A busca por estratégias para fortalecer os ossos leva muitos adultos e idosos a recorrerem a comprimidos de cálcio e vitamina D. Uma grande revisão científica publicada no The British Medical Journal (BMJ), que envolveu quase 154 mil pessoas, analisou justamente se esses suplementos realmente reduzem fraturas e quedas. No entanto, os resultados chamam atenção: para a maior parte da população que vive na comunidade, os comprimidos de cálcio, de vitamina D ou a combinação dos dois mostraram pouco ou nenhum benefício na prevenção de fraturas ósseas.
Esse trabalho reuniu dezenas de estudos clínicos e observou diferentes cenários, idades e doses. Em termos gerais, adultos e idosos saudáveis, sem deficiência confirmada e sem doenças específicas dos ossos, não tiveram redução relevante de fraturas ao tomar suplementos de cálcio e vitamina D de rotina. Ademais, a revisão também avaliou o risco de quedas e não encontrou diferença consistente entre quem suplementava e quem não suplementava, especialmente entre pessoas que continuavam ativas e com alimentação equilibrada.
Suplemento de cálcio e vitamina D realmente previne fraturas?
A palavra-chave dessa discussão é suplemento de cálcio e vitamina D. A revisão do BMJ indica que, para adultos que vivem em casa, caminham, se alimentam de forma variada e não têm histórico grave de osteoporose, o uso desses suplementos não altera de maneira significativa a probabilidade de fraturar um osso. Em muitos estudos, a diferença entre o grupo que tomava comprimidos e o grupo que recebia placebo era tão pequena que não se sustentava do ponto de vista estatístico.
Outro ponto importante é que aumentar a ingestão de cálcio acima do que o corpo consegue utilizar não parece fortalecer o esqueleto. Afinal, o organismo tem mecanismos de equilíbrio e tende a eliminar o excesso, seja pelos rins, seja pelo intestino. No caso da vitamina D, quando os níveis sanguíneos já estão adequados, doses extras não mostraram ganho adicional em densidade óssea ou redução de quedas. Assim, o uso rotineiro de suplementos para todos os idosos, apenas por idade, não tem apoio essa revisão.
O estudo também trouxe alertas. Afinal, em alguns trabalhos, o uso de altas doses de cálcio associou-se a desconfortos gastrointestinais e, em certos grupos, a possível aumento de risco de cálculos renais. Portanto, esses achados reforçam que a suplementação não é totalmente neutra e precisa ser bem indicada, em vez de adotada como hábito automático.
Quando o suplemento de cálcio e vitamina D ainda pode ser indicado?
Apesar dos resultados gerais mostrarem benefício limitado, a revisão do BMJ não descarta o uso de suplementação em situações específicas. Em pessoas com deficiência comprovada de vitamina D em exame de sangue, especialmente em regiões com pouca exposição solar ou em indivíduos que quase não saem de casa, a reposição pode evitar perda óssea acelerada e problemas musculares. Ademais, o mesmo vale para quem tem ingestão muito baixa de cálcio na dieta por alergias, intolerâncias ou restrições alimentares amplas.
Pacientes com osteoporose diagnosticada, histórico de fraturas por fragilidade ou que usam medicamentos que interferem no metabolismo ósseo (como alguns corticoides de uso prolongado) formam outro grupo em que o suplemento ainda pode desempenhar um papel complementar. Nesses casos, o objetivo é garantir que não faltem "tijolos" (cálcio) e "ajudantes" (vitamina D) para que outros tratamentos, como remédios específicos para osteoporose, funcionem adequadamente.
Em instituições de longa permanência, como asilos e casas de repouso, onde muitos residentes têm mobilidade reduzida e pouca exposição solar, alguns estudos incluídos na revisão sugerem benefício modesto da vitamina D, principalmente quando há deficiência. Ainda assim, a indicação costuma ser individualizada, considerando exames, dieta, histórico de quedas e outras doenças presentes.
Quais alternativas são mais eficazes para a saúde óssea no dia a dia?
Os dados do BMJ apontam que a estratégia mais eficaz para a saúde óssea não é encher o armário de suplementos, e sim combinar estilo de vida ativo com alimentação equilibrada. Assim, a prática regular de exercícios que estimulam o esqueleto, como caminhada, dança, musculação leve, subir escadas ou atividades de impacto moderado, ajuda a manter a densidade mineral dos ossos e melhora o equilíbrio, reduzindo o risco de quedas.
Por sua vez, na dieta a prioridade é garantir fontes naturais de cálcio distribuídas ao longo do dia. Assim, alguns exemplos são:
- Leite e derivados, como queijos e iogurtes, quando bem tolerados;
- Folhas escuras, como couve e brócolis;
- Leguminosas, como feijão e grão-de-bico;
- Alimentos enriquecidos, a exemplo de bebidas vegetais fortificadas com cálcio.
A vitamina D, por sua vez, depende em grande parte da exposição solar controlada. Pequenos períodos ao ar livre, com áreas descobertas da pele, em horários seguros, costumam contribuir para níveis adequados, desde que não haja orientações médicas contrárias. Em situações em que isso não é possível, o acompanhamento com exames e, se necessário, reposição orientada, torna-se ainda mais relevante.
Como aplicar os resultados desse estudo na rotina de adultos e idosos?
Na prática, a grande revisão do BMJ sugere que adultos e idosos sem deficiência documentada não precisam iniciar suplementos de cálcio e vitamina D apenas por prevenção geral de fraturas. Em vez disso, recomenda-se priorizar um conjunto de medidas: alimentação rica em nutrientes, exercícios regulares, avaliação do risco de quedas em casa (como tapetes soltos, iluminação ruim, degraus) e acompanhamento periódico da saúde óssea, especialmente após os 60 anos.
Alguns passos ajudam a organizar essa rotina:
- Discutir com profissional de saúde se há fatores de risco para osteoporose ou quedas.
- Avaliar dieta e, se necessário, ajustar o consumo de alimentos com cálcio.
- Verificar, por exames, se existem níveis baixos de vitamina D antes de iniciar reposição.
- Incluir atividades físicas adequadas à idade e às condições clínicas.
- Rever medicamentos em uso que possam interferir na saúde óssea ou no equilíbrio.
Assim, o suplemento de cálcio e vitamina D passa a ser uma ferramenta pontual, indicada para quem realmente precisa, e não uma solução universal. A mensagem central da revisão científica é que cuidar dos ossos vai além do comprimido diário, envolvendo escolhas de rotina que podem ser ajustadas ao longo da vida adulta e na velhice, com acompanhamento profissional e atenção constante à segurança e à qualidade da alimentação.