Quando uma pessoa sofre de carência afetiva, os filtros para escolhas mais sensatas de parceiros simplesmente desaparecem.
Esse estado emocional funciona como um campo fértil para abusadores, sociopatas e manipuladores. É a receita infalível para se deixar levar e, depois de um tempo, estar mergulhada numa armadilha de difícil saída.
A pessoa carente se torna uma presa fácil porque o abusador tem um tipo de inteligência que percebe exatamente o que ela deseja e oferece na medida exata num primeiro momento.
Compreender essa dinâmica é o primeiro passo para não pautar sua vida nas mãos do outro e fortalecer seu amor-próprio.
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Como o abusador identifica e seduz a pessoa carente
O abusador oferece exatamente o que o carente deseja num primeiro momento. Essa entrega inicial é muito sedutora e costuma incluir:
- Sexo incrível e carinho: Mimos e uma fala sempre doce.
- Validação constante: Reconhecimento por tudo e por nada.
- Promessas: Garantias de uma vida estável e aparente entrega.
- Intelecto e humor: Simpatia, inteligência afiada e compreensão excessiva.
Como tudo isso é envolvente, quem está carente não percebe que, junto com as qualidades, as atitudes de possessividade já estão presentes. Preste atenção aos indicativos:
- Ele afasta a pessoa gradualmente da família, recusando encontros e festas.
- Quando vai a compromissos sociais, demonstra claramente com atitudes que não queria estar lá.
- Afasta a pessoa dos amigos sob o pretexto de que "só eles juntos já se bastam".
- Revela ciúme de todos que roubam o tempo do casal ou de tudo o que a pessoa preza.
- Faz a pessoa se sentir amada e insubstituível enquanto restringe sua liberdade.
Como tudo é feito de forma dedicada, justifica-se o incômodo acreditando ser tudo por amor.
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A inversão do quadro: quando a máscara cai
Quando o abusador percebe que a pessoa foi conquistada, o cenário se transforma. O que era doce torna-se brutal:
- Agressividade: A fala mansa e a simpatia dão lugar a insultos, brutalidade e cara fechada.
- Instabilidade: A vida vira um campo de batalha com acusações e fantasias que fazem a pessoa se desdobrar para provar sua inocência.
- Exploração: O que era entrega revela-se manipulação egoísta.
- Vingança e Controle: Passa a pautar todos os programas do casal para depois mostrar como a pessoa se comportou mal.
- Chantagem e Violência: O ciúme vira possessividade cruel. Discussões intermináveis podem desembocar em agressões físicas e verbais.
- Dívidas: O carente empresta dinheiro e chega a se endividar para pagar dívidas do abusador, que se faz de vítima enquanto vive às custas da parceira.
O ciclo da repetição e a falsa esperança de mudança
E o carente, como fica nisso tudo?
A pessoa carente se desdobra para recuperar o "começo de sonho" e acaba se desidratando emocionalmente.
A pessoa se consome e não ouve ninguém. O que está claro para amigos e família não é claro para ela, que insiste, numa teimosia cega, que vai conseguir resgatar a doçura dos primeiros tempos (e muitas vezes o dinheiro), convencida de que a responsabilidade é dela.
Se a pessoa chega a ter um lampejo de lucidez e toma uma atitude mais firme, o abusador sabe que pode perder terreno e volta a ser gentil, pois sabe que é disso que precisa para que ela caia mais uma vez em sua armadilha. E pouco tempo depois, a dinâmica perversa é retomada.
O perigo do "retorno" e a paciência do abusador
A repetição desse padrão se dá várias vezes na vida de quem ainda não aprendeu a se respeitar ou o que significa amor-próprio. Às vezes, eles se separam. Para a pessoa carente, é um alívio poder voltar para sua essência, mas o abusador é paciente.
Ele nunca sai do radar de sua vítima. Rodeia, mostra o quanto mudou, convida para um almoço, volta a ser a pessoa divertida e amável dos primeiros tempos. De novo sedutor.
E se a pessoa não aprendeu, vai acreditar que as pessoas mudam assim, sem um tratamento terapêutico, sem reflexão, que mudam "do nada".
Mas quem não entendeu que ninguém se transforma por milagre é a pessoa carente, que acaba cedendo ou repetindo o padrão com outra pessoa.
Como superar a codependência e retomar o controle?
Muitas vezes, a pessoa carente é alguém de bom coração que se recusa a acreditar que um abusador não sinta empatia. É preciso entender que determinados tipos de transtorno de personalidade não se afetam pelos sentimentos dos outros.
Não têm empatia e agem no impulso do próprio egoísmo. Por não terem essa percepção mais afiada, por serem excessivamente crédulas, as pessoas carentes podem cair na mesma armadilha mais de uma vez, e até com a mesma pessoa.
Os sinais de um abusador estão lá, mas o carente se recusa a enxergar.
Se você se identificou com esse personagem carente, saiba que a codependência afetiva pode ser solucionada. Não por milagre, mas com trabalho interno e tratamento terapêutico, focando em:
- Autoconhecimento: Entender as razões que a empurraram para esse labirinto.
- Fortalecer a autoestima: Fazer escolhas sem precisar abrir mão de quem você é para ser aceita.
- Autonomia: Aprender que você pode suprir as próprias carências. A solução para sua solidão afetiva não está no outro.
- Compreender para transformar: finalmente, poder fazer escolhas na vida que você não sinta que tem necessidade de abrir mão de quem é para agradar, para ser aceito, para viver em paz.
O abusador se acha perfeito e não acredita que tenha problemas, mas quem sofre é você. Procure ajuda. O outro pode complementar sua vida, mas não pautá-la.
Fazer escolhas equilibradas, saber identificar quando caiu num relacionamento abusivo e sair dele antes que seja tarde são coisas que se pode aprender.
Procure ajuda e aprenda que pode suprir as próprias carências sem achar que a solução para sua solidão afetiva está no outro. Não está. O outro pode complementar sua vida, mas não pautá-la. Isso é com você!
O post Carência afetiva: como ela se torna um convite para relacionamentos abusivos apareceu primeiro em Personare.
Celia Lima (celiacalima@gmail.com)
- Psicoterapeuta holística com abordagem junguiana há mais de 30 anos e estudiosa de Psicologia da Saúde e Hospitalar. Utiliza os florais, entre outras ferramentas, como método de apoio ao processo terapêutico, como vivências xamânicas, buscando um pilar metafísico para uma compreensão mais ampla da vida, da saúde física e emocional.