Celebrado em 27 de outubro, o Dia Nacional de Mobilização Pró-Saúde da População Negra debate as desigualdades raciais e sociais que afetam o bem-estar de pretos e pardos no Brasil. Pesquisas como o Elsa-Brasil e dados do Cedra revelam maior prevalência de doenças crônicas, transtornos mentais e impactos do racismo na saúde física desse grupo, além de menor acesso a consultas odontológicas e planos privados, reflexos diretos de disparidades socioeconômicas e educacionais históricas no país.
O dia 27 de outubro marca o Dia Nacional de Mobilização Pró-Saúde da População Negra, data dedicada a ampliar o debate sobre desigualdades que ainda afetam o acesso aos cuidados e as condições de saúde de pessoas pretas e pardas no Brasil.
A mobilização também chama atenção para fatores sociais que interferem diretamente no bem-estar. A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, instituída em 2009 e posteriormente incorporada às normas de consolidação do Ministério da Saúde, reconhece o racismo e as desigualdades étnico-raciais entre os determinantes sociais da saúde.
O que os dados mostram sobre a saúde da População Negra?
Pesquisas realizadas no país ajudam a dimensionar essas diferenças. O Elsa-Brasil, que acompanha mais de 15 mil adultos e idosos, identificou maior presença de algumas doenças crônicas entre participantes negros em comparação aos brancos.
No início do acompanhamento, entre 2008 e 2010, 48% dos participantes pretos apresentavam hipertensão, 27% tinham diabetes e 11% conviviam com doença renal crônica. Entre as mulheres pretas, cerca de 10% apresentavam seis ou mais condições crônicas, enquanto 40% conviviam com transtornos mentais comuns, como ansiedade e depressão.
Ademais, o estudo mostrou que essas diferenças não aparecem de forma isolada. Condições socioeconômicas, escolaridade, local de moradia e experiências de discriminação podem expor determinados grupos a situações de estresse e a condições menos favoráveis à saúde ao longo da vida.
Entre os participantes pretos, 32% relataram ter sofrido discriminação racial. Segundo o Elsa-Brasil, essas experiências foram associadas a pior função renal, maior rigidez das artérias, aterosclerose — condição relacionada ao risco cardiovascular — e ganho de peso mais acelerado. Já morar em áreas de menor renda apareceu relacionado a uma maior ocorrência de hipertensão e diabetes.
Desigualdade também aparece no acesso aos cuidados
A saúde bucal é outro ponto em que os indicadores revelam diferenças. Um levantamento do Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais (Cedra), realizado em 2019, mostrou que 29,2% da população preta entrevistada nunca havia passado por consulta com um cirurgião-dentista ou não procurava esse profissional havia mais de três anos. Entre os participantes brancos, o percentual era de 20,1%.
A distância também apareceu no acesso a planos. Entre as pessoas pretas, 21,7% tinham plano de saúde ou odontológico, diante de 40% entre os brancos. Para a cirurgiã-dentista Patrícia Tozzo, integrante da Câmara Técnica de Saúde Coletiva do CROSP, a dificuldade envolve não apenas a existência de serviços, mas também as condições de acesso e o conhecimento sobre os recursos disponíveis.
"Eu acredito que o acesso é pouco para a maior parte da população, em especial pessoas negras, pelo histórico e educação que o país tem. Por conta dessas condições, talvez essas pessoas não desenvolveram entendimento sobre o acesso de saúde que elas possuem", ressaltou em um comunicado.