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Como não cair em cilada com vídeos de médicos falsos na internet?

Perfis criados por inteligência artificial se passam por profissionais de saúde e divulgam tratamentos sem comprovação; saiba reconhecer os sinais de alerta

11 ago 2026 - 14h10

Jaleco, consultório ao fundo, voz tranquila, currículo impressionante e conselhos que parecem vir de alguém com décadas de experiência. À primeira vista, não há nada que indique que aqueles médicos falando sobre diabetes, pressão alta ou colesterol não existam. Mas eles podem ter sido inteiramente criados por inteligência artificial.

Médicos falsos criados por IA estão se espalhando nas redes; veja como identificar esses vídeos e evitar falsas promessas de saúde
Médicos falsos criados por IA estão se espalhando nas redes; veja como identificar esses vídeos e evitar falsas promessas de saúde
Foto: Reprodução/YouTube / Bons Fluidos

A evolução da IA tornou possível produzir personagens extremamente realistas e colocá-los diante das câmeras para falar sobre saúde. O problema é que alguns desses perfis médicos utilizam a aparência de autoridade para divulgar informações sem comprovação, recomendar tratamentos inadequados e até vender produtos.

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Um levantamento da CTRL+Z, organização que acompanha os impactos das plataformas digitais, identificou ao menos 29 perfis desse tipo no YouTube. Embora muitos tenham surgido em 2026, juntos eles já ultrapassaram 70 milhões de visualizações.

Um dos personagens identificados é Roberto Fontes, apresentado nas redes como cardiologista e geriatra com mais de 35 anos de experiência. Com aparência de um médico tradicional, ele surge de terno ou jaleco e promete compartilhar orientações "baseadas em evidências". O profissional, entretanto, não existe: foi criado por inteligência artificial. E esse está longe de ser um caso isolado.

Médicos falsos podem parecer extremamente convincentes

A estratégia utilizada por essas contas ajuda a explicar por que tantas pessoas acreditam no conteúdo. Os personagens costumam aparecer dentro de supostos consultórios, apresentam especializações, universidades e anos de experiência e falam utilizando termos comuns ao universo médico. Alguns chegam a contar histórias de pacientes que teriam atendido ao longo da carreira. Tudo isso contribui para criar uma sensação de credibilidade. 

Há ainda casos nos quais não é preciso inventar alguém. A inteligência artificial também permite reproduzir rosto e voz de pessoas verdadeiras. Personalidades conhecidas também já enfrentaram problemas semelhantes. Drauzio Varella teve sua imagem reproduzida artificialmente para promover um suplemento, enquanto Fernanda Montenegro denunciou uma publicidade que utilizava sua imagem para anunciar um suposto produto contra doenças como Alzheimer.

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Diante de conteúdos cada vez mais convincentes, identificar uma fraude apenas observando a aparência do vídeo pode ficar difícil. Alguns outros sinais, porém, devem despertar desconfiança.

Como se livrar de ciladas de médicos falsos?

1. Desconfie de promessas de cura simples para doenças complexas

Diabetes, hipertensão, obesidade, demências e outras condições exigem avaliação individual e podem envolver tratamentos complexos. Por isso, frases que apresentam um alimento, chá ou ingrediente como solução rápida merecem atenção.

Entre os conteúdos identificados no levantamento aparecem recomendações de vinagre de maçã para controlar a glicemia, azeite para tratar gordura no fígado e até feno-grego como alternativa à insulina.

O problema não está simplesmente no consumo de determinados alimentos ou ervas, mas em atribuir a eles uma capacidade terapêutica que não foi comprovada - especialmente quando são apresentados como substitutos de tratamentos estabelecidos.

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2. Fique atento ao famoso "o médico não quer que você saiba"

Outra estratégia é criar a sensação de que existe uma grande informação escondida do público. Expressões como "o que nenhum médico te contou", "a verdade que escondem de você" ou afirmações de que determinado tratamento conhecido seria desnecessário ajudam a construir uma narrativa na qual aquele personagem aparece como a única pessoa disposta a revelar a suposta verdade. Esse recurso também pode incentivar a desconfiança em profissionais de saúde reais.

3. Observe se o vídeo tenta assustar você

Títulos alarmistas são outra ferramenta para conquistar cliques. Frases que relacionam sintomas bastante comuns imediatamente a doenças graves podem despertar medo e fazer com que o usuário continue assistindo. Entre os exemplos encontrados estão conteúdos com chamadas como "nunca ignore a coceira nessas cinco áreas do corpo, pode ser câncer" e "seu rosto fica inchado de manhã? Pode ser grave".

Isso não significa que sintomas devam ser ignorados. A diferença é que uma orientação responsável considera contexto, histórico e avaliação clínica, em vez de utilizar o medo como estratégia para prender a atenção.

4. Pesquise se aquele médico realmente existe

Este talvez seja um dos cuidados mais importantes. Não confie apenas no nome, no jaleco ou no currículo apresentado no próprio vídeo. Se alguém afirma ser médico, procure informações sobre sua formação e registro profissional fora daquela rede social.

