Muito além do play: entenda como jogos e narrativas ajudam a tratar ansiedade e emoções

Descubra como o RPG e a gamificação são usados na terapia para desenvolver habilidades sociais, regulação emocional e autoconhecimento

26 ago 2026 - 13h25
(atualizado às 16h58)
Resumo
As celebrações consecutivas do Dia Nacional do Psicólogo e do Dia do Gamer, no fim de agosto, simbolizam a crescente convergência entre esses dois universos. Cada vez mais integrados, a psicologia e os jogos eletrônicos revelam como narrativas interativas e mecânicas lúdicas podem atuar como ferramentas eficazes no tratamento da ansiedade e no suporte à regulação emocional.

O fim de agosto traz uma coincidência emblemática no calendário: no dia 27, é celebrado o Dia Nacional do Psicólogo e, logo em seguida, em 29, o Dia do Gamer. Embora à primeira vista pareçam universos distantes, a psicologia e os jogos estão cada vez mais conectados.

Descubra como jogos de videogame e RPG são usados na terapia para desenvolver habilidades sociais, regulação emocional e autoconhecimento
Descubra como jogos de videogame e RPG são usados na terapia para desenvolver habilidades sociais, regulação emocional e autoconhecimento
Foto: SeventyFour/iStock / Getty Images Plus / Bons Fluidos

Hoje, narrativas, personagens, regras, desafios e escolhas deixaram de ser apenas entretenimento. Em contextos planejados, esses elementos se transformam em poderosos recursos para o cuidado com a saúde mental por meio de modelos terapêuticos gamificados.

Publicidade

Longe de ser apenas diversão, os jogos oferecem ambientes estruturados onde as pessoas lidam com imprevistos, trabalham em equipe e enfrentam as consequências de suas decisões. Contudo, para ter função terapêutica, o processo exige método e intenção clínica.

"O jogo funciona como um contexto para a intervenção. Situações criadas dentro de uma narrativa podem ser planejadas para mobilizar determinados pensamentos, emoções e comportamentos, permitindo que a pessoa experimente outras formas de responder e depois relacione o que aconteceu no jogo com situações da própria vida. Para que isso tenha finalidade terapêutica, no entanto, precisa existir uma formulação do caso, objetivos clínicos e uma condução profissional que dê sentido à experiência", explica o psicólogo Manoel Acioli, pesquisador e diretor da RPG Terapia, Instituto de Psicologia Gamificada.

O que dizem as pesquisas sobre os jogos na saúde mental

A receptividade do público a essas ferramentas digitais e interativas vem crescendo em todo o mundo. Um estudo publicado na revista científica 'Internet Interventions', em 2026, e feito com mais de 3,7 mil adultos de 48 países, mostrou alta disposição dos participantes para adotar jogos e aplicativos gamificados como apoio na regulação emocional e no bem-estar.

Nesse cenário, uma das ferramentas mais promissoras é o RPG (role-playing game), ou jogo de interpretação de papéis. Nele, os jogadores assumem personagens e criam histórias coletivas. No consultório, essa dinâmica funciona como um laboratório seguro para a vida real.

Publicidade

Como o RPG ajuda a enfrentar conflitos reais

Por meio de um avatar ou personagem, a pessoa em terapia ganha liberdade para experimentar atitudes que talvez não conseguisse no dia a dia. É possível testar como impor limites, pedir ajuda, encarar uma frustração ou mediar um conflito.

Essa distância entre o jogador e o personagem cria uma ponte segura para falar de sentimentos e comportamentos delicados:

  • Distanciamento saudável: Permite observar hábitos e padrões sem a sensação imediata de julgamento.

  • Expressão facilitada: Ajuda a abordar temas difíceis quando a conversa direta parece bloqueada.

  • Treino de habilidades: Desenvolve comunicação, tolerância à frustração, flexibilidade cognitiva e empatia.

"O RPG permite que a pessoa fale de si sem precisar, necessariamente, começar por uma exposição direta. Quando alguém toma uma decisão por meio de um personagem, pode observar seus próprios padrões com um pouco mais de distância. Isso não elimina a complexidade do que é vivido na realidade, mas pode abrir um caminho de diálogo que, em alguns casos, seria mais difícil apenas pela conversa", afirma.

Jogar no dia a dia substitui a terapia?

Apesar dos benefícios, os especialistas alertam: jogar videogame ou participar de sessões de RPG com amigos traz bem-estar e diversão, mas não substitui o acompanhamento psicológico. A gamificação aplicada à saúde mental não é uma fórmula mágica nem serve para todos da mesma forma.

Ademais, o que mobiliza e ajuda um paciente pode gerar estresse ou desinteresse em outro. Por isso, a presença e o planejamento do profissional continuam sendo indispensáveis. "Não existe uma ferramenta que funcione da mesma maneira para todas as pessoas. O valor terapêutico não está apenas no jogo, mas na forma como ele é escolhido, aplicado e relacionado aos objetivos daquele processo. O recurso pode facilitar o caminho, mas a condução continua sendo profissional e individualizada", conclui o psicólogo.

Publicidade
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações