Com até 150 milhões de raios anuais, o Brasil é um dos líderes globais no fenômeno, impulsionado por sua extensão continental e clima tropical, que favorece tempestades intensificadas pelo aquecimento global. Entre 2000 e 2019, o Inpe registrou 2.194 mortes por descargas, a maioria no meio rural e em praias. Para evitar tragédias fatais, especialistas alertam que a melhor prevenção é buscar refúgio imediato em construções de alvenaria ou veículos fechados aos primeiros sinais de tempestade.
Na última década, o país teve de 100 a 150 milhões de descargas elétricas por ano, segundo o Inpe. Especialistas alertam sobre os cuidados que devem ser tomados durante tempestades.Em dezembro de 1997, a empresária Gisely Bolanho, o namorado dela e um casal de amigos viajaram para Santa Catarina. Eles, que moravam em São Paulo (SP), queriam surfar na região de Garopaba, no litoral sul catarinense, e comemorar a virada de ano.
Em uma tarde daquela viagem, eles estavam sentados na areia da praia quando o tempo mudou. "Era um dia de sol e muito calor, mas começaram a surgir algumas nuvens pesadas e ventava muito", lembra Gisely, que na época tinha 23 anos.
Os amigos começaram a levar as pranchas para o carro. Eles foram atingidos por um raio enquanto estavam na faixa de areia e se preparavam para guardar os últimos objetos. "Eu e o meu namorado estávamos de mãos dadas e a minha amiga estava logo atrás", detalha.
"Eu lembro de ver tudo acontecendo. Só não sabia o que era. Naqueles segundos, que viraram horas, parecia que tudo ocorreu em câmera lenta. Lembro do choque, da dor, da quebra de ossos no meu corpo e da minha queda na areia", detalha a empresária. "Eu vi muitas pessoas se aproximando. E depois, tive a sensação de que o ar estava acabando e eu não conseguia mais respirar. E eu apaguei", completa.
O namorado de Gisely, Cristian Duran, de 27 anos, e a melhor amiga dela, Aparecida Edileusa, de 34 anos, morreram. Segundo as notícias da época, eles tiveram queimaduras generalizadas pelo corpo e parada cardiorrespiratória. O quarto integrante do grupo estava distante deles no momento da descarga elétrica e não teve ferimentos.
Gisely conta que foi levada ao Instituto Médico Legal (IML) e foi considerada morta. "Eu lembro de não conseguir me mexer no IML, então comecei a fazer barulho com a garganta para que as pessoas me vissem ali. Depois disso, só lembro de ter acordado no hospital", diz a empresária, hoje com 52 anos.
Ela passou por vários exames e recebeu alta hospitalar dias depois. "É inexplicável a forma como eu sobrevivi", afirma.
O episódio trágico de Gisely e seus amigos chama a atenção para um fenômeno que há tempos é alvo de alerta: a alta incidência de raios no Brasil. Uma das mortes mais recentes no país foi a da gaúcha Edinara Gonçalves Areze, de 39 anos, atingida por uma descarga elétrica na faixa de areia da Praia da Pinheira, em Palhoça (SC), em 28 de agosto.
O Brasil é um dos três países com maior incidência de raios. Por causa das diferentes técnicas de monitoramento do fenômeno pelo mundo, especialistas afirmam que não é possível definir um líder desse ranking. No topo da lista também aparecem República Democrática do Congo, na África, e os Estados Unidos, na América do Norte.
Alta incidência de raios
Na última década, o Brasil registrou cerca de 100 a 150 milhões de raios por ano, segundo os dados mais recentes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a depender da técnica de monitoramento. No ano passado, foram 141 milhões. A expectativa é de que essa média ultrapasse 200 milhões de descargas elétricas por ano até 2100, caso o aquecimento do planeta continue no ritmo atual.
Por trás da alta incidência de raios no Brasil estão o tamanho continental do país e sua localização predominantemente na faixa tropical do planeta, onde há grande disponibilidade de energia solar ao longo do ano. A combinação de calor e umidade favorece a formação de nuvens de tempestade e, consequentemente, de descargas elétricas.
