se possível, contar com acompanhamento profissional.