Oferecimento

Amigas decidem se casar, mas sem viver um romance: 'Eu sou a mulher que sou por causa dela'

Amigas desde os 12 anos, Renee Wong e April Lee decidiram transformar uma amizade de longa data em casamento, mesmo sem atração romântica ou sexual

19 ago 2026 - 20h13

Quando Renee Wong e April Lee se conheceram, aos 12 anos, provavelmente não imaginavam que aquela amizade atravessaria a adolescência, mudanças de país e diferentes relacionamentos até chegar ao casamento. Hoje, aos 29 anos, elas estão legalmente casadas há dois e compartilham casa, dinheiro e projetos para o futuro. O que não existe entre as duas é envolvimento romântico ou sexual.

Amigas há 17 anos, Renee e April optaram por um casamento platônico, dividem casa, finanças e planos para o futuro; entenda a união
Amigas há 17 anos, Renee e April optaram por um casamento platônico, dividem casa, finanças e planos para o futuro; entenda a união
Foto: Reprodução/Instagram / Bons Fluidos

Renee e April definem o vínculo como uma parceria platônica de vida, uma forma de relacionamento na qual amizade, companheirismo e compromisso ocupam o espaço tradicionalmente reservado a um parceiro amoroso.

Publicidade

"Por que a gente está reservando esse lugar tão precioso - de parceira de vida, de casamento, de cônjuge - para um parceiro romântico que nem apareceu ainda? Se essa pessoa aparecer, ótimo, a gente vai poder curtir todo mundo junto. Mas por que guardar esse lugar para alguém que ainda nem está aqui, quando a pessoa que já se dedica a mim está bem na minha frente?", questiona Renee, em entrevista à BBC News Brasil.

Elas se consideram almas gêmeas e planejam, inclusive, ter filhos no futuro. A história das duas chama atenção para uma pergunta interessante: um casamento precisa necessariamente nascer do amor romântico?

Uma amizade que começou aos 12 anos

Renee e April se conheceram ainda na escola, em Singapura, e rapidamente se tornaram inseparáveis. Depois das aulas, frequentavam a casa uma da outra. Aos sábados, faziam reforço escolar juntas e, aos domingos, iam à igreja. "Literalmente sete dias por semana juntas", lembra Renee.

Como nenhuma das duas tem irmãos, a amizade também acabou ganhando contornos de relação familiar. Com o tempo, as próprias famílias se aproximaram e passaram a celebrar juntas ocasiões como Natal e Ano Novo Lunar.

Publicidade

A vida adulta acabou colocando quilômetros entre as duas. Renee mudou-se para Los Angeles, nos Estados Unidos, para estudar, enquanto April permaneceu em Singapura. Ainda assim, a amizade continuou.

Foi durante a pandemia de Covid-19, quando as fronteiras se fecharam, que elas começaram a enxergar o vínculo de outra maneira. Separadas por diferentes fusos horários, chegaram a conversar durante até 12 horas por dia. A distância fez Renee perceber que April já ocupava o lugar de pessoa mais importante de sua vida.

"Ficou muito claro para mim que ela era a pessoa que eu mais amava neste mundo. Não de um jeito romântico - mas, se alguma coisa acontecesse comigo, era ela que eu ia querer do meu lado", conta. A constatação provocou outra pergunta. "E aí ficou óbvio: se é ela que eu quero ao meu lado na hora de morrer, por que não estou vivendo com ela? Por que nossas vidas são tão separadas? Por que a gente não tenta juntá-las?"

De melhores amigas a esposas

Com a reabertura das fronteiras, as duas começaram a planejar uma vida juntas. No início de 2024, oficializaram a união em Los Angeles. Renee e April são bissexuais, mas explicam que nunca sentiram atração sexual ou romântica uma pela outra. Depois de tantos anos crescendo juntas, enxergam o vínculo como algo muito mais próximo de uma relação entre irmãs. "A gente sempre fala que tem uma péssima química física", brinca Renee. "Num nível científico, a gente não gosta do cheiro uma da outra. Então, quimicamente, não vai rolar."

Publicidade

Para elas, portanto, o casamento não surgiu da tentativa de transformar uma amizade em romance. Foi uma decisão consciente de reconhecer como principal parceria da vida uma relação que já havia demonstrado sua importância durante muitos anos. "Depois de 17 anos de amizade, a gente já teve nossos próprios relacionamentos, tivemos namorados, saímos com gente", explica Renee.

