Alta estatura infantil merece atenção, mas nem sempre indica um problema de saúde

Endocrinologista pediátrico Dr. Miguel Liberato explica quando crianças muito altas precisam de investigação e por que reduzir a altura nem sempre é necessário

26 out 2026 - 22h57
Resumo
Embora a alta estatura infantil geralmente seja saudável e de origem familiar, o crescimento muito acima da média pode indicar alterações genéticas ou hormonais. Segundo especialistas no congresso da ESPE, a avaliação clínica deve priorizar a trajetória na curva de crescimento e sinais físicos antes de pedir exames. Além disso, possíveis intervenções devem ser individualizadas, avaliando riscos, benefícios e o bem-estar psicossocial do próprio adolescente em vez de focar apenas na altura final.

Quando o assunto é crescimento infantil, é comum que a preocupação esteja relacionada a crianças que crescem menos do que o esperado. A alta estatura, porém, também pode levantar dúvidas entre pais e responsáveis. Embora, na maioria das vezes, crianças muito altas sejam saudáveis, o crescimento acima da média pode, em alguns casos, estar relacionado a condições genéticas, hormonais ou outras alterações que precisam ser investigadas.

Entre as possíveis causas da alta estatura estão a característica familiar ou idiopática
Entre as possíveis causas da alta estatura estão a característica familiar ou idiopática
Foto: Canva Fotos / Perfil Brasil

O tema esteve entre as discussões apresentadas no 64º Congresso Anual da Sociedade Europeia de Endocrinologia Pediátrica (ESPE), realizado neste ano em Marselha, na França. O encontro reúne especialistas e pesquisadores de diferentes países para discutir avanços no diagnóstico e tratamento de doenças hormonais que afetam crianças e adolescentes. Entre os profissionais que acompanharam as discussões está o endocrinologista pediátrico Dr. Miguel Liberato, especialista em crescimento infantil em São Paulo e membro vitalício da Growth Hormone Research Society.

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Do ponto de vista médico, considera-se alta estatura quando a altura está significativamente acima do esperado para a idade, o sexo e o padrão familiar, geralmente acima de dois desvios-padrão. O número, entretanto, não deve ser analisado de maneira isolada. A trajetória da criança na curva de crescimento e a altura dos pais são informações importantes para entender se aquele desenvolvimento está dentro do esperado para sua constituição familiar.

"Nem toda criança muito alta tem uma doença. O mais importante é entender como ela chegou àquela altura, se houve uma mudança no ritmo de crescimento e como isso se relaciona com o padrão familiar. A curva de crescimento conta uma história muito mais completa do que um número isolado", explica o Dr. Miguel.

A avaliação ganha ainda mais importância quando a criança passa a crescer mais rapidamente ou se distancia progressivamente da curva em que vinha se mantendo. O médico também considera outros aspectos da história clínica, como o início do estirão de crescimento, sinais de puberdade, peso e comprimento ao nascimento e eventual atraso no desenvolvimento ou aprendizado. No exame físico, características como a proporção entre braços, pernas e tronco, presença de escoliose, alterações visuais ou um alongamento muito acentuado dos dedos também podem ajudar o especialista a identificar situações que mereçam investigação mais aprofundada.

Entre as possíveis causas da alta estatura estão a característica familiar ou idiopática, que é a mais comum, além de alterações cromossômicas, como XXY, XYY e XXX, síndromes genéticas como Marfan, Sotos, Weaver e Beckwith-Wiedemann, hipertireoidismo, obesidade, alterações relacionadas à puberdade e excesso do hormônio do crescimento (GH). Isso não significa, no entanto, que toda criança acima da média precise passar por uma bateria de exames. A investigação é individualizada e depende dos sinais encontrados na avaliação clínica. Quando indicada, pode incluir exames como função da tireoide, IGF-1, hormônios relacionados à puberdade, cariótipo e idade óssea. Em casos específicos, também podem ser necessários testes genéticos ou exames mais direcionados.

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"A investigação não deve ser feita de forma automática. Primeiro precisamos entender qual é o padrão de crescimento daquela criança e o que a história e o exame físico estão mostrando. Só então decidimos quais exames realmente fazem sentido", afirma o endocrinologista.

Quando é preciso intervir?

Outro ponto discutido no congresso foi a necessidade, ou não, de interferir no crescimento de crianças e adolescentes que podem atingir uma estatura muito elevada na vida adulta. Para Miguel Liberato, a decisão não deve partir apenas de uma previsão de altura adulta, mas considerar também o contexto e os desejos do próprio adolescente.

"Prever a altura adulta tem uma margem de erro e, mesmo quando sabemos que um adolescente será muito alto, isso não significa automaticamente que precisamos tentar reduzir essa altura. É preciso entender se existe um impacto real para aquele jovem e quais seriam os benefícios, os riscos e as alternativas", destaca.

A discussão também questiona a ideia de que uma estatura muito elevada, por si só, determine problemas emocionais ou dificuldades de adaptação social. Questões como bullying, desconforto com o próprio corpo e o impacto que a situação tem na vida cotidiana devem ser consideradas antes de qualquer decisão. Nesse contexto, uma das abordagens apresentadas é o conceito BRAN, que propõe analisar quatro pontos antes de uma intervenção: Benefits (benefícios), Risks (riscos), Alternatives (alternativas) e Nothing (o que acontece se não fizermos nada).

"Não fazer nada também pode ser uma escolha. Antes de pensar em uma intervenção, precisamos conversar com a família e, principalmente, ouvir o adolescente: essa é uma preocupação dele ou dos pais? Existe bullying? Há algum prejuízo concreto? A decisão precisa ser compartilhada e considerar a realidade daquela pessoa", conclui Miguel.

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