Semear o oceano para esfriar o planeta: ciência, esperança e cautela na geoengenharia marinha

Bioestimulação de oceanos com ferro: como "adubar" desertos oceânicos com fitoplâncton pode capturar CO₂ e ajudar no resfriamento global

1 mai 2026 - 15h00

Em diferentes regiões do planeta, vastas áreas do oceano parecem tão vazias quanto um jardim abandonado. A água é límpida, a luz do sol entra sem dificuldade, mas quase nada cresce. Esses "desertos oceânicos" intrigas científicas há décadas e deram origem a uma ideia controversa de geoengenharia: a bioestimulação de oceanos por meio da fertilização com ferro, uma tentativa de usar a própria biologia marinha como aliada no combate ao aquecimento global.

A proposta parte de uma observação relativamente simples: assim como um canteiro de plantas precisa de nutrientes para florescer, o mar também depende de elementos químicos para sustentar o crescimento do fitoplâncton, os microrganismos que formam a base da cadeia alimentar marinha. Em algumas zonas oceânicas, há luz suficiente e bastante nitrogênio e fósforo, mas falta um nutriente-chave em quantidades traço: o ferro. A partir daí surgiu a pergunta que está no centro de diversos estudos desde os anos 1990: e se esse ferro fosse adicionado artificialmente à água?

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O que é a fertilização com ferro e por que ela interessa ao clima?

A chamada fertilização com ferro nos oceanos consiste em dispersar pequenas quantidades de ferro solúvel em regiões pobres nesse elemento, normalmente em alto-mar. A ideia foi defendida inicialmente pelo oceanógrafo John Martin, que sugeriu que a limitação de ferro explicaria a baixa produtividade biológica em grandes áreas do Pacífico, Atlântico e Antártico. Ao "adubar" essas áreas, seria possível estimular um verdadeiro surto de crescimento de fitoplâncton.

O interesse climático surge porque o fitoplâncton funciona como um imenso "jardim microscópico" que respira CO2. Esses organismos utilizam dióxido de carbono dissolvido na água e luz solar para produzir matéria orgânica por fotossíntese. Como a água do mar está em constante troca com a atmosfera, reduzir o CO2 na superfície acaba puxando mais gás da camada de ar logo acima, funcionando como uma espécie de ventilação entre o céu e o mar. Em teoria, ao estimular esse processo com ferro, parte do CO2 atmosférico poderia ser retirado e armazenado por longos períodos nas profundezas do oceano.

Ferro no mar: ciência testa limites da natureza contra o aquecimento – depositphotos.com / cocorattanakorn
Ferro no mar: ciência testa limites da natureza contra o aquecimento – depositphotos.com / cocorattanakorn
Foto: Giro 10

Como o fitoplâncton captura CO₂? A "bomba biológica de carbono"

O mecanismo central por trás da bioestimulação de oceanos é conhecido como bomba biológica de carbono. Em termos simples, trata-se do conjunto de processos que levam o carbono da superfície oceânica para camadas profundas, onde pode ficar retido por séculos ou até milênios. O fitoplâncton é o agente inicial dessa bomba: ao realizar fotossíntese, incorpora carbono em sua biomassa, funcionando como um "armazém temporário".

Assim como plantas em um quintal, esses microrganismos têm ciclo de vida curto. Quando morrem ou são consumidos por pequenos animais, como o zooplâncton, parte do material orgânico se transforma em partículas que afundam lentamente, lembrando folhas secas caindo de uma árvore. Uma fração desse carbono chega ao fundo do mar ou a camadas profundas, onde fica isolado da atmosfera por longos períodos. Diversos experimentos em campo, como os projetos IronEx, SOFeX, EIFEX e LOHAFEX, mostraram que a adição de ferro pode, de fato, gerar florescimentos de fitoplâncton em poucos dias, confirmando a sensibilidade dessa "jardinagem oceânica" ao nutriente em falta.

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Fertilização com ferro funciona mesmo para resfriar o planeta?

A questão que domina o debate é se a fertilização dos oceanos com ferro pode ser uma ferramenta relevante de mitigação climática. Estudos realizados desde a década de 1990 indicam que, após o aporte de ferro, a biomassa de fitoplâncton pode aumentar várias vezes em poucas semanas. Em alguns experimentos, observou-se também a exportação de parte desse carbono para águas mais profundas, sinalizando que o mecanismo da bomba biológica foi, em alguma medida, reforçado.

Modelagens climáticas sugerem que, em cenários muito amplos de fertilização - cobrindo grandes faixas do oceano Austral ou do Pacífico Equatorial - seria possível remover quantidades mensuráveis de CO2 da atmosfera ao longo de décadas. Entretanto, os próprios autores desses estudos costumam apontar limitações importantes: nem todo o carbono fixado pelo fitoplâncton afunda; uma parte significativa retorna rapidamente à superfície na forma de CO2 pela respiração de microrganismos. Além disso, há incertezas sobre a persistência desse sequestro no tempo.

Quais são os riscos ambientais e éticos dessa "jardinagem oceânica"?

Embora a imagem de "adubar o mar" lembre a de cuidar de um canteiro, o sistema oceânico é mais complexo e sensível. Um dos riscos apontados é a desoxigenação da água. Quando enormes quantidades de fitoplâncton crescem e depois morrem, a decomposição desse material consome oxigênio dissolvido. Em camadas intermediárias do oceano, isso pode favorecer a formação de zonas com pouco oxigênio, o que afeta peixes, moluscos e outros organismos que dependem desse gás.

Outra preocupação recorrente é a alteração da cadeia alimentar marinha. A fertilização com ferro tende a favorecer certos grupos de fitoplâncton, como as diatomáceas, em detrimento de outros. Essa mudança na "composição do jardim" pode se refletir em toda a teia ecológica, beneficiando algumas espécies de zooplâncton e prejudicando outras, com possíveis impactos em peixes comerciais e mamíferos marinhos. Há ainda o temor de que algumas floradas possam estimular espécies produtoras de toxinas, dando origem a marés vermelhas localizadas.

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Do ponto de vista ético, grupos de pesquisa e organizações internacionais levantam questões sobre governança. Iniciativas comerciais de fertilização em mar aberto, que surgiram nos anos 2000 prometendo créditos de carbono, geraram debates na Convenção de Londres, que regula a poluição por despejo no mar. Desde então, vários países defendem que qualquer experimento em larga escala de bioestimulação oceânica seja rigidamente controlado, transparente e restrito a fins científicos, diante das incertezas sobre impactos regionais e transfronteiriços.

O que a ciência ainda precisa responder sobre fertilização com ferro?

Apesar de mais de vinte experimentos internacionais já realizados até meados da década de 2020, muitas perguntas permanecem abertas. Entre elas, destacam-se:

  • Qual porcentagem do carbono fixado em um florescimento realmente chega às camadas profundas?
  • Por quanto tempo esse carbono permanece isolado da atmosfera?
  • Como fertilizações repetidas influenciam a biodiversidade marinha local e regional?
  • Quais seriam os efeitos cumulativos na química do oceano, incluindo pH e oxigênio?

Pesquisadores trabalham com novas tecnologias de monitoramento, como sensores autônomos, satélites de alta resolução e modelos numéricos mais sofisticados, para acompanhar a trajetória do carbono desde a superfície até o fundo do mar. Em paralelo, análises socioeconômicas avaliam se essa forma de geoengenharia poderia, em algum cenário, complementar - e não substituir - a redução direta de emissões de gases de efeito estufa em terra.

Um “jardim microscópico” pode influenciar o clima do planeta – depositphotos.com / njarvis
Foto: Giro 10

Bioestimulação de oceanos: ferramenta de apoio ou atalho perigoso?

No debate contemporâneo sobre soluções climáticas, a fertilização com ferro aparece como uma estratégia que mistura esperança científica com cautela. Por um lado, os experimentos realizados até agora demonstram que a limitação por ferro é real em muitos "desertos oceânicos" e que pequenas doses desse nutriente funcionam como um gatilho poderoso para o crescimento do fitoplâncton. A analogia com a jardinagem ajuda a entender a lógica: corrigir a falta do adubo certo pode transformar um canteiro estéril em um campo verde em poucos dias.

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Por outro lado, assim como em um jardim excessivamente fertilizado, o risco de desequilíbrios ecológicos é concreto. A ciência ainda não quantificou com precisão a eficácia climática de longo prazo dessa abordagem, e os possíveis efeitos colaterais sobre a vida marinha permanecem sob investigação. Por isso, a maior parte da comunidade especializada trata a bioestimulação de oceanos como um objeto de estudo, não como uma solução pronta.

À medida que o aquecimento global avança, tecnologias de remoção de CO2 ganham espaço nas discussões internacionais. Nesse cenário, os conhecimentos acumulados sobre a "bomba biológica de carbono" e sobre a fertilização com ferro podem ajudar a entender melhor como o oceano já contribui naturalmente para regular o clima. Qualquer uso deliberado dessa ferramenta, porém, tende a depender de regras internacionais robustas, transparência de dados e clara prioridade à redução de emissões na fonte, mantendo a jardineira oceânica como um campo de pesquisa cuidadoso, e não apenas como um atalho tecnológico.

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