Junho Verde traz à tona a conscientização sobre a escoliose, uma deformidade estrutural da coluna. Segundo especialistas, exercícios físicos como fortalecimento do core, mobilidade e musculação não revertem a condição, mas ajudam na saúde geral, reduzindo dores e melhorando a qualidade de vida. O acompanhamento profissional é essencial para resultados seguros e eficazes. 💪
O fortalecimento do core, a mobilidade e a consciência corporal são excelentes aliados para quem tem escoliose
Com o mês de junho trazendo à tona a campanha Junho Verde, os holofotes se voltam para a conscientização sobre a escoliose. Para quem ama o universo do movimento, da corrida, da musculação e do bem-estar, surge uma dúvida muito comum nas academias e estúdios: afinal, quem tem escoliose pode treinar? Quais exercícios são realmente indicados? Para desmistificar esse assunto e trazer um olhar focado em saúde e qualidade de vida, conversamos com Raphael Marcon, médico ortopedista do Hospital Ortopédico AACD, para explicar melhor o que é a condição e como o movimento inteligente pode ser o seu maior aliado.
O que a escoliose é (e o que não é)
Ao contrário do que muita gente pensa, a escoliose não é apenas aquela postura "largada" que adotamos ao sentar na cadeira do escritório. Raphael esclarece a diferença fundamental: "A escoliose é uma deformidade tridimensional da coluna vertebral. Isso significa que a coluna não apenas 'entorta para o lado'. Mas também pode sofrer rotação das vértebras, o que causa assimetria no tronco, nos ombros, na cintura ou nas costelas. Em geral, considera-se escoliose quando há uma curvatura lateral da coluna maior que 10 graus medida em radiografia."
Enquanto a má postura é flexível e some quando nos policiamos para alinhar o corpo, a escoliose estrutural, por sua vez, apresenta assimetrias mais fixas. A forma mais comum é a chamada escoliose idiopática do adolescente, diagnosticada com mais frequência entre os 10 e 15 anos — justamente na fase do estirão de crescimento. Mas aqui vai um alívio para os pais: aquela história de que carregar mochila pesada entorta a coluna é mito.
Isso porque, de acordo com o especialista, "o excesso de peso causa dor muscular e desconforto, mas não tem o poder de gerar uma escoliose verdadeira". O grande desafio da condição é que ela costuma avançar sem dar pistas. No início, a escoliose raramente causa dores intensas, progredindo de forma silenciosa. Por isso, ficar atento a sinais como ombros em alturas diferentes, roupas que ficam tortas no corpo ou uma assimetria na cintura é essencial.
Não reverte, mas auxilia (e muito)
Se você recebeu o diagnóstico de escoliose, o primeiro impulso pode ser o medo de treinar. Mas a regra de ouro na medicina esportiva atual é clara ao afirmar que o movimento cura e protege. Porém, é preciso alinhar as expectativas sobre o que os exercícios gerais conseguem fazer pela estrutura óssea, como pontua Raphael. "Atividade física é muito importante, mas é preciso separar as coisas. Esporte, musculação, natação, pilates ou alongamento não costumam 'reverter' uma escoliose estrutural. Eles ajudam a melhorar força, condicionamento, mobilidade, dor, autoestima e função."
Então, para quem busca uma abordagem que atue especificamente na curva da escoliose, o caminho é a fisioterapia especializada (conhecida como PSSE — Exercícios Fisioterapêuticos Específicos para Escoliose). Mas o especialista reitera que isso não anula os treinos convencionais, muito pelo contrário: "O ponto principal é: o paciente com escoliose não deve ser afastado da atividade física sem motivo. Na maioria dos casos, manter-se ativo é benéfico", aponta o médico.
Quais exercícios incluir na rotina?
Na hora de montar a planilha de treinos, já sabemos que não existe uma receita de bolo. Como cada coluna desenha uma curva única, Raphael ressalta: "A indicação deve ser individualizada, porque cada escoliose tem um padrão de curva, uma idade, um grau de rotação e um risco de progressão. Não existe uma lista universal que sirva para todos os pacientes."
Ainda assim, quando pensamos em saúde global, proteção das articulações e bem-estar, alguns pilares de movimento costumam ser excelentes aliados, segundo o médico:
Fortalecimento do core e estabilização
Exercícios como a prancha abdominal e a ponte ajudam a criar um "cinturão" de força ao redor do tronco, dando mais suporte para a coluna e diminuindo a sobrecarga.
Musculatura dorsal e quadril
Exercícios de remadas (ótimos para a região das costas) e o fortalecimento de glúteos e membros inferiores ajudam a equilibrar as forças que atuam na pelve e no tronco.
Mobilidade e consciência corporal
Atividades que estimulam a mobilidade torácica, alongamentos orientados e o treino cardiovascular leve (como caminhada e bicicleta) mantêm as articulações lubrificadas e reduzem a rigidez do dia a dia.
Sempre procure um especialista
"Mas há um cuidado importante", alerta o ortopedista. "Em crianças e adolescentes em crescimento, principalmente quando há curva moderada ou progressiva, o ideal é avaliação com especialista e fisioterapeuta treinado em escoliose. Exercícios genéricos podem ajudar na saúde global, mas não substituem o tratamento específico quando ele é indicado", orienta.
Ou seja, se você tem escoliose, a atividade física é sua rede de proteção. Afinal, fortalecer o corpo, manter a mobilidade em dia e ter o acompanhamento de profissionais qualificados é a melhor estratégia para garantir uma vida ativa, saudável e sem limitações a longo prazo.