Síndrome do sono insuficiente atinge 20% dos brasileiros, diz estudo

Dados mostram que milhões de brasileiros dormem menos do que o recomendado, e especialistas alertam para os impactos da privação crônica de sono na saúde física e mental

8 mar 2026 - 12h09

Dormir menos do que o corpo precisa tornou-se algo comum na rotina moderna. Entre trabalho, compromissos, telas e preocupações, muitas pessoas acabam sacrificando horas de descanso para dar conta do dia a dia. O problema é que, quando essa privação se torna frequente, ela pode evoluir para uma condição conhecida como síndrome do sono insuficiente - um quadro que já preocupa especialistas em saúde.

Síndrome do sono insuficiente afeta milhões de brasileiros; entenda como dormir pouco impacta o corpo e a mente
Síndrome do sono insuficiente afeta milhões de brasileiros; entenda como dormir pouco impacta o corpo e a mente
Foto: Reprodução: Canva/amenic181 / Bons Fluidos

Dados divulgados pelo Ministério da Saúde mostram que o problema é mais comum do que parece. Segundo levantamento do sistema Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), 20% dos brasileiros dormem menos de seis horas por noite, enquanto 31,7% relatam sintomas de insônia.

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Entenda o estudo

A pesquisa, que acompanha hábitos de saúde da população nas capitais brasileiras e no Distrito Federal, incluiu pela primeira vez uma análise específica sobre o sono. Para especialistas, esse olhar mais atento é essencial para compreender os impactos do descanso insuficiente na saúde pública.

Em entrevista ao Jornal da USP, a médica Andrea Toscanini, do Laboratório do Sono do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, destacou a importância dessa mudança de perspectiva. "Foi fundamental que o Vigitel tenha colocado a síndrome do sono insuficiente como uma doença crônica no Brasil. Visto que, no resto do mundo, ela é, há muitos anos, considerada uma doença crônica, inclusive pela própria Organização Mundial da Saúde, que a considera como a maior doença crônica não comunicável", afirmou a profissional.

Quando o cansaço vira rotina

Abrir mão de algumas horas de sono para terminar uma tarefa, resolver questões do trabalho ou até assistir a mais um episódio de uma série pode parecer algo pontual. No entanto, quando isso se repete diariamente, o corpo começa a sentir os efeitos.

A recomendação da Fundação Nacional do Sono, dos Estados Unidos, é que adultos entre 18 e 64 anos durmam de sete a nove horas por noite. Na prática, porém, o descanso médio do brasileiro é menor: cerca de 6,4 horas, segundo dados da Associação Brasileira do Sono.

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Essa redução pode trazer consequências rápidas. Alterações na memória, dificuldade de concentração, irritabilidade, mudanças de humor e queda de rendimento no trabalho ou nos estudos estão entre os primeiros sinais. Em casos mais extremos, a privação prolongada de sono pode até provocar episódios de confusão mental ou alucinações.

Impactos no corpo vão além do cansaço

Dormir pouco não afeta apenas a disposição no dia seguinte. A falta de descanso adequado interfere em vários processos biológicos importantes. Um dos principais mecanismos prejudicados é o ritmo circadiano, que funciona como um relógio interno responsável por regular o ciclo de sono e vigília. Quando esse ritmo se desequilibra, diversas funções do organismo também são afetadas - incluindo a pressão arterial, a frequência cardíaca e o metabolismo.

Estudos indicam que distúrbios do sono podem aumentar o risco de infarto e acidente vascular cerebral (AVC). A privação de sono também está associada a alterações metabólicas que favorecem o desenvolvimento de diabetes tipo 2 e resistência à insulina.

Outro efeito frequente aparece na relação com a alimentação. Dormir pouco altera o equilíbrio hormonal, aumentando a produção de grelina, hormônio ligado à sensação de fome, e reduzindo a leptina, responsável pela saciedade e pelo controle do metabolismo. Como resultado, a tendência é comer mais e ganhar peso com mais facilidade.

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O sistema imunológico também sofre. Pesquisas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) apontam que dormir menos de seis horas por noite pode diminuir a capacidade do organismo de combater infecções, além de reduzir a atividade de células importantes para a defesa do corpo.

O cérebro também precisa descansar

O impacto da privação de sono não se limita ao corpo físico. A saúde mental e o funcionamento cognitivo também dependem de noites bem dormidas. Estudos científicos mostram que o descanso adequado ajuda o cérebro a consolidar memórias, regular emoções e processar experiências do dia. Quando o sono se torna insuficiente, o risco de ansiedade, depressão e esgotamento emocional aumenta.

Pesquisas publicadas na revista Nature Communications apontam ainda que pessoas entre 50 e 70 anos que dormem seis horas ou menos por noite apresentam um risco cerca de 30% maior de desenvolver demência. Durante o sono, o cérebro ativa um sistema de limpeza chamado sistema glinfático, responsável por eliminar resíduos metabólicos do sistema nervoso. Entre eles está a proteína beta-amiloide, associada ao desenvolvimento da doença de Alzheimer quando se acumula no cérebro.

Outro efeito importante envolve o processamento das emoções. Pesquisadores da Universidade de Berna, na Suíça, observaram que, durante o sono REM, o cérebro reorganiza memórias emocionais e reduz a intensidade de emoções negativas, o que pode ajudar na estabilidade psicológica.

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Mulheres podem sofrer mais com o problema

Os sintomas de insônia aparecem com maior frequência entre mulheres. Segundo especialistas, fatores hormonais e sociais podem explicar parte dessa diferença. Durante a menopausa, por exemplo, aumentam as chances de desenvolver insônia, alterações de humor e até apneia do sono. Esses fatores também podem elevar o risco de hipertensão e distúrbios metabólicos.

Além disso, muitas mulheres enfrentam dupla jornada de trabalho, acumulando responsabilidades profissionais e domésticas. Essa sobrecarga pode reduzir ainda mais o tempo disponível para descanso.

Quando procurar ajuda

Se a dificuldade para dormir bem se torna frequente, o ideal é buscar orientação profissional. Médicos especialistas em sono e profissionais de saúde mental podem ajudar a identificar as causas do problema e orientar o tratamento mais adequado.

Em alguns casos, mudanças simples no estilo de vida - como reduzir o uso de telas à noite, organizar melhor os horários ou diminuir o consumo de estimulantes - já ajudam a melhorar a qualidade do descanso.

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No entanto, quando a privação de sono está ligada a questões emocionais, estresse ou sobrecarga de tarefas, o acompanhamento psicológico também pode ser fundamental. Dormir bem não é apenas um momento de pausa. É um processo essencial para o equilíbrio do corpo e da mente - e um cuidado silencioso que sustenta a saúde no dia a dia.

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