Brasil suspende vacina contra a dengue após decisão do Ministério da Saúde

Foram registrados 42 casos de reações graves inesperadas em meio às 500 mil doses aplicadas da vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan

8 jun 2026 - 14h48
(atualizado às 17h32)
Anúncio foi feito durante coletiva de imprensa nesta segunda-feira, 8
Anúncio foi feito durante coletiva de imprensa nesta segunda-feira, 8
Foto: Reprodução/Ministério da Saúde

O Ministério da Saúde decidiu paralisar a vacinação contra a dengue no Brasil com o imunizante desenvolvido pelo Instituto Butantan. A decisão é motivada por 42 casos de reações severas registradas no Brasil, incluindo dois óbitos que seguem em investigação. O anúncio foi feito pelo ministro Alexandre Padilha nesta segunda-feira, 8, em coletiva de imprensa. 

Por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), a vacinação em questão começou em janeiro deste ano nas cidades de Botucatu (SP), Nova Lima (MG) e Maranguape (CE), também contando com aplicação específica na região de Araguaína, no norte de Tocantins. Além disso, a partir de fevereiro a vacina do Butantan contra a dengue passou a ficar disponível para profissionais da Atenção Primária em Saúde em todo o Brasil – público que representou 417.432 das 501.044 doses aplicadas até o dia 30 de maio.

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Entre esse meio milhão de doses aplicadas, foram registrados 42 casos de reações severas -- como fortes dores abdominais, vômito persistente e sangramentos --, sendo três ocorrências mais graves que necessitaram de internação e atendimento em Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Desses três casos, dois terminaram em óbito.

As mortes foram de uma mulher de 48 anos, que desenvolveu sintomas de dengue grave, com comprometimento neurológico (meningoencefalite) 19 dias após a vacinação; e de um homem de 58 anos que teve um quadro febril cinco dias após a vacinação que evoluiu para sintomas de dengue grave, com choque refratário. 

Até o momento, segundo Padilha, não há dados suficientes para estabelecer uma relação de causalidade entre as ocorrências graves com o uso da vacina. Mesmo assim, o governo reconhece se tratar de um sinal de alerta que recomenda a descontinuidade temporaria da atual estratégia de vacinação até que possam ser realizadas todas as investigações necessárias.

Padilha aponta, ainda, que parte das reações severas registradas "foram inesperadas", pois não haviam sido observadas nos 16 estudos clínicos que envolveram a fase 1 de desenvolvimento da vacina, assim como não foram manifestadas nos estudos de fase 2 e fase 3. Nos estudos prévios cerca de 11 mil pessoas chegaram a receber a vacina. 

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A dengue é reconhecida como a doença infecciosa que causa maior número de casos notificados no país há décadas, como cita Padilha -- que considera o Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Brasil como um forte aliado ao enfrentamento dessa realidade.  

"Comparando com 2024, nós reduzimos em 97% os óbitos de dengue no país. São 92% de redução dos números de casos, quando comparamos os primeiros meses de 2026 com os de 2024. Mesmo assim, morreram nesse ano 178 pessoas por dengue no Brasil. Ano passado, 1.791 óbitos. Em 2024, 6.321 óbitos. Estamos falando da importância dessa endemia no Brasil, o que ela provoca no povo brasileiro", pontuou o ministro.

Padilha considera que a credibilidade do programa de imunização é reforçada justamente por o mesmo "sempre seguir a ciência, as evidências científicas e trabalhar sempre com a lógica da proteção da população brasileira". A precaução, para o ministério da Saúde, é a máxima a ser seguida, citou. E é nesse sentido que, segundo ele, foi tomada a decisão de descontinuar de forma temporária a atual estratégia de uso da vacina contra a dengue do Butantan.

O que diz o Butantan?

Em nota, o Instituto Butantan confirma que a vacinação contra a dengue será temporariamente interrompida para reavaliação da estratégia vacinal, "de maneira preventiva".

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"No momento, profissionais de saúde estavam sendo vacinados. A orientação ocorre em razão de alguns casos de reação adversa detectados, três deles com sinal de gravidade, em um universo de aproximadamente 500 mil vacinados, que podem ou não estar relacionados à vacinação. A medida visa garantir a segurança da população nas próximas etapas da vacinação", afirma o Butantan.

Além disso, o instituto diz que irá manter o "compromisso e rigor absoluto com a ciência e a saúde da população" e "seguir trabalhando para apoiar o Ministério da Saúde e a Anvisa, fornecendo todas as informações disponíveis sobre a vacina, realizando novos estudos e acompanhando o trabalho de farmacovigilância dos vacinados".

"Cabe ressaltar que a vacina teve eficácia global de 79,6% e 89% contra a dengue grave em estudo publicado em revista científica internacional. Nos três municípios onde houve vacinação em massa da população – Botucatu (SP), Maranguape (CE) e Nova Lima (MG), o acompanhamento de farmacovigilância se mostrou positivo, sem casos importantes de reação adversa na população. O Instituto Butantan, como já demonstrado em casos recentes, seguirá trabalhando com o mais absoluto rigor para aprofundar as informações sobre o uso da vacina para que, em se confirmando sua segurança, a vacinação possa ser retomada em breve, com toda a tranquilidade para a população atendida pelo SUS. O Instituto Butantan reafirma seu compromisso de entregar produtos seguros e eficazes para enfrentamento de problemas de saúde pública brasileira pelo SUS", conclui a nota.

E quem já tomou a vacina?

O Ministério da Saúde afirma que, com relação à dengue, quem tomou o imunizante desenvolvido pelo Instituto Butantan está protegido contra os quatro tipos da doença.

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Já no que diz respeito a eventuais riscos, a recomendação é voltada para quem tomou a vacina nos últimos 21 dias. A pasta pede para que essas pessoas sigam com “acompanhamento especial” em alguma unidade de saúde local para que eventuais reações adversas possam ser identificadas, notificadas e acompanhadas.

Os sinais de alarme são:

  • Febre;
  • Dor abdominal intensa e contínua;
  • Vômitos persistentes;
  • Tontura;
  • Sangramentos;
  • Sonolência intensa;
  • Irritabilidade;
  • Sinais de desidratação;
  • Piora do estado geral.

Vale ressaltar que a suspenção é voltada apenas para o imunizante contra a dengue desenvolvido pelo Instituto Butantan -- a primeira do tipo desenvolvida no Brasil. Isso porque, em paralelo, o SUS segue ofertando a vacina contra a dengue Qdenga, produzida pelo laboratório japonês Takeda.

A vacina japonesa contra a dengue Qdenga foi aprovada pela Anvisa em 2023, passando a ser ofertada na rede privada. Depois, no início de 2024, começou a ser disponibilizada pelo SUS. Essa foi a primeira vacina contra a doença aprovada no Brasil para um público mais amplo, de 3 a 60 anos de idade.

Fonte: Portal Terra
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