Os raios surgem nessas nuvens de tempestade, quando as colisões entre partículas de gelo separam as cargas elétricas dentro delas. Quando a diferença de carga positiva e negativa fica grande demais, a eletricidade atravessa o ar, produzindo o raio e o clarão do relâmpago. A descarga pode ocorrer dentro da mesma nuvem, entre nuvens ou da nuvem para o chão, e aquece rapidamente o ar ao redor, provocando sua expansão e gerando a onda sonora que ouvimos como trovão.
O pesquisador do Inpe, Kleber Naccarato, afirma que as análises de séries históricas dos últimos 20 ou 30 anos mostram que houve aumento na incidência de raios no país, associado ao crescimento dos números de tempestades. Embora ainda não existam estudos definitivos sobre a ligação entre a mudança climática e o aumento de raios, Naccarato diz que há indicativos que relacionam esses fatores.
"A Terra já aqueceu quase 1,5 ºC nos últimos 100 anos. Então, quanto mais quente estiver o ambiente, maior a chance de formar tempestades e, assim, aumentar a atividade de raios", diz o pesquisador.
O especialista explica que o desmatamento florestal, a poluição atmosférica e o crescimento urbano e populacional são fatores que podem aumentar a incidência de tempestade em determinadas situações, porque alteram a temperatura, a umidade e a circulação do ar.
Os riscos de desastres naturais aumentam em casos de tempestades, porque elas provocam ventos fortes, chuvas intensas e raios. Essas descargas elétricas podem causar problemas como interrupção no fornecimento de energia, quando atingem redes de distribuição, ou iniciar queimadas em áreas mais secas, principalmente no Cerrado.
Há também possibilidade de impacto dos raios em áreas montanhosas. "Você pode ter deslizamentos a partir da ocorrência de uma descarga elétrica", afirma o meteorologista Fabio Hochleitner, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Segundo ele, o fenômeno pode contribuir para deslocar rochas ou solos instáveis.
Porém, Hochleitner frisa que é difícil mensurar qual parcela dos prejuízos causados por uma tempestade decorre especificamente das descargas elétricas.
Os raios que atingem humanos
Um dos riscos mais graves associados aos raios é o de atingir uma pessoa. De modo geral, segundo o Inpe, a chance de um indivíduo ser vítima de uma descarga elétrica é de uma em um milhão. Esse risco aumenta conforme o grau de exposição: quanto mais tempo em áreas descampadas, maior o perigo.
Uma pessoa atingida diretamente por uma descarga elétrica tem poucas chances de sobreviver. A primeira reação grave no organismo costuma ser uma parada cardiorrespiratória, além de queimaduras na pele e lesões em órgãos internos.
A maior parte das causas de mortes e ferimentos por raios, segundo o Inpe, ocorre por efeitos indiretos. Nesses casos, a descarga elétrica atinge uma região próxima, mas as consequências afetam uma área extensa, por meio da corrente que se espalha pelo solo. Além disso, incêndios ou quedas de linhas de energia, causados por raios, também podem atingir uma pessoa.
Os indivíduos mais vulneráveis aos raios são aqueles que estão mais expostos em áreas abertas durante tempestades, como campo ou praia.
"Reduzir o risco também passa por uma mudança de comportamento. As pessoas precisam entender que, se uma tempestade está se aproximando, o mais seguro é procurar abrigo o quanto antes", afirma a meteorologista Rachel Albrecht, da Universidade de São Paulo (USP).
O relatório mais aprofundado sobre a incidência de raios no país foi divulgado pelo Inpe em 2020, feito com base em levantamento do Grupo de Eletricidade Atmosférica (ELAT). Esse documento aponta que entre 2000 e 2019 foram registradas 2.194 mortes por raios no país.
Entre as vítimas, 82% eram homens. A faixa etária mais comum (24%) era de adultos de 20 a 29 anos.
Grande parte das mortes foi registrada na área rural (26%), sendo 66% relacionadas à agropecuária e 34% a atividades não identificadas. O segundo local com maior número de óbitos foi dentro de casa (21%), em casos como pessoas que estavam ao telefone ou em contato com aparelhos conectados à rede elétrica. Nessas situações, o raio pode cair próximo à residência e a descarga chegar ao imóvel por meio da rede elétrica ou telefônica.
