A cada quatro anos, a Copa do Mundo parece produzir um fenômeno que vai além do futebol. Ruas são decoradas, pessoas vestem as mesmas cores, desconhecidos se abraçam após um gol e conversas surgem espontaneamente entre indivíduos que, em outras circunstâncias, talvez jamais interagissem. O evento desperta um forte sentimento de pertencimento coletivo e reforça uma sensação de união que transcende diferenças sociais, econômicas, religiosas e políticas.
Do ponto de vista psicológico, esse fenômeno está relacionado à necessidade humana de pertencer a grupos. Segundo a Teoria da Identidade Social, desenvolvida pelos psicólogos Henri Tajfel e John Turner, parte significativa da nossa identidade é construída a partir dos grupos aos quais pertencemos. Quando a seleção nacional entra em campo, a identificação com o país ganha força e a ideia de "nós" se torna mais evidente. A equipe deixa de representar apenas atletas e passa a simbolizar uma comunidade inteira.
Esse processo produz um aumento da coesão social. Durante os jogos, muitas pessoas experimentam a sensação de compartilhar objetivos, emoções e expectativas com milhões de outras. A alegria de uma vitória ou a tristeza de uma derrota tornam-se experiências coletivas, criando um vínculo emocional entre indivíduos que sequer se conhecem. Em termos psicológicos, trata-se de uma experiência de identidade compartilhada, capaz de fortalecer sentimentos de proximidade e solidariedade.
Outro aspecto importante é o chamado contágio emocional. As emoções tendem a se espalhar entre as pessoas por meio da observação de expressões, comportamentos e reações. Em grandes eventos esportivos, a empolgação coletiva amplifica as emoções individuais. Ver uma multidão comemorando um gol, por exemplo, aumenta a probabilidade de que cada pessoa também experimente níveis mais intensos de entusiasmo e alegria.
A Copa também funciona como um ritual coletivo. O sociólogo Émile Durkheim já destacava que rituais compartilhados fortalecem laços sociais e criam o que ele chamou de "efervescência coletiva", um estado emocional em que os indivíduos sentem que fazem parte de algo maior do que si mesmos. Embora Durkheim analisasse fenômenos religiosos, seu conceito ajuda a compreender por que eventos esportivos mobilizam tantas emoções e promovem sentimentos de conexão social.
Além disso, torcer por um mesmo time oferece uma narrativa comum. Em um mundo marcado pela fragmentação das experiências e pelo individualismo crescente, a Copa cria uma história compartilhada. Todos acompanham os mesmos jogos, comentam os mesmos lances e aguardam os mesmos resultados. Essa experiência coletiva contribui para a construção de memórias sociais que permanecem vivas por muitos anos.
A sensação de união gerada pelo torneio também pode trazer benefícios psicológicos. Estudos indicam que o sentimento de pertencimento está associado a maiores níveis de bem-estar emocional, redução da sensação de isolamento e fortalecimento dos vínculos interpessoais. Ainda que temporária, a experiência de estar conectado a uma comunidade mais ampla pode gerar impactos positivos na percepção de apoio social e integração.
Entretanto, é importante reconhecer que essa união não elimina as diferenças existentes na sociedade. O que a Copa faz é criar um espaço simbólico no qual identidades individuais são momentaneamente colocadas em segundo plano em favor de uma identidade coletiva. Por alguns instantes, pessoas com histórias, opiniões e trajetórias distintas encontram um ponto comum de encontro emocional.
Talvez seja justamente essa capacidade de reunir indivíduos tão diferentes em torno de uma mesma expectativa que explique o fascínio duradouro da Copa do Mundo. Mais do que um campeonato esportivo, ela representa uma oportunidade rara de vivenciar o pertencimento, a cooperação e a conexão humana em larga escala. Em uma época marcada por divisões e distanciamentos, a experiência de torcer junto nos lembra que os seres humanos continuam buscando algo fundamental: a sensação de fazer parte de um grupo e compartilhar emoções com os outros.
Sobre a autora
Blenda Oliveira é Doutora em psicologia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e psicanalista pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). É autora do livro Fazendo as pazes com a ansiedade, publicado pela Editora Nacional, que foi indicado ao Prêmio Jabuti em 2023. A especialista também palestra sobre saúde mental e autoconhecimento e vem se dedicando ao tema do envelhecimento.