Mesmo com diferentes experiências amorosas, a amizade permaneceu como ponto de estabilidade. "Mas essa é a relação que continua. Eu brigava com o namorado, e era ela quem aprendia a lição e crescia comigo. Ela é quem faz todo o trabalho emocional comigo, crescendo e se superando em todos os jeitos que eu quero de uma parceira de vida."

Afinal, elas não são "apenas amigas"?

Essa é justamente uma das perguntas que Renee e April mais escutam. Para as duas, a diferença está no grau de compromisso assumido. "Eu não sei que nível de compromisso as pessoas esperam de uma amiga e de uma parceira", diz Renee. "Ela é essa parceira para mim."

Na prática, a relação inclui responsabilidades normalmente associadas ao casamento. As duas dividem as finanças e tomam decisões pensando no bem-estar de ambas. April lembra que, durante uma mudança profissional, acumulou uma dívida no cartão de crédito. Quando Renee recebeu um bônus no trabalho, usou parte do dinheiro para quitar o valor. "Ela disse: 'assim isso não fica pairando sobre a nossa cabeça'". É esse senso de equipe que, para elas, define o casamento muito mais do que sexo ou paixão.

Publicidade

Casamento não significa abrir mão de outros romances

A escolha pela união platônica também não significa celibato. Renee e April continuam abertas à possibilidade de se apaixonar e namorar outras pessoas. No momento, nenhuma das duas está procurando ativamente um relacionamento. Segundo elas, ter uma base afetiva sólida diminuiu a sensação de que precisam encontrar alguém para preencher algum espaço emocional.

"A gente não está tentando preencher um buraco. A gente não está sozinha", afirma Renee. Ela brinca que, depois de construir uma relação tão satisfatória em casa, encontros amorosos pouco interessantes perderam parte do apelo. "Se você já tem uma refeição cinco estrelas em casa...", diz.

A ideia, porém, não é colocar amizade e romance em uma competição. Se futuros parceiros aparecerem, Renee e April esperam que eles acrescentem novas experiências à vida das duas. "A gente acredita que ter um relacionamento romântico dentro da nossa parceria platônica de vida só soma", explica Renee. "Tem mais amor para dar, não menos. Não tem competição."

Novas maneiras de pensar a família

Para Renee e April, porém, assumir esse modelo de família não foi simples. As duas cresceram em Singapura, onde, segundo Renee, determinadas estruturas familiares ainda são vistas de maneira mais conservadora. "Você nem pensaria em casamento entre pessoas do mesmo sexo, quanto mais um que é platônico", diz.

Publicidade

Inicialmente, as famílias se surpreenderam. Depois, a escolha começou a fazer sentido: afinal, todos acompanhavam aquela amizade desde que as duas tinham 12 anos e já existia uma forte proximidade entre os familiares.

Planos de ter filhos e envelhecer juntas

Hoje, Renee possui uma carreira corporativa mais estável, enquanto April busca espaço em uma área criativa. As diferenças às vezes despertam comparações: uma admira a liberdade da outra, enquanto a outra enxerga vantagens na segurança financeira da amiga. Ainda assim, elas procuram transformar essas diferenças em complementaridade. "No fim das contas, o que a sua parceira tem é o que você tem", resume.

Ter filhos também está nos planos. Por enquanto, as duas dividem os cuidados de duas gatas, chamadas carinhosamente de "filhas peludas". No futuro, consideram diferentes caminhos para exercer a maternidade, incluindo adoção e outras formas de participação na vida de uma criança. 

"Claramente não vai ser uma engravidando a outra", brinca Renee. "O que mais me anima em ser mãe com ela no futuro é ver a gente como mães". O casamento realizado em 2024 foi pequeno, com a presença de amigos. Como as famílias não conseguiram participar, as duas já falam em renovar os votos no futuro, quando tiverem condições de organizar uma nova celebração.

Publicidade

Mais do que defender que outras pessoas façam a mesma escolha, Renee e April querem ampliar a conversa sobre quais relações podem ocupar o centro de uma vida. "Todo mundo poderia usar mais apoio, mais amor e mais família neste mundo. Mas, às vezes, as regras que a sociedade impõe afastam as pessoas do amor que poderia, de verdade, beneficiá-las."

A história das duas não oferece uma fórmula para os relacionamentos. Em vez disso, coloca em discussão uma ideia que por muito tempo pareceu automática: a de que apenas um amor romântico pode ser escolhido como a principal parceria de uma vida.

Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se