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A flor de lótus que causa amnésia em 'A Odisseia' realmente existe?

Jujubeira, lótus-azul e até papoula-do-ópio estão entre as espécies apontadas como possíveis inspirações para a planta descrita por Homero

11 ago 2026 - 17h10

Uma planta capaz de fazer alguém esquecer a própria casa, abandonar seus planos e desejar permanecer para sempre em um mesmo lugar parece coisa de ficção. E talvez seja. Mas há séculos pesquisadores tentam descobrir se o misterioso lótus descrito em A Odisseia, de Homero, poderia ter sido inspirado em alguma espécie existente no mundo real.

 A misteriosa planta de ‘A Odisseia’ existiu de verdade? Conheça as principais teorias sobre o lótus que fazia os homens esquecerem de casa
A misteriosa planta de ‘A Odisseia’ existiu de verdade? Conheça as principais teorias sobre o lótus que fazia os homens esquecerem de casa
Foto: Reprodução: enews1023/pixabay / Bons Fluidos

O enigma voltou aos holofotes com a nova adaptação cinematográfica dirigida por Christopher Nolan. Na obra original, Odisseu passa dez anos tentando retornar à ilha de Ítaca após a Guerra de Troia e, pelo caminho, enfrenta criaturas e situações que se tornariam algumas das histórias mais conhecidas da mitologia grega.

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Uma delas é o encontro com os chamados comedores de lótus (ou lotófagos). Ao chegar a uma terra desconhecida, Odisseu e alguns companheiros experimentam o alimento oferecido pelos habitantes locais. Depois disso, perdem a vontade de voltar para casa e passam a desejar permanecer ali. Mas o que eles teriam consumido para provocar uma reação tão intensa?

O lótus de Homero provavelmente não é aquele que imaginamos

O primeiro obstáculo para resolver o mistério está justamente no nome da planta. Ao ouvir a palavra lótus, é fácil imaginar a conhecida flor aquática associada, entre outras coisas, à cultura e à iconografia budistas. Entretanto, essa provavelmente não era a espécie à qual Homero se referia. "O 'lótus' da 'Odisseia' de Homero provavelmente não é a planta que a maioria das pessoas imagina hoje em dia", explica Cassandra Quave, etnobotânica da Universidade Emory, ao The New York Times.

Isso acontece porque, na Antiguidade, o termo tinha um significado muito mais abrangente. "A palavra 'lótus' na Antiguidade era usada para diversas árvores, arbustos e frutos silvestres. Era como 'cavala'", afirma Greta Hawes, professora associada de história antiga da Universidade Macquarie, na Austrália. Ou seja: tentar encontrar uma planta específica apenas pelo nome utilizado no poema é praticamente impossível. Ainda assim, algumas espécies se destacam entre as hipóteses.

Uma pequena fruta do Mediterrâneo pode ser uma pista

Uma das candidatas é a Ziziphus lotus, arbusto espinhoso encontrado no Mediterrâneo e no Norte da África e conhecido como uma espécie de jujubeira. A planta produz pequenos frutos arredondados que podem ser ingeridos frescos, secos ou utilizados em preparações fermentadas.

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A localização também torna a hipótese interessante. Desde a Antiguidade, estudiosos tentam descobrir onde estaria a misteriosa terra dos comedores de lótus. Uma das possibilidades levantadas ao longo dos séculos é Djerba, ilha localizada na costa da Tunísia - justamente uma região onde a Ziziphus lotus pode ser encontrada. Isso porque seus frutos possuem efeitos sedativos leves e também poderiam ser fermentados para produzir uma bebida alcoólica.

Existe, entretanto, uma questão: vinho está longe de ser algo extraordinário dentro de A Odisseia. A bebida aparece diversas vezes no poema. Seria estranho transformar uma simples embriaguez em um episódio tão fantástico.

Lótus-azul também está entre as possibilidades

Outra planta que chama atenção dos pesquisadores é a Nymphaea caerulea, conhecida como lótus-azul ou lótus-do-Egito. A espécie aparece representada em tumbas egípcias muito antigas e possui uma longa relação com aquela civilização. A planta já foi utilizada por suas propriedades psicoativas, inclusive para promover relaxamento e induzir o sono.

Em quantidades elevadas, substâncias presentes nela podem provocar alterações como euforia e alucinações. "Nymphaea é uma candidata plausível devido à sua distribuição nativa e aos efeitos farmacológicos conhecidos", afirma Alain Touwaide, historiador especializado em plantas medicinais do antigo mundo mediterrâneo.

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A localização também joga a favor dessa hipótese, já que a espécie está associada ao Norte da África, região frequentemente relacionada às possíveis localizações da terra dos lotófagos. Para Peter Struck, professor de humanidades da Universidade da Pensilvânia, o efeito descrito por Homero parece ir além de uma simples intoxicação alcoólica. "Não creio que Homero teria incluído uma intoxicação alcoólica nesta história, pois seria algo muito banal. é algo mais exótico, que altera mais a mente. Seja lá o que for o lótus, é algo que traz uma sensação de pura alegria", afirma.

E se o misterioso lótus fosse ópio?

Existe ainda uma hipótese mais conhecida: a papoula-do-ópio (Papaver somniferum). A planta já estava presente no mundo mediterrâneo antigo, e o ópio era conhecido e utilizado por diferentes povos da região.

Para Alan Sumler, autor de Intoxicação no Mundo Grego e Romano Antigo, um detalhe do comportamento dos lotófagos torna essa possibilidade especialmente interessante: eles consumiam o alimento constantemente. "Eles comiam lótus todos os dias. Ninguém come um alucinógeno todos os dias. Nenhuma outra droga no mundo antigo, disse ele, teria tido esse efeito", afirma Sumler.

Nessa interpretação, a reação dos companheiros de Odisseu também ganha outro significado. Eles não estariam simplesmente vivendo uma experiência alucinógena passageira, mas demonstrando uma relação de dependência com aquilo que haviam consumido. Mas não existem evidências suficientes para concluir que Homero estivesse realmente descrevendo o ópio.

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Talvez a planta nunca tenha existido

Há ainda uma possibilidade muito mais simples: estamos procurando uma espécie real para algo que sempre pertenceu ao universo da imaginação. Há quem acredite que a planta tenha sido criada justamente para reunir características misteriosas e sedutoras que faziam sentido dentro do mundo fantástico de A Odisseia.

Um mistério que atravessou quase três milênios

Talvez seja justamente a falta de uma resposta definitiva que faça o lótus continuar despertando tanta curiosidade. Afinal, A Odisseia foi composta há aproximadamente 2,8 mil anos e, ainda hoje, leitores, historiadores, botânicos e pesquisadores tentam encontrar elementos reais por trás das aventuras narradas no poema.

A nova adaptação de Christopher Nolan apenas acrescenta mais um capítulo a essa longa história de interpretações. No filme, o diretor faz sua própria leitura do lótus e o associa a Calipso, personagem ligada à longa permanência de Odisseu longe de casa.

Mas descobrir se a planta realmente existiu talvez seja menos importante do que entender por que continuamos procurando por ela. "O objetivo de uma história inventada é fazer com que você queira entender melhor o nosso mundo", observa Struck.

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Assim, entre uma jujubeira mediterrânea, o lótus-azul, a papoula-do-ópio ou simplesmente a imaginação de Homero, o mistério permanece. E talvez seja exatamente isso que mantenha viva a ideia de que, escondida em algum canto do Mediterrâneo, possa existir uma pequena parte da magia narrada em A Odisseia.

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