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A Anvisa orienta que as credenciais sejam verificadas na plataforma de busca do Conselho Federal de Medicina (CFM). Dessa maneira, é possível conferir se aquele nome corresponde a um profissional registrado.

Também vale pesquisar o nome completo separadamente e verificar se as instituições, especialidades e demais informações apresentadas realmente existem. Se um suposto especialista afirma possuir décadas de carreira, mas praticamente não existem registros confiáveis sobre ele fora de seus próprios canais, o sinal de alerta deve ser ligado.

5. Cuidado quando o conselho termina em uma venda

Alguns perfis não buscam somente visualizações. Depois de conquistar a confiança do público, eles passam a oferecer e-books, suplementos, receitas, cursos e outros produtos. Uma das personagens identificadas, apresentada como a "Dra. Sofia Ferreira", dizia ser especialista em cardiologia pela Universidade de Lisboa. Por R$ 38, vendia um material com receitas naturais e listas de compras que prometiam "reviver o coração, defender as artérias e repará-las enquanto você dorme".

Quando um conteúdo começa apresentando um problema assustador e termina oferecendo justamente o produto capaz de solucioná-lo, vale redobrar a atenção. Além do risco de pagar por informações sem fundamento, pesquisadores alertam para outras possibilidades, como não receber aquilo que foi comprado ou fornecer dados pessoais e bancários a responsáveis difíceis de identificar.

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6. Não considere algo seguro apenas porque é "natural"

A ideia de que produtos naturais são automaticamente inofensivos também pode ser perigosa. Ervas, chás e outras substâncias podem interagir com medicamentos, alterar seus efeitos ou provocar reações adversas dependendo da quantidade utilizada e das condições de saúde de cada pessoa.

Por isso, uma receita aparentemente simples encontrada na internet não necessariamente é adequada para todo mundo. O risco aumenta quando o conteúdo incentiva a substituição de um medicamento prescrito. Nos comentários analisados pela reportagem original, usuários chegaram a relatar que pretendiam trocar tratamentos indicados por profissionais por alternativas apresentadas nos vídeos.

7. Muitos seguidores não são garantia de credibilidade

Um vídeo com milhares ou milhões de visualizações pode transmitir a impressão de que aquela informação foi validada por muita gente. Mas popularidade e evidência científica são coisas diferentes. Os perfis identificados pela CTRL+Z mostram justamente a dimensão do problema: mesmo sendo personagens artificiais, conseguiram acumular dezenas de milhões de visualizações.

Além disso, os algoritmos podem ampliar esse efeito. Ao assistir repetidamente a conteúdos sobre determinado assunto, o usuário tende a receber novas recomendações semelhantes. Assim, vários vídeos repetindo a mesma informação podem criar a falsa sensação de que existe consenso sobre aquilo.

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8. Não interrompa medicamentos por causa de um vídeo

Este é um dos principais riscos da desinformação médica. Nenhum vídeo de rede social - produzido por uma pessoa real ou por inteligência artificial - conhece seu histórico clínico, os medicamentos que você utiliza, seus exames ou outras características necessárias para tomar uma decisão individualizada.

Por isso, tratamentos prescritos não devem ser interrompidos ou substituídos com base em uma recomendação encontrada nas redes sociais. Se um conteúdo levantar uma dúvida legítima, a informação pode servir como ponto de partida para uma conversa com o profissional responsável pelo acompanhamento, e não como motivo para modificar o tratamento por conta própria.

IA tornou a desinformação ainda mais difícil de reconhecer

Perfis falsos de saúde não começaram com a inteligência artificial, mas a tecnologia mudou a escala e o grau de realismo dessas produções. Além dos falsos médicos, personagens que se apresentam como avós, indígenas, monges e outros supostos detentores de conhecimentos tradicionais também são utilizados para promover receitas e produtos sem evidências científicas. A estratégia explora justamente elementos que costumam despertar confiança: experiência, autoridade, tradição e proximidade.

À medida que imagens e vozes produzidas artificialmente ficam mais realistas, procurar pequenos defeitos visuais - como movimentos estranhos ou falhas no rosto - deixa de ser uma estratégia suficiente para descobrir se um vídeo é verdadeiro. Mais importante do que tentar identificar a IA pela aparência é analisar aquilo que está sendo dito.

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Promessas extraordinárias, curas rápidas, teorias sobre informações escondidas, tentativas de desacreditar tratamentos conhecidos, currículos impossíveis de confirmar e produtos vendidos como solução são alguns dos principais sinais de alerta.

E, quando a informação envolve saúde, alguns minutos gastos verificando quem está falando e procurando fontes confiáveis podem fazer uma grande diferença. Na dúvida, orientações vistas nas redes sociais devem ser confirmadas com um profissional de saúde habilitado antes de qualquer mudança em tratamentos ou medicamentos.

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