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"Meu medo era perder minha filha": o drama das mães que vivem a maternidade atrás das grades

Gestação de risco, medo da separação e falta de estrutura marcam a realidade de mulheres que têm filhos dentro do sistema prisional

26 jun 2026 - 04h59
Gestante no sistema prisional
Gestante no sistema prisional
Foto: Foto produzida por IA

“Você não sabe se estão tratando com carinho, com amor… com tudo aquilo que uma mãe dá”. O relato é de uma mulher em situação de privação de liberdade que vivencia a maternidade dentro do sistema prisional brasileiro. Para preservar sua identidade e proteger a criança, a reportagem optou por não divulgar seu nome.

Ela só descobriu que estava grávida de dois meses quando entrou no sistema prisional. Em meio aos enjoos e incertezas, a confirmação da gravidez trouxe não apenas a expectativa da maternidade, mas também o medo de como seria viver a maternidade dentro de um presídio e a preocupação com o futuro da filha. “Meu medo era que minha filha fosse para um abrigo. Porque, de um abrigo, você não tem mais certeza de nada. Tenho uma grande vontade de sair daqui e cuidar dela”, relata.

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Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a maioria das mulheres presas no Brasil é jovem, preta ou parda, de baixa renda e mãe. Grande parte responde por crimes relacionados ao tráfico de drogas ou contra o patrimônio e carrega um histórico de vulnerabilidade social, baixa escolaridade e pouco acesso a políticas públicas.

A realidade da maternidade no sistema prisional também expõe carências estruturais profundas. Divulgado em 2022, o CNJ apontou que apenas 14% das unidades prisionais que recebem mulheres possuem espaços adequados para gestantes e lactantes. O número de estabelecimentos com berçários ou centros de referência materno-infantil é ainda menor. Além disso, a gestação em privação de liberdade é considerada, por especialistas, uma gestação de risco.

Impactos emocionais profundos 

A pós-doutora psicóloga perinatal Rafaela Schiavo explica que o encarceramento potencializa vulnerabilidades emocionais já comuns durante a gravidez. “Mesmo fora do sistema prisional, muitas mulheres enfrentam ansiedade, estresse e depressão durante a gestação. Dentro da prisão, esse sofrimento se intensifica.”

Segundo a especialista, o sofrimento psicológico dessas mulheres é agravado pela incerteza sobre o destino dos filhos, pela fragilidade das redes familiares e pelo medo constante da separação.

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De acordo com Rafaela, outro ponto crítico é o parto. Mulheres privadas de liberdade também estão mais expostas à violência obstétrica.

“Em alguns casos, essas mulheres vivenciam o parto em condições extremamente desumanas. Isso torna um momento que deveria ser de acolhimento em uma experiência traumática”, destaca.

A dor da separação entre mãe e filho

Um dos aspectos mais dolorosos do encarceramento feminino é a separação entre mães e filhos. Pela legislação brasileira, o tempo mínimo de permanência do bebê com a mãe no sistema prisional é de seis meses. Na prática, em muitas unidades, esse período acaba sendo tratado como tempo máximo.

Segundo Rafaela, a separação precoce, no entanto, pode deixar marcas profundas. Os primeiros anos de vida são fundamentais para o desenvolvimento emocional, cognitivo e afetivo da criança. É nesse período que se formam os vínculos de apego, essenciais para a construção da segurança emocional.

Quando esse vínculo é interrompido de forma brusca, as consequências podem ser duradouras. “A separação obrigatória é extremamente cruel. Para a mãe, gera sofrimento psicológico intenso. Para o bebê, ainda que ele não compreenda racionalmente o que acontece, a ruptura pode deixar marcas emocionais importantes”, explica Rafaela.

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A especialista aponta que a interrupção precoce desse vínculo pode contribuir para dificuldades emocionais futuras, insegurança, ansiedade de separação e impactos no desenvolvimento socioafetivo.

Para as mães, o sofrimento também costuma se manifestar em sintomas de depressão, crises de ansiedade, culpa persistente e sensação de impotência.

Redes de afeto em meio ao cárcere

No ambiente prisional, a solidariedade entre mulheres muitas vezes se transforma em um mecanismo de sobrevivência emocional. Em meio à rotina marcada pela privação de liberdade, pequenas redes de apoio surgem entre as próprias internas, especialmente entre aquelas que também vivenciam a maternidade atrás das grades.

“A gente se sente muito só. A maternidade é muito solitária. Mas as outras mães que estão comigo aqui na prisão me ajudam muito”, relata.

A ausência da família torna essa experiência ainda mais difícil. A mãe conta que raramente recebe visitas, o que intensifica a sensação de solidão. O suporte que encontra vem, principalmente, das outras mulheres privadas de liberdade. “Minha família dificilmente vem me visitar. Quando as outras internas recebem visita e ganham presentes para os filhos, elas me dão alguma coisa”, diz.

Entre roupas, fraldas e pequenos acessórios compartilhados, gestos simples ganham um significado profundo. Em um ambiente de escassez e distância afetiva, o cuidado coletivo se transforma em acolhimento e resistência.

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Mesmo diante das dificuldades, ela fala da filha com ternura e esperança. É na bebê que projeta o futuro que deseja reconstruir fora das grades. “Eu me vejo com ela fora daqui. Me vejo trabalhando. Tendo uma nova vida.”

A bebê nasceu prematura, com oito meses, após uma gestação marcada por complicações. Durante a gravidez, a mãe desenvolveu pré-eclâmpsia e precisou de atendimento hospitalar urgente. Ainda assim, em meio às adversidades, ela segue sustentando o sonho de recomeçar ao lado da filha.

Fonte: Portal Terra
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