"Novela das frutas": como a cultura da desconfiança afeta o amor

"Desconfiar de tudo não protege o relacionamento, apenas impede que ele se desenvolva de forma saudável", diz especialista Henri Fesa

14 abr 2026 - 13h51

Especialista em relacionamentos Henri Fesa analisa fenômeno viral e alerta para os impactos da desconfiança nas relações

Nas últimas semanas, uma tendência curiosa tomou conta das redes sociais: a chamada "novela das frutas", criada a partir de conteúdos com inteligência artificial, que transformaram frutas em personagens com personalidades, histórias e até conflitos dignos de um roteiro dramático. Entre os protagonistas, o "abacatudo" rapidamente ganhou destaque, cercado por narrativas envolventes, reviravoltas e interações que prenderam a atenção do público.

Foto: Revista Malu

Com humor leve e criatividade, os vídeos viralizaram ao retratar situações do cotidiano de forma exagerada e divertida. Ciúmes, desentendimentos, suspeitas e até "traições" passaram a fazer parte dessas histórias, gerando identificação imediata e milhões de visualizações. O público não apenas consumiu, mas também passou a comentar, torcer e até criar teorias sobre os desdobramentos entre os personagens.

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O sucesso da "novela das frutas" mostra como o entretenimento digital tem se aproximado cada vez mais das dinâmicas emocionais reais. Mesmo em um contexto fictício, os comportamentos retratados refletem inseguranças, expectativas e conflitos comuns nos relacionamentos. A leveza do conteúdo faz rir, mas também revela padrões que vão além da tela.

Segundo Henri Fesa, Médium e especialista em relacionamentos, esse tipo de conteúdo viraliza justamente por tocar em questões universais. "As pessoas se reconhecem nas situações, mesmo sendo uma narrativa lúdica. Ciúmes, insegurança e desconfiança fazem parte do imaginário coletivo e aparecem de forma caricata nesses conteúdos", explica.

Quando a desconfiança deixa de ser meme e vira problema real

Se nas redes sociais a desconfiança aparece como entretenimento, na vida real ela pode se tornar um dos principais fatores de desgaste nos relacionamentos. A chamada "cultura da desconfiança", em que tudo é interpretado como possível traição, cria um ambiente de tensão constante e prejudica a construção de vínculos saudáveis.

De acordo com Henri, um dos principais erros é partir da suspeita em vez do sentimento. Muitas pessoas focam no que o outro pode estar fazendo de errado, quando o ponto de partida deveria ser o que elas estão sentindo. É a partir disso que o diálogo se constrói de forma mais madura.

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"A comunicação aberta é fundamental nesse processo. Conversar sobre inseguranças, alinhar expectativas e expressar limites ajuda a evitar interpretações equivocadas e conflitos desnecessários. Quando não há diálogo, a mente preenche lacunas com suposições, e isso alimenta ainda mais a desconfiança", afirma o especialista.

Aprenda a escutar

Outro ponto importante é desenvolver a escuta ativa dentro da relação. Ouvir o parceiro com atenção, sem interrupções ou julgamentos imediatos, permite compreender melhor as intenções e emoções envolvidas. Além disso, confiar não significa ignorar sinais, mas também não pode ser substituído por vigilância constante.

Henri também alerta para o risco de confundir autonomia com desinteresse ou traição. Ter vida própria, amizades e momentos individuais faz parte de um relacionamento saudável. Quando tudo vira motivo de suspeita, a relação deixa de ser um espaço de troca e passa a ser um ambiente de controle. A desconfiança excessiva pode, inclusive, contribuir para tornar a relação tóxica.

"A cobrança constante, a necessidade de provas e a vigilância desgastam o vínculo e afastam o casal emocionalmente. Paradoxalmente, quem mais desconfia pode acabar criando o cenário que mais teme, porque a relação perde leveza e confiança. Isso não significa ignorar desconfianças reais. Quando existem sinais concretos de quebra de confiança, o caminho continua sendo o diálogo. Revisar acordos, expor sentimentos e ouvir o outro são atitudes essenciais para entender se ainda existe base para a continuidade da relação", finaliza.

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Revista Malu
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