No calendário cristão, é na Quarta-feira de Cinzas que se inicia um período de penitência e reflexão até a ressurreição de Cristo. Na Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, a data também marcou o primeiro encontro de um visitante ilustre na casa de Deus. Pouco após o início da missa, um cachorrinho passeou pelos bancos, cheirou os fiéis e deitou quietinho no altar na hora da leitura do Evangelho. A cena fofa do 'caramelo' viralizou nas redes sociais.
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Quem conta essa história é o Padre Ivo Jablonski, vigário paroquial da igreja que fica em São Mateus do Sul, no Paraná. "Eu estava presidindo a minha terceira missa nesse dia. Do nada, por acaso, durante a celebração, entrou esse cachorro na igreja pedindo carinho para as pessoas, passando entre os bancos", lembra.
'É como se ele ficasse o tempo inteiro escutando'
Entre fuçadas e cheirinhos nos fiéis, o cãozinho foi caminhando em direção ao altar. Foi quando o padre Ivo parou para prestar ainda mais atenção no visitante.
"Ele se aproximou do local onde foram colocadas as cinzas para abençoar, se deitou ali ao lado da mesa e ficou resguardando o local. Como se ele estivesse cuidando do local das cinzas, como se fosse algo importante para ele", explica.
Depois da primeira interação com o novo amigo canino, o padre seguiu a missa tranquilamente, até a hora da homilia. Enquanto dava o sermão, Ivo se sentou na escadaria do presbitério e logo percebeu: o cachorro estava ao seu lado, com uma carinha fofa de quem queria receber carinho.
"Eu ofereci carinho e até usei ele para falar sobre Campanha da Fraternidade, porque, afinal de contas, a gente está no ano da campanha sobre moradia. Muitas pessoas que vivem em situação precária, que não têm moradia, que vivem abandonadas, mas também quantos animais estão abandonados?", reflete.
Para o padre, a presença do 'cãoroinha' mais inspirou que atrapalhou o andamento da missa. "Esse animal é parte da criação de Deus, que nós temos que respeitar. Temos que respeitar o ser humano como a criatura principal, primordial de Deus, mas toda criação de Deus precisa ser respeitada, ela deve viver em harmonia", destaca.
"Não dá simplesmente para a gente abandonar e dizer que só o ser humano é importante. Afinal de contas, se Deus criou tudo é porque tudo tem o seu sentido. E nesse sentido, claro, está o cão, estão os outros animais. Mas, de modo muito especial, esse cãozinho que apareceu ali e que chamou a atenção também do povo em geral. O jeito, a maneira carinhosa dele", detalha.
O encontro divino entre o cachorrinho e os fiéis da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro foi amor à primeira vista. Depois da primeira visita, o caramelo passou a frequentar as celebrações e virou parte da comunidade.
A intimidade é tanta que o padre Ivo já percebe algumas mudanças de comportamento no cãozinho em partes específicas da missa. Para o religioso, o cachorrinho parece ouvir e entender tudo que se passa na hora da missa, quietinho, como um bom fiel.
"Teve um dia que ele estava mais tranquilo um pouco, depois que ele já tinha pedido carinho ali na hora da liturgia da palavra. Outra vez, quando eu comecei a proclamação do Evangelho, ele subiu ali no presbitério ao lado do ambão da palavra, onde estavam dois coroninhas, e ficou no meio. Isso me chamou muita atenção, porque é como se ele ficasse o tempo inteiro ali escutando", conta.
Adoção do doguinho fiel?
Além da relação de carinho entre Ivo e o caramelo, a comunidade também abraçou a presença do fiel 'doguinho' nas celebrações. No entanto, ainda há quem torça o nariz.
"Tem aquelas pessoas que dizem 'o padre está passando a mão no cachorro sujo'. Eu não vejo por esse lado. Se ele está ali é porque está trazendo algum propósito para a gente, o importante é saber acolher com amor", defende.
Mas o padre Ivo garante que a rejeição é insignificante perto do carinho da maior parte da comunidade com o caramelo. Houve até quem tentasse adotar o cãozinho, mas o trâmite acabou não prosseguindo.
"Ele é um animal de rua. Muitas vezes a grande reclamação é 'mas padre, adote ele'. Pelo que eu sei, já tentaram adotar, mas ele não se deixa adotar. Ele quer liberdade, quer estar no ambiente que está. Como que eu vou adotar? Vou ter que segurar ele aí preso. Acredito que seja melhor ele ter a liberdade que ele tem, porque a gente vê que ele é muito feliz", opina.
'Esse cãozinho é criação divina'
Como religioso, o padre Ivo sempre se questiona quais são os propósitos de Deus para cada acontecimento, cada encontro. Com os fiéis da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e o cãozinho caramelo não foi diferente.
"Talvez Deus esteja me pedindo: 'olha, seja mais acolhedor, respeite mais a minha criação, respeite mais o ser humano, respeite mais os animais'. O ser humano é parte da criação principal, porém Deus não abandona a sua criação no geral. Toda criação tem o seu sentido. Tudo faz parte da nossa vida. E se algo não está em harmonia, tudo despenca", reflete.
Para ele, a resposta passa pelo cuidado com o próximo, principalmente os mais vulneráveis.
“De que forma que nós agimos hoje, fazendo a nossa parte nesse mundo que hoje sofre tantas guerras, tanta violência? Qual é a nossa parte na promoção da paz, na promoção da justiça, na promoção do bem? Judiando dos mais pequenos? Tratando mal aquilo que Deus coloca à nossa frente? Ou, pelo contrário, valorizando aquilo que Deus nos deu através da sua criação?", questiona.