A doença renal crônica costuma evoluir de forma silenciosa, mas sinais como inchaço, fadiga, urina espumosa ou com sangue e pressão alta de difícil controle servem de alerta para investigação médica. Como o quadro clínico inicial costuma ser assintomático, grupos de risco com histórico de hipertensão ou diabetes devem realizar exames preventivos de sangue e urina com regularidade, além de evitar o excesso de sal e a automedicação, retardando o avanço de possíveis lesões renais graves.
Cansaço, inchaço, alterações na urina e pressão arterial elevada são sinais que muitas pessoas podem atribuir à rotina, à alimentação ou até ao envelhecimento. Em alguns casos, porém, essas manifestações podem estar relacionadas à saúde dos rins. O problema é que nem sempre o organismo dá indícios claros: doenças renais, especialmente a doença renal crônica (DRC), podem evoluir de maneira silenciosa nos estágios iniciais.
"Os rins têm uma característica importante: muitas doenças renais evoluem de maneira silenciosa. Nas fases iniciais da doença renal crônica, a pessoa pode não sentir absolutamente nada. Por isso, não devemos esperar o aparecimento de sintomas para investigar os rins, principalmente em pessoas que apresentam fatores de risco", explica a nefrologista Dra. Márcia Queiroz, sócia e diretora médica da Clínica Renal Prime.
Segundo a especialista, entre as manifestações que merecem atenção estão "inchaço nas pernas, tornozelos ou ao redor dos olhos; alterações na quantidade ou no aspecto da urina; presença de sangue na urina; urina persistentemente muito espumosa; elevação ou dificuldade de controle da pressão arterial; cansaço excessivo; falta de ar; perda de apetite; náuseas; coceira; câimbras e redução da quantidade de urina".
A médica, no entanto, reforça que a presença de um desses sintomas não significa, isoladamente, que exista uma doença renal. "É importante ressaltar que nenhum desses sintomas isoladamente confirma uma doença renal. Eles são sinais de alerta que, dependendo do contexto clínico, justificam investigação."
A seguir, entenda como alguns sintomas podem levantar a suspeita de que os rins não estão funcionando adequadamente, alertando sobre a doença renal.
Atenção às mudanças na urina
A urina pode oferecer pistas importantes sobre o funcionamento dos rins. Alterações persistentes na aparência, quantidade ou frequência devem ser observadas, especialmente quando são diferentes do padrão habitual da pessoa.
"Uma urina persistentemente muito espumosa, por exemplo, pode ser manifestação de proteinúria, ou seja, perda de proteínas pela urina. A albuminúria é um dos marcadores mais importantes de lesão renal e também está associada ao risco de progressão da doença renal e ao risco cardiovascular", explica a Dra. Márcia Queiroz.
Outro sinal que merece investigação é a presença de sangue na urina. A alteração pode ter diferentes causas e não significa necessariamente doença renal crônica. "Pode estar relacionado a cálculos, infecção urinária, doenças glomerulares, alterações urológicas e outras condições", afirma.
Mudanças importantes na quantidade de urina, aumento da frequência, necessidade de urinar várias vezes à noite ou redução significativa do volume urinário também devem ser observadas, principalmente quando surgem recentemente. A cor da urina, porém, não deve ser analisada isoladamente. "Ela pode mudar pela hidratação, alimentação, medicamentos e várias outras condições. Por isso, uma alteração persistente ou acompanhada de outros sintomas deve ser avaliada", orienta a médica.
Inchaço e cansaço também podem ter relação com os rins
Os rins têm papel fundamental no controle do volume de líquidos e do equilíbrio de sódio do organismo. Quando há um comprometimento significativo da função renal, pode ocorrer retenção de sódio e água, levando ao aparecimento de edema.
"Quando existe comprometimento renal significativo, pode ocorrer retenção de sódio e água, levando a edema, principalmente nas pernas e tornozelos. Em algumas doenças com perda importante de proteínas pela urina, o edema pode surgir inclusive ao redor dos olhos", explica a nefrologista.
