Embora a Geração Z esteja reduzindo o consumo de álcool, especialistas alertam para a substituição perigosa de bebidas por remédios controlados, como pregabalina e propranolol, comprados ilegalmente. Motivados por ansiedade social e pelo desejo de evitar ressacas, os jovens buscam nessas substâncias uma falsa sensação de segurança para socializar. O hábito sem prescrição traz graves riscos físicos, dependência psicológica e mascara transtornos mentais que demandam acompanhamento médico.
A mudança na relação da Geração Z com o álcool tem sido alvo de elogios. Um hábito preocupante, contudo, alerta especialistas: enquanto parte dos jovens adultos somente reduz ou abandona as bebidas, outros buscam alternativas para se sentirem mais à vontade em situações sociais. Entre as escolhas estão medicamentos sujeitos à prescrição médica, obtidos ilegalmente pela internet.
De acordo com especialistas, o próprio afastamento do álcool está relacionado a uma combinação de fatores. A preocupação com a saúde, o desejo de evitar a ressaca e o aumento dos relatos de ansiedade social, por exemplo, ajudam a explicar por que parte dos jovens passou a repensar o consumo de bebidas em festas e encontros. A pandemia também pode ter contribuído para esse cenário. Isso porque alterou a forma como essa geração se relaciona e interage socialmente.
Geração Z: do álcool aos medicamentos
A busca por uma alternativa à bebida, contudo, não significa necessariamente uma escolha mais segura. No Reino Unido, segundo informações da 'BBC News', jovens têm recorrido a medicamentos como pregabalina e propranolol, que possuem indicações médicas específicas. Quando utilizados sem acompanhamento profissional ou em doses inadequadas, porém, eles podem provocar efeitos adversos e oferecer riscos à saúde.
O uso dessas substâncias estaria relacionada, em parte, à tentativa de aliviar sintomas de transtornos mentais. Um estudo publicado na revista científica The Lancet Psychiatry apontou um aumento de transtornos como ansiedade e depressão entre jovens nas últimas décadas.
Outro levantamento, realizado pelo National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (NIAAA), nos Estados Unidos, identificou mudanças no consumo de álcool entre adultos jovens, incluindo períodos de redução ou abstinência.
Os impactos da troca, contudo, ganharam força quando os medicamentos passam a ser associados à própria capacidade de socializar. Um jovem de 22 anos do norte da Inglaterra, identificado pela 'BBC' como Matt para preservar sua identidade, contou à publicação que passou a usar remédios comprados ilegalmente.
Segundo ele, a decisão veio após enfrentar dificuldades para participar de conversas e encontros sem beber. "A quantidade de álcool que você precisa beber para replicar os efeitos dessas substâncias é realmente prejudicial à saúde e não faz bem", afirmou.
Nas redes sociais, o fenômeno também encontra espaço. Vídeos apresentam combinações de substâncias como alternativas para festas e encontros, criando a impressão de que seria possível reproduzir alguns efeitos do álcool sem lidar com a ressaca.
Dependência e impactos físicos
Especialistas, porém, ressaltam que deixar de beber não elimina automaticamente o risco de desenvolver um uso problemático de outras substâncias. Para o jornal, Liam Knowles, pesquisador de dependência química da Universidade de Teesside, chamou atenção para a falsa sensação de segurança associada a esses remédios: "Eles não se sentem tão mal no dia seguinte e é um medicamento — então as pessoas pensam que é mais seguro."
A avaliação também se relaciona a um fenômeno conhecido como substituição de substâncias. O comportamente ocorre quando uma pessoa reduz ou interrompe o consumo de uma droga e passa a utilizar outra para obter efeitos semelhantes, como relaxamento, desinibição ou redução da ansiedade.
Isso não significa que todo jovem que usa um medicamento esteja desenvolvendo dependência. O comportamento, no entanto, indica a importância de observar a frequência e a finalidade do uso, principalmente quando não há orientação profissional.
Além da chance de dependência, existem possíveis efeitos físicos. No caso da pregabalina, por exemplo, o uso sem prescrição pode provocar sonolência, tontura, confusão e prejuízo da coordenação motora. O propranolol, por sua vez, pode reduzir a frequência cardíaca e a pressão arterial. Os riscos podem ser maiores quando essas substâncias são combinadas com álcool, sedativos ou outros medicamentos.
Efeitos no emocional
Ademais, o problema ainda tende a voltar-se contra a saúde mental. Quando uma pessoa passa a acreditar que precisa de uma substância para conversar, sair ou conhecer outras pessoas, situações comuns se tornam cada vez mais difíceis sem ela. Esse processo pode reforçar a ansiedade e criar uma dependência psicológica do medicamento como uma espécie de "muleta social".
Por isso, a chamada "geração sóbria" não representa necessariamente uma geração livre dos riscos associados ao uso de substâncias. A mudança de comportamento pode indicar uma preocupação maior com saúde e bem-estar, mas ainda revela como a ansiedade social tende a levar alguns jovens a procurar soluções rápidas para se sentirem mais confortáveis em situações de interação.
Dificuldades persistentes para socializar, medo intenso de julgamento ou necessidade de usar alguma substância para participar de situações sociais devem ser discutidos com um psicólogo ou psiquiatra. Medicamentos só devem ser utilizados com avaliação, prescrição e acompanhamento profissional.