Uma criança passa horas no celular. O adolescente recebe notificações, vídeos e mensagens o tempo todo. Os pais tentam estabelecer limites, enquanto escolas lidam com conflitos que começaram na internet e continuam dentro da sala de aula.
Nesse cenário, uma pergunta ganhou força: quem deve responder pelos efeitos das redes sociais sobre crianças e adolescentes?
A resposta envolve mais de um lado. As plataformas têm responsabilidade sobre a forma como seus produtos são desenvolvidos e os mecanismos de proteção oferecidos. Pais, escolas e poder público também têm papéis diferentes.
A discussão ganhou mais força nesta semana, quando a Meta começou a ser julgada nos Estados Unidos em uma ação movida por uma coalizão de 29 estados.
As autoridades acusam a empresa de desenvolver recursos capazes de estimular o uso compulsivo por crianças e adolescentes e de não protegê-los adequadamente. A Meta nega as acusações.
Quase todo adolescente brasileiro está conectado
Segundo a TIC Kids Online Brasil 2025, 92% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos usam a internet no país. Entre os usuários, 71% disseram usar redes sociais.
Por isso, a discussão não é apenas sobre o tempo diante da tela, mas também sobre o conteúdo consumido e a forma como as plataformas disputam a atenção dos jovens.
Para a psicóloga e neurocientista Mayra Gaiato, a tecnologia não deve ser tratada como vilã.
"Não podemos partir da ideia de que tecnologia é simplesmente ruim. Ela faz parte da vida, da educação, das relações e do futuro profissional desses jovens. O problema começa quando determinados recursos disputam continuamente a atenção de um cérebro que ainda está amadurecendo e quando o adolescente não tem repertório suficiente para regular sozinho essa relação", explica.
Por que pode ser difícil estabelecer limites?
A adolescência é marcada por mudanças importantes no desenvolvimento cerebral.
Questões como recompensa, novidade, emoções e pertencimento social ganham peso nessa fase, enquanto habilidades relacionadas ao planejamento e ao controle de impulsos ainda estão em desenvolvimento.
Isso não significa que adolescentes sejam incapazes de tomar decisões ou que as redes sociais inevitavelmente provoquem problemas. Mas ajuda a entender por que determinados mecanismos digitais podem ser difíceis de administrar.
Curtidas, comentários, notificações, vídeos curtos e recomendações contínuas oferecem estímulos sucessivos. A necessidade de pertencimento também pode tornar a experiência nas redes especialmente relevante.
"Para um adolescente, pertencer ao grupo tem um peso enorme. Ser visto, receber uma resposta ou perceber que está ficando de fora pode produzir um impacto emocional muito diferente daquele experimentado por um adulto. Quando adicionamos a isso sistemas que oferecem estímulos novos o tempo inteiro, precisamos entender que não estamos falando apenas de falta de disciplina", afirma Mayra.
Por isso, simplesmente mandar o adolescente largar o celular pode não resolver a questão.
"Autorregulação é uma habilidade que precisa ser construída. Se nós entregamos uma ferramenta extremamente estimulante e esperamos que um adolescente estabeleça sozinho todos os limites, estamos transferindo para ele uma responsabilidade que precisa ser compartilhada pelos adultos e também pelas próprias plataformas", acrescenta.
O papel dos pais não desaparece
Reconhecer a responsabilidade das plataformas não significa retirar a dos pais e responsáveis.
Cabe aos adultos estabelecer limites, acompanhar a vida digital dos filhos e criar um ambiente em que crianças e adolescentes se sintam seguros para contar quando alguma situação os incomodar.
Supervisão dos pais, porém, não se resume a instalar uma ferramenta no celular.
"Controle parental não pode significar apenas instalar uma configuração e acreditar que o problema está resolvido. Precisamos conversar sobre o que esses adolescentes veem, quem seguem, como se sentem depois de passar horas em determinada plataforma, com quem conversam e o que fazem quando encontram algo que os assusta ou constrange. Supervisão precisa caminhar junto com vínculo", destaca Mayra.
