Dedicar grande parte da vida aos filhos pode parecer, para muitas mães, uma escolha natural. No entanto, segundo o psicólogo Rossandro Klinjey, esse sacrifício pode se transformar em frustração quando a pessoa espera receber uma gratidão futura por tudo o que deixou de viver. Em entrevista à TV Brasil, ele falou sobre como esse tipo de dinâmica pode afetar a relação familiar. Durante a conversa, o especialista destacou que não pretende julgar mulheres que escolhem se dedicar exclusivamente à criação dos filhos. O problema aparece quando essa decisão acontece por pressão ou quando existe a expectativa de que os descendentes deverão "pagar" emocionalmente por aquilo que foi feito.
Quando a escolha não parte totalmente da mulher
Klinjey contou que já observou esse cenário diversas vezes no consultório. Segundo ele, algumas mulheres deixam o trabalho e outros projetos pessoais porque o marido prefere que elas permaneçam em casa enquanto ele sustenta a família. Em alguns casos, essa decisão acontece de forma aparentemente consensual. Porém, existe uma pressão disfarçada que influencia a escolha. Com o passar dos anos, a situação pode mudar completamente caso o relacionamento termine e a mulher precise reconstruir a própria vida.
A relação com os filhos também pode mudar
Outro ponto levantado pelo psicólogo envolve a maneira como os filhos passam a enxergar a mãe conforme crescem. Ele relatou situações em que os jovens começam a conviver com pessoas que estudam e trabalham em diferentes áreas e passam a sentir vergonha da própria mãe por ela não ter outros assuntos ou experiências além da rotina doméstica. Assim, a relação pode ficar limitada a tarefas como cozinhar e cuidar da casa. Nesse contexto, pode surgir um sentimento de injustiça por tudo aquilo que foi deixado de lado ao longo dos anos. Aos poucos, essa frustração pode se transformar em cobranças por reconhecimento e carinho.
Quanto maior a cobrança, maior pode ser o afastamento
Para Rossandro, existe um ciclo que pode tornar a relação cada vez mais difícil. A pessoa se sente injustiçada, começa a cobrar mais dos filhos e, consequentemente, eles podem se afastar. Dessa maneira, a expectativa de receber amor e gratidão acaba produzindo justamente o efeito contrário. O psicólogo classificou essa dinâmica como tóxica, principalmente quando o cuidado passa a funcionar como uma espécie de dívida emocional.
"A gratidão vai rimar com frustração"
Durante a entrevista, o psicólogo resumiu a questão com uma frase que chamou atenção: "A gratidão vai rimar com frustração". A ideia não significa que seja errado esperar carinho ou reconhecimento dos filhos. Afinal, ele próprio reconhece que essa expectativa é humana. O problema está em transformar os sacrifícios feitos durante a criação em uma conta que precisa ser paga no futuro.
Amor não deve ser uma dívida
O profissional também afirmou que o amor humano possui condições e que, embora ninguém deva fazer uma "continha" de tudo o que ofereceu, é natural esperar algum nível de gratidão, cuidado e zelo. Por isso, a reflexão proposta pelo psicólogo não é sobre deixar de cuidar dos filhos. Pelo contrário, trata-se de não abandonar completamente a própria identidade, os projetos e a vida pessoal esperando que esse esforço seja recompensado no futuro. No fim, preservar a própria vida também pode contribuir para relações familiares mais saudáveis. Afinal, carinho e cuidado não precisam se transformar em uma dívida emocional entre pais e filhos.