O que as brincadeiras de rua ensinavam que as telas não conseguem substituir? Psicóloga explica

Especialista revela como a infância com mais contato ao ar livre influencia habilidades emocionais e explica por que a tecnologia não deve substituir as relações presenciais

2 ago 2026 - 13h40

O celular, o tablet e os videogames fazem parte da rotina de grande parte das crianças. Ao mesmo tempo, as brincadeiras na rua, em praças e quintais deixaram de ocupar o espaço que tiveram em gerações anteriores. Mas o que essa mudança representa para o desenvolvimento emocional?

Psicóloga revela como as brincadeiras de rua ajudam na construção da autonomia e da inteligência emocional
Psicóloga revela como as brincadeiras de rua ajudam na construção da autonomia e da inteligência emocional
Foto: Canva Equipes/Deyan Georgiev / Bons Fluidos

Em entrevista à Bons Fluidos, a psicóloga Michelle Mello, do AmorSaúde, explica que, apesar da mudança de hábito, as experiências presenciais continuam exercendo um papel importante na construção de habilidades que acompanham a criança até a vida adulta.

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Segundo a especialista, as brincadeiras livres oferecem oportunidades que dificilmente acontecem diante das telas. "Ao comparar as gerações mais antigas, que hoje são adultas, com as atuais, observa-se que crianças que passaram mais tempo brincando ao ar livre, em contato direto com outras crianças, tendiam a desenvolver habilidades emocionais por meio das experiências compartilhadas", aponta.

O que as brincadeiras de rua desenvolvem?

Muito além da diversão, brincar sem roteiros ou intervenções constantes ajuda a criança a construir competências essenciais para a convivência. Nessas situações, por exemplo, ela aprende a negociar regras, esperar a própria vez, lidar com perdas, resolver conflitos e respeitar os limites do outro de maneira espontânea.

Michelle explica que esse processo também fortalece a autonomia. "Ao vivenciar situações cotidianas sem a mediação constante de um adulto, a criança aprende a tomar decisões, avaliar riscos, resolver problemas e assumir as consequências de suas escolhas", detalha.

De acordo com a psicóloga, esses aprendizados costumam aparecer novamente na fase adulta. Pessoas que tiveram oportunidades frequentes de brincar e conviver presencialmente tendem a desenvolver maior capacidade para enfrentar frustrações, fazer escolhas com mais segurança e construir relações interpessoal mais equilibradas.

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O excesso de telas interfere nas emoções?

Isso não significa que a tecnologia seja prejudicial por si só. O problema, segundo Michelle, surge quando as telas substituem grande parte das experiências presenciais. A especialista explica que plataformas digitais costumam funcionar com respostas rápidas e recompensas imediatas, o que pode dificultar o desenvolvimento da paciência e da tolerância à espera.

Além disso, a redução das interações face a face pode limitar experiências importantes para reconhecer emoções, resolver conflitos e fortalecer vínculos. Outro ponto levantado pela psicóloga é que a exposição excessiva às telas pode favorecer comparações constantes e aumentar a sensação de estar sempre perdendo algo importante, fenômeno conhecido como FOMO (fear of missing out).

"Esses fatores podem dificultar o enfrentamento de frustrações, a resolução de conflitos e a regulação emocional", explica. Mello ressalta, porém, que os impactos variam conforme a intensidade do uso, os conteúdos acessados e a participação dos adultos na rotina digital da criança.

Tecnologia também pode trazer benefícios

Apesar dos desafios, conforme ressalta a especialista, o universo digital também oferece oportunidades de aprendizagem quando utilizado de forma equilibrada. Jogos cooperativos, por exemplo, podem estimular planejamento, resolução de problemas, raciocínio lógico e trabalho em equipe.

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Além disso, as interações online permitem contato com pessoas de diferentes culturas, ampliando habilidades de comunicação e fortalecendo o sentimento de pertencimento. Ainda assim, ela reforça que essas experiências devem complementar — e não substituir — as vivências do mundo real. O desenvolvimento socioemocional depende do equilíbrio entre os dois ambientes.

Como encontrar esse equilíbrio?

Para Michelle, a participação ativa da família faz toda a diferença. Mais do que estabelecer limites para o tempo de tela, é importante conhecer os conteúdos consumidos pela criança e acompanhar sua rotina digital.

Ademais, vale incentivar atividades presenciais, como brincadeiras de rua, esportes, passeios em parques, jogos em grupo e momentos de convivência em família. Essas experiências estimulam criatividade, autoestima, empatia, comunicação e autonomia, além de fortalecerem os conexões.

"Da mesma forma, é fundamental oferecer uma escuta acolhedora, criando um ambiente em que a criança se sinta segura para falar sobre suas experiências, emoções, dúvidas e dificuldades, tanto no mundo online quanto fora dele. Essa proximidade fortalece o vínculo afetivo e favorece o desenvolvimento da confiança, da autonomia e da inteligência emocional", conclui Michelle Mello.

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