O problema também chega à escola
A vida digital também atravessa os muros da escola.
Uma discussão iniciada em um grupo de mensagens, um vídeo compartilhado entre colegas ou uma situação de exposição nas redes pode continuar no dia seguinte, dentro da sala de aula.
Para o doutor em Educação Lucelmo Lacerda Brito, não faz mais sentido tratar os ambientes digital e escolar como realidades completamente separadas.
"O aluno não deixa a vida digital do lado de fora quando entra na escola. Uma discussão que começou à noite em um grupo, uma exposição em rede social, um vídeo compartilhado entre colegas ou uma situação de cyberbullying chega à sala no dia seguinte. Isso interfere nas relações, na concentração, no clima escolar e no trabalho do professor", explica.
Retirar o celular de determinados momentos pode proteger o espaço pedagógico, mas não resolve sozinho a relação do estudante com a tecnologia.
"Educação digital precisa envolver pensamento crítico, privacidade, respeito, reconhecimento de manipulação, responsabilidade sobre aquilo que se publica e compreensão de que uma ação online pode produzir consequências muito concretas fora da tela", afirma Lucelmo.
Até onde deve ir a intervenção do Estado?
No Brasil, o ECA Digital, em vigor desde março de 2026, estabeleceu novas obrigações para serviços digitais e mecanismos relacionados à proteção de crianças e adolescentes.
A legislação também ampliou a atuação do poder público sobre as plataformas.
A aplicação dessas regras já produz conflitos. Em agosto, a ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) abriu um processo de fiscalização contra o Discord para apurar possíveis falhas na proteção de crianças e adolescentes.
Dias depois, determinou preventivamente a suspensão da funcionalidade "Go Live" e de recursos equivalentes de transmissão e compartilhamento de vídeo para usuários no Brasil.
O episódio coloca outra questão no centro do debate: como proteger crianças e adolescentes sem transformar medidas de proteção em restrições desproporcionais?
Para Lucelmo, estabelecer limites pode ser necessário, mas a educação digital não deveria ter como objetivo criar uma dependência permanente da fiscalização dos adultos.
"Existem situações em que limitar é necessário. Crianças e adolescentes precisam de regras. Mas o objetivo da educação não pode ser formar alguém que só funciona enquanto existe um adulto retirando o celular de sua mão. Precisamos formar uma pessoa capaz de compreender riscos, fazer escolhas e utilizar tecnologia com responsabilidade quando ninguém estiver fiscalizando", argumenta.
Mayra também defende que essa autonomia seja construída gradualmente.
"Não entregamos a chave de um carro para um adolescente sem ensinar regras, riscos e responsabilidades. Com o ambiente digital, durante muito tempo fizemos quase o contrário: colocamos uma ferramenta poderosíssima na mão de crianças cada vez mais novas e esperamos que elas aprendessem sozinhas a utilizá-la. Estamos percebendo que essa conta precisa ser dividida."
A responsabilidade, portanto, não está concentrada em um único lugar.
Plataformas precisam responder pela maneira como seus produtos funcionam e pelos mecanismos de proteção oferecidos.
O poder público precisa estabelecer regras e fiscalizar sua aplicação, sem perder de vista a proporcionalidade e evitando exageros.
Escolas, por sua vez, precisam preparar os alunos para uma realidade que já faz parte de sua vida.
E os pais continuam tendo uma função que nenhuma ferramenta de controle parental consegue substituir: acompanhar, conversar e ensinar o jovem a tomar decisões no ambiente digital.
"A família tem responsabilidade. A escola tem responsabilidade. As plataformas também têm. E o poder público precisa estabelecer parâmetros de proteção. O que não podemos fazer é colocar toda essa responsabilidade sobre um adolescente cujo cérebro ainda está aprendendo justamente a regular impulsos, avaliar consequências e tomar decisões", afirma Mayra.
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