O terceiro lugar em número de mortes foi a água ou próximo dela (9%), sendo a maioria na faixa de areia, no calçadão ou na beira de rio (37%), além de pessoas que estavam pescando (27%). Casos de indivíduos embaixo de árvores também representaram 9% das mortes, sendo a maior parte entre aqueles que tentaram usá-las como abrigo (55%).
A maioria dos óbitos, segundo o relatório de 2020, ocorreu no verão (43%), seguido pela primavera (33%).
Os dados oficiais mais recentes do Ministério da Saúde apontam que até agosto deste ano já foram registradas 14 mortes por raio. Em 2025 foram 28, enquanto em 2024 foram 33.
Já os atendimentos a acidentes provocados por quedas de raios foram 63 neste ano, em 2025 foram apenas 16, enquanto em 2024 foram 42. Segundo o Ministério da Saúde, esse número corresponde a atendimentos, "e não ao número de pessoas, uma vez que uma mesma pessoa pode ser atendida mais de uma vez pela mesma condição".
Como se prevenir
Para se prevenir dos raios, a principal orientação dos especialistas é buscar abrigo logo nos primeiros sinais de uma tempestade. "Se você escutou um trovão e está em um lugar aberto, você já está exposto", diz Albrecht.
Nos Estados Unidos, por exemplo, há uma campanha anual de conscientização, com o slogan When Thunder Roars, Go Indoors ("Quando o trovão ruge, vá para dentro", em tradução).
"Não há como domar a natureza, por isso não existe uma forma de reduzir a quantidade de raios. Por isso, a principal orientação é diminuir a exposição a eles, seja direta ou até mesmo indiretamente", diz Hochleitner. Ele frisa que é importante acompanhar os alertas de tempestades e, se possível, reduzir a exposição aos riscos nesses dias, como evitar locais como rio ou mar.
Os abrigos improvisados, como quiosques de palhas ou barracas de lona, não oferecem a proteção adequada, segundo os especialistas. Os locais mais seguros em caso de tempestade são construções de alvenaria ou veículos, ambos fechados, como carros ou ônibus. A orientação é permanecer nesses locais até que não haja mais trovões.
Os para-raios ajudam na proteção de estruturas, principalmente as mais altas, que são mais propensas a receber as descargas. No Brasil, a recomendação é de que todas as construções tenham esse equipamento. Mesmo sem para-raios, especialistas frisam que casas e prédios têm estruturas metálicas internas que ajudam a dissipar a corrente elétrica do raio, o que oferece uma proteção melhor para as pessoas.
Hochleitner afirma que ampliar o conhecimento da população sobre o tema ajuda a reduzir os riscos. "Isso faz com que as pessoas saibam como se proteger."
Para Gisely, as tempestades foram um pesadelo por algum tempo após a tragédia que ela viveu. "Lembro que quando eu ia à praia, já saía correndo se formasse um vento ou uma nuvem qualquer. Hoje, digo que superei esse trauma, mas foi difícil. Obviamente, não vou ficar na praia se houver uma formação de tempestade, porque pra mim é impossível ficar ali, em uma zona de perigo", diz.
Ela recomeçou a vida depois do acidente. Desde então, voltou a trabalhar, teve uma filha e tem uma vida sem grandes problemas causados pelo raio. "Levo a vida com muita alegria, apesar de ter acontecido uma tragédia. A minha história é de esperança", diz.
As principais sequelas do acidente são as dores ósseas. "É uma parte que tenho muito cuidado e faço acompanhamento, porque fiquei com calos ósseos no corpo todo, o principal deles na lateral direita do crânio. Mas estou bem e isso nunca me limitou."
Ela se recorda com carinho do namorado e da amiga que morreram em dezembro de 1997. "Eu tive muitos problemas, mas nada que você não possa resolver em vida. O duro é quando a vida acaba. Por isso, sempre pensei: bom, eu sobrevivi, então tenho que viver por mim, pelos dois e honrar muito isso", diz.
---------
Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro.