Como as apostas on-line afetam a produtividade e a saúde mental

Descubra como o vício em apostas online prejudica produtividade, concentração e desempenho no trabalho. Saiba identificar sinais e buscar ajuda.

18 ago 2026 - 15h13
Resumo
O aumento das apostas on-line levanta preocupações sobre os impactos da ludopatia, que vai além da esfera pessoal e afeta também o ambiente profissional. Entre os sinais de alerta estão perda de concentração, irritabilidade e problemas financeiros. Especialistas destacam a importância do acolhimento, enquanto o Ministério da Saúde oferece apoio via telemedicina. 💻

O avanço das apostas on-line tem levado a discussão sobre ludopatia para além da vida financeira e familiar. O comportamento compulsivo também pode afetar a rotina profissional, principalmente quando o trabalhador passa a dedicar parte significativa da atenção às apostas, aos resultados e às tentativas de recuperar perdas.

Foto: staticnak1983/Getty Images Signature / Alto Astral

Com acesso facilitado pelo celular, as apostas on-line podem comprometer concentração, sono, relações profissionais e desempenho de trabalhadores. E o pior: muitas vezes a pessoa nem percebe que está desenvolvendo um problema sério.

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Segundo a psicóloga Denise Milk, o transtorno do jogo não deve ser confundido com falta de disciplina ou com o simples hábito de apostar. "O primeiro ponto importante é compreender que não estamos falando simplesmente de falta de disciplina ou de uma pessoa que 'gosta muito de apostar'. O transtorno do jogo é reconhecido como um transtorno mental e comportamental e tem como características centrais a perda de controle sobre o comportamento de apostar, a prioridade crescente dada ao jogo e sua continuidade apesar das consequências negativas", afirma.

Sinais de vício em bets

A especialista explica que a preocupação com as apostas pode permanecer mesmo quando a pessoa não está diante da plataforma. "Quando essa relação se torna problemática, a pessoa pode permanecer mentalmente conectada às bets mesmo quando não está jogando. Ela pensa nos resultados, acompanha partidas, calcula perdas, busca formas de recuperar o dinheiro e planeja novas apostas. Isso consome um recurso essencial para qualquer atividade profissional: atenção", explica.

No ambiente de trabalho, essa preocupação pode aparecer por meio de queda de produtividade, dificuldade de concentração, erros, atrasos, irritabilidade e mudanças de humor. As perdas financeiras também podem aumentar sentimentos de culpa, ansiedade e preocupação, além de levar o trabalhador a esconder o problema.

Denise destaca que alguns comportamentos ajudam a identificar quando a aposta deixou de ser uma atividade recreativa. "Alguns sinais merecem atenção: dificuldade recorrente de parar ou reduzir as apostas, gastar mais dinheiro ou permanecer jogando por mais tempo do que havia planejado, tentar recuperar perdas por meio de novas apostas, esconder ou mentir sobre o comportamento, utilizar dinheiro comprometido com outras necessidades e continuar apostando mesmo percebendo prejuízos financeiros, emocionais, familiares ou profissionais", ressalta.

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Como as bets afetam o trabalho

Outro ponto de atenção ocorre quando a aposta passa a ser utilizada como uma forma de lidar com emoções negativas. "Existe uma mudança importante quando a pessoa deixa de escolher quando apostar e começa a sentir que precisa apostar. A perda de liberdade diante do comportamento é um sinal de alerta relevante", afirma a psicóloga.

A preocupação constante também pode interferir no sono. A pessoa pode permanecer conectada às plataformas, acompanhar jogos e resultados até tarde ou ter dificuldade para desacelerar por causa da ansiedade relacionada às bets e às perdas. Com isso, no dia seguinte, podem surgir impactos na atenção, memória, tomada de decisão e humor.

"O sono também pode ser afetado. A pessoa pode permanecer conectada às plataformas, acompanhar jogos e resultados até tarde ou apresentar dificuldade para desacelerar diante da ansiedade provocada pelas apostas e pelas perdas. E um sono prejudicado repercute novamente sobre atenção, memória, tomada de decisão, humor e capacidade de lidar com situações de pressão no dia seguinte", explica Denise.

Para as empresas, o desafio é reconhecer possíveis sinais de sofrimento sem transformar a situação em julgamento. Queda persistente de desempenho, erros incomuns, alterações importantes de humor, dificuldade de concentração, uso excessivo do celular durante o expediente, isolamento, atrasos ou mudanças significativas no padrão de relacionamento podem indicar que o trabalhador enfrenta alguma dificuldade.

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Como empresas devem agir

"A empresa precisa ter bastante cuidado para não assumir um papel diagnóstico que não lhe pertence. Gestores e colegas não devem rotular alguém como 'viciado em apostas'. O que eles podem e devem observar são mudanças concretas de comportamento e de funcionamento profissional", orienta a psicóloga.

Segundo Denise, a abordagem deve partir do cuidado, e não da acusação. "A abordagem mais adequada é partir da observação e não do julgamento: 'Tenho percebido que você está diferente, com dificuldade de concentração e mais preocupado. Existe alguma coisa acontecendo em que possamos ajudá-lo?'", destaca.

A especialista também chama atenção para a responsabilidade das organizações na criação de ambientes de trabalho mais saudáveis. "Empresas saudáveis constroem ambientes em que as pessoas conseguem pedir ajuda antes que o sofrimento se transforme em uma crise. Isso envolve lideranças preparadas para reconhecer mudanças de comportamento, conversar de maneira responsável, manter confidencialidade e encaminhar para suporte profissional quando necessário", afirma.

No caso das bets, o acolhimento pode ser especialmente importante porque culpa e vergonha podem atrasar a busca por ajuda. "Tratar o problema como uma questão de saúde, e não como uma falha moral, é o primeiro passo para que a ajuda realmente aconteça", conclui Denise Milk.

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Onde buscar ajuda

O Ministério da Saúde lançou, em março de 2026, um programa de telemedicina focado exclusivamente em pessoas que enfrentam problemas com apostas. A inscrição deve ser feita no aplicativo Meu SUS Digital (Android e iPhone), oferecendo atendimento sigiloso em saúde mental para apostadores e familiares.

Segundo dados recentes, as bets atingem 39,5 milhões de brasileiros e empresas já percebem impacto na produtividade. Cerca de 43% dos profissionais endividados relatam dificuldade de concentração, enquanto 35% dizem perceber aumento de conflitos com colegas.

Especialistas alertam que, embora o uso dos sites e aplicativos de apostas virtuais em dinheiro não esteja necessariamente associado a transtornos à saúde mental, o endividamento, a perda de controle e a ansiedade provocados pelo jogo podem criar um ciclo com reflexos na vida pessoal e profissional.

Se você identificou algum desses sinais em si mesmo ou em alguém próximo, o primeiro passo é buscar ajuda profissional. O tratamento para ludopatia existe e pode ajudar a recuperar o controle sobre as bets e restaurar o equilíbrio na vida pessoal e profissional.

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