O cansaço também pode aparecer, principalmente nos estágios mais avançados da doença renal. "Pode estar relacionado, entre outros fatores, à anemia da doença renal crônica, distúrbios metabólicos e acúmulo de toxinas urêmicas." A médica ressalta, entretanto, que o sintoma é bastante inespecífico e não deve ser automaticamente atribuído aos rins.
Pressão alta e saúde renal estão diretamente relacionadas
Existe uma relação de mão dupla: a hipertensão pode contribuir para o desenvolvimento da doença renal crônica e, ao mesmo tempo, alterações nos rins podem favorecer o aumento da pressão. "A hipertensão é uma das principais causas de doença renal crônica e, ao mesmo tempo, a própria doença renal pode contribuir para o desenvolvimento ou agravamento da hipertensão", explica a Dra. Márcia Queiroz.
Por isso, uma pressão que começa a subir sem explicação, uma hipertensão de difícil controle ou a necessidade crescente de medicamentos anti-hipertensivos são situações que, segundo a especialista, também merecem avaliação da função renal.
É possível ter doença renal e não sentir nada
A ausência de sintomas é justamente um dos motivos pelos quais o acompanhamento preventivo é tão importante. Uma pessoa pode apresentar alterações na função dos rins e continuar se sentindo bem. "A doença renal crônica frequentemente é assintomática nas fases iniciais. Uma pessoa pode apresentar alteração renal relevante e se sentir perfeitamente bem. Por isso, em pessoas de risco, a avaliação laboratorial é fundamental", afirma a nefrologista.
Entre os exames importantes, estão a creatinina sérica com cálculo da taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) e a pesquisa de albuminúria, preferencialmente pela relação albumina/creatinina urinária. Um exame simples de urina também pode identificar sangue, proteínas e outras alterações. "Não devemos olhar somente a creatinina. A TFGe fornece uma estimativa mais adequada da função renal, enquanto a albuminúria avalia outra dimensão da doença: a presença de lesão renal", explica.
Hábitos que podem prejudicar os rins
A prevenção da doença renal está diretamente relacionada ao controle de fatores de risco e aos hábitos adotados no dia a dia. "Manter a pressão arterial adequadamente controlada, controlar bem o diabetes, praticar atividade física regularmente, manter peso adequado, não fumar e adotar alimentação equilibrada, com atenção especial ao excesso de sal, são medidas importantes", orienta a Dra. Márcia Queiroz.
Outro cuidado importante é evitar a automedicação. "Isso inclui, em determinadas circunstâncias, anti-inflamatórios não esteroidais. Fitoterápicos, suplementos e outras substâncias também não devem ser considerados automaticamente seguros apenas por serem chamados de 'naturais'."
E, apesar da associação frequente entre hidratação e saúde dos rins, a recomendação de beber água também não deve ser generalizada. "Eu evitaria a frase simplificada de que 'quanto mais água, melhor para os rins'. A necessidade hídrica varia de pessoa para pessoa, conforme clima, atividade física, alimentação, função cardíaca e renal, entre outros fatores", afirma a médica
Quem deve ficar especialmente atento?
Mesmo sem apresentar sintomas, alguns grupos precisam ter acompanhamento mais próximo da saúde renal. É o caso de pessoas com diabetes, hipertensão arterial, doença cardiovascular e histórico familiar de doença renal ou insuficiência renal.
"Dependendo do contexto, idade, obesidade, episódios prévios de lesão renal aguda, doenças autoimunes, alterações urológicas e exposição recorrente a medicamentos nefrotóxicos também aumentam a necessidade de vigilância", afirma a especialista.
Para a Dra. Márcia Queiroz, a principal mensagem é que a prevenção não deve começar apenas quando surge algum sintoma. "Cuidar dos rins não significa esperar aparecer dor ou algum sintoma. Muitas vezes, quando os rins começam a dar sinais evidentes, a doença já está mais avançada. Para quem apresenta fatores de risco, medir a pressão arterial e realizar periodicamente creatinina com TFGe e avaliação de albuminúria na urina permite detectar alterações precocemente e iniciar medidas capazes de reduzir a progressão da doença renal", finaliza.
Por Rosimere Basilio