Mascar chiclete ajuda a cantar melhor? Entenda hábito de grandes artistas nos palcos

Hábito adotado por Dave Grohl, Pavarotti e John Lennon pode estimular a salivação e deixar a articulação mais solta durante o canto

29 set 2026 - 16h11
Resumo
O hábito de cantar mascando chiclete, comum a artistas como Dave Grohl, possui respaldo científico. A mastigação relaxa a musculatura facial, reduz a rigidez na articulação e estimula a salivação, aliviando a boca seca e o desconforto na garganta. Contudo, a prática não melhora diretamente a voz e, se excessiva, pode causar tensão na mandíbula ou atrapalhar a dicção. Especialistas alertam que o recurso exige moderação e não substitui os cuidados adequados com a saúde vocal.

Quem assistiu à apresentação do Foo Fighters no Rock in Rio pode ter reparado em um detalhe curioso: Dave Grohl cantou boa parte do show mascando chiclete. E, apesar de parecer apenas uma mania do vocalista, ele está longe de ser o único músico a adotar o hábito no palco.

Por que cantores mascam chiclete no palco? Entenda como o hábito pode ajudar na salivação e na articulação durante o canto
Por que cantores mascam chiclete no palco? Entenda como o hábito pode ajudar na salivação e na articulação durante o canto
Foto: Reprodução: Buda Mendes / Bons Fluidos

Marcus Mumford, do Mumford & Sons, também apareceu com chiclete durante sua apresentação no festival. Ao longo das décadas, nomes como Liam Gallagher, Rob Halford, John Lennon e até o tenor Luciano Pavarotti já foram vistos fazendo o mesmo enquanto cantavam.

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A explicação não está apenas na preferência pessoal de cada artista. A mastigação pode provocar efeitos interessantes na musculatura envolvida na fala e estimular a produção de saliva - dois fatores particularmente importantes para quem depende da voz profissionalmente.

Mastigar pode ajudar a relaxar a articulação

A relação entre mastigação e voz começou a ser estudada há bastante tempo. No fim da década de 1940, o médico austríaco Emil Froeschels, um dos pioneiros no campo da fonoaudiologia, descreveu o chamado método da mastigação como um recurso que poderia ser utilizado no trabalho terapêutico relacionado à fala e à voz.

Isso não significa, porém, que colocar um chiclete na boca automaticamente fará alguém cantar melhor. Em entrevista ao g1, a fonoaudióloga Thays Vaiano, que trabalha com artistas como Ludmilla e Iza, explica que o movimento de mastigar modifica a ativação dos músculos da face. Com isso, a articulação pode ficar menos rígida, favorecendo uma configuração mais solta durante a emissão da voz.

Ou seja, o benefício estaria principalmente na redução da rigidez e da tensão durante a articulação - e não em uma melhora direta da capacidade vocal.

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Chiclete também estimula a produção de saliva

Outro possível benefício é bastante simples: mastigar faz a boca produzir mais saliva. Para quem passa horas cantando, isso pode ser especialmente útil, já que a sensação de boca seca é frequente entre artistas.

O nervosismo antes de uma apresentação pode contribuir para o problema. Alguns medicamentos utilizados para ansiedade, sono ou hipertensão também podem alterar a salivação e deixar a boca mais seca ou a saliva mais espessa.

Nessas situações, determinadas gomas de mascar podem estimular a produção de saliva e ajudar a manter a boca mais confortável durante uma apresentação.

E o refluxo?

Há ainda outra preocupação bastante presente na rotina de cantores: o refluxo gastroesofágico. Quando o conteúdo ácido do estômago retorna pelo esôfago, ele pode chegar à região da garganta e provocar irritação, algo especialmente inconveniente para quem utiliza a voz intensamente.

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Existem gomas desenvolvidas para auxiliar no controle dos efeitos do refluxo, o que pode explicar por que alguns profissionais da voz recorrem ao produto em determinadas situações. Isso, entretanto, não significa que qualquer chiclete funcione como tratamento para o problema. Refluxo frequente precisa ser avaliado adequadamente por um profissional de saúde.

Dave Grohl já explicou sua relação com o chiclete

Entre os músicos conhecidos pelo hábito, Dave Grohl é provavelmente um dos exemplos mais famosos. O vocalista do Foo Fighters já comentou em entrevistas que mascar chiclete acabou se tornando quase um ritual antes e durante as apresentações.

No caso dele, porém, a prática teria surgido por uma necessidade bastante concreta. O estilo intenso de Grohl exige longos períodos cantando em alto volume e utilizando bastante força vocal. A goma ajudaria a manter a boca e a garganta mais confortáveis durante esse esforço. Em outras ocasiões, o músico também relacionou o costume ao uso de chiclete de nicotina.

Rob Halford, vocalista do Judas Priest, já apresentou outra justificativa. O cantor prefere versões com mentol e eucalipto por considerar que elas proporcionam sensação de maior abertura das vias respiratórias e dos seios da face.

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Essa escolha, porém, não deve ser tomada como regra. Produtos mentolados podem produzir apenas uma sensação de frescor e, dependendo da pessoa, não são necessariamente a melhor opção antes de cantar.

Então, mascar chiclete enquanto canta faz bem?

Apesar das possíveis vantagens, transformar o chiclete em companheiro inseparável do microfone também pode trazer problemas. Mastigar continuamente exige trabalho da mandíbula. Durante uma apresentação longa, isso pode provocar desconforto ou tensão justamente em uma região importante para a articulação.

Além disso, cantar exige movimentos bastante precisos da língua, dos lábios e da mandíbula. Manter algo dentro da boca pode interferir nesses pequenos ajustes e até prejudicar a clareza das palavras.

Por isso, a estratégia não deve ser entendida como um truque universal para cantar melhor. Quando utilizado de maneira adequada, o chiclete pode ajudar principalmente na salivação e na sensação de uma articulação mais livre. Mas passar horas mastigando intensamente pode produzir o efeito contrário.

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No fim das contas, aquilo que parece apenas uma mania curiosa de Dave Grohl e outros grandes nomes da música tem alguma base na ciência da voz - desde que usado com moderação e sem substituir os cuidados adequados com a saúde vocal.

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