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Brasileiro abandona carreira como economista e reconstitui expedição de Darwin na Patagônia : 'Queria conhecer a humanidade'

Expedição do explorador Marcio Pimenta foi adaptada para um livro, publicado por ele neste mês de maio, três anos após a viagem

19 mai 2026 - 05h00
Brasileiro reconstituiu viagem de Charles Darwin após abandonar carreira como economista
Brasileiro reconstituiu viagem de Charles Darwin após abandonar carreira como economista
Foto: Divulgação/Marcio Pimenta

Se aproximar das pessoas e contar suas histórias foi a premissa que fez com que Marcio Pimenta, 51, abandonasse uma carreira consolidada como economista e a desbravasse o mundo como fotógrafo, explorador e escritor. A virada de chave, inspirada pela ‘busca por respostas sobre a humanidade’, o levou a retraçar a jornada de Charles Darwin pelos territórios extremos da Patagônia, viagem que ajudou o naturalista britânico a publicar a obra A Origem das Espécies e a radicalizar a Biologia com sua Teoria da Evolução. 

A mudança de carreira aconteceu há cerca de 13 anos. À época com 38 anos, Pimenta se dividia entre a carreira como escritor de artigos e as pesquisas para o doutorado. Mas, apesar de estável, a profissão já não o agradava mais. 

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“Eu não estava feliz. E eu percebi que para eu realmente conhecer a humanidade, eu precisava me aproximar mais dela, ao invés de ficar escrevendo teorias. Então, decidi abandonar a carreira acadêmica e escolhi a fotografia como um meio de comunicação para me aproximar das pessoas e contar suas histórias”, relembra. 

Marcio Pimenta reconstituiu viagem de Charles Darwin após abandonar carreira como economista
Foto: Divulgação/Diorginis Pandini

As câmeras e lentes o tiraram do escritório e o levaram a lugares até então impensáveis para ele, como à Guerra Civil do Iraque, em 2016 e 2017, e a diferentes jornadas pela Amazônia. Mas foi seguindo os passos de Darwin pela Patagônia e pelos canais austrais da América do Sul que Pimenta se descobriu, também, como um explorador. 

Com o apoio da National Geographic Society, Pimenta percorreu, sozinho, 11 mil km pelo território, refazendo parte do caminho descrito nos diários de Darwin durante a expedição do HMS Beagle, entre 1832 e 1835. O roteiro, revisitado e documentado de maneira contínua pelo brasileiro, percorreu desertos, costas, mares e geleiras. 

A gente vive em um mundo de muitas certezas, todo mundo tem certeza de tudo. E qualquer diferença de pensamento leva à guerra. E, quando li os diários de viagem do Darwin, percebi que, ao contrário de nós, ele tinha muitas dúvidas. No momento em que ele está aberto a novas informações, ele começa a transformar seus próprios preconceitos, suas próprias concepções sobre a vida no planeta. Foi uma transformação que aconteceu quilômetro a quilômetro; à medida que eu via as pessoas, observava as paisagens que ele tinha visto, comecei a perceber que isso foi transformando a mim, também. 

Brasileiro reconstituiu viagem de Charles Darwin após abandonar carreira como economista
Foto: Divulgação/Marcio Pimenta

Assim como Darwin registrou sua expedição em diários de viagem, Pimenta também o fez. E foi na adaptação de seus diários para a publicação do livro Encontrando Darwin - Uma expedição pelos confins do mundo que ele percebeu a maneira como fora impactado pela jornada na Patagônia. 

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“As mudanças são lentas, quase imperceptíveis. Quando fiz a expedição, o objetivo era fazer as fotografias, entregar e acabou, a missão estava cumprida. Mas, aos poucos, foram tantas informações que era impossível fotografar certas situações, certas histórias que percebi que só conseguiria registrar através da escrita. Então comecei a escrever, reuni minhas anotações e comecei a organizar os pensamentos. Aquilo ficou pausado por um tempo, até que ano passado concluí o livro e percebi que eu já não era aquela pessoa. Era um outro, que estava mais feliz do que aquele eu anterior”. 

Brasileiro reconstituiu viagem de Charles Darwin após abandonar carreira como economista
Foto: Divulgação/Marcio Pimenta

‘A Patagônia é uma terra muito dura e honesta’ 

A bordo de um Jeep e equipado com o necessário para sobreviver no território selvagem da Patagônia, Pimenta partiu de Porto Alegre (RS) até a cidade argentina de Ushuaia, no arquipélago da Terra do Fogo. A viagem, que teve início em fevereiro de 2023, durou 40 dias. 

Apesar de ter decidido realizar a expedição sozinho, Pimenta logo se deparou com o desafio imposto pelo isolamento na Patagônia: “Eu não queria ruídos. Eu queria ter meu tempo e não ter sombras nas fotografias, nos textos. E isso leva ao desafio que é estar lá. A Patagônia é uma terra muito dura, honesta, e que exige presença”. 

Não é o lugar para estar divagando, exige você estar 100% com você mesmo. Lá não existem distrações como em uma viagem urbana, por exemplo, que é cheia de atrativos. Lá você percorre centenas de quilômetros sem um posto de gasolina. Em 500 quilômetros, você pode não ver uma única pessoa. Então você começa a se ouvir, a se reconhecer. 

Brasileiro reconstituiu viagem de Charles Darwin após abandonar carreira como economista
Foto: Divulgação/Marcio Pimenta

A proposta inicial da expedição, segundo Pimenta, era simples: fotografar locais por onde Darwin passou em sua jornada pela Patagônia. Mas um ‘conselho’ do britânico logo o levou a reconhecer o verdadeiro ‘tesouro’ da viagem. 

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“Segui o conselho do Darwin, que é estar aberto e ter dúvidas, e foi a melhor coisa que aconteceu. Anos depois aconteceu o livro, eu jamais esperava escrever um livro com relato que não é sobre o Darwin, especificamente, mas em que ele passa a ser meu guia de viagem. Fui conduzido por ele e aprendi sobre a questão do tempo, da presença e como tudo muda o tempo todo”, diz. 

Brasileiro reconstituiu viagem de Charles Darwin após abandonar carreira como economista
Foto: Divulgação/Marcio Pimenta

O processo de produção do livro de Pimenta também coincidiu com um doloroso momento pessoal: a perda, em sequência, de seus pais: “Me recordo que eles gostavam muito mais do que eu escrevia do que eu fotografava, então começar a escrever foi uma forma de homenagem para eles, além da minha esposa”. 

Três anos após a expedição, Pimenta olha, com carinho, para o legado deixado pela reconstituição dos passos do famoso naturalista britânico: “Primeiro é se permitir ter dúvidas. Segundo é permanecer, é como um namoro. Namorar a vida, dar tempo às coisas. Nem tudo acontece no tempo que a gente quer. Então é permanecer, conhecer e explorar. E compartilhar. Enquanto estava descobrindo, fiz a digestão de todo o processo de conhecimento que estava acontecendo, ele ficou na gaveta e, no momento certo, ganhou a vida. Tudo sem pressa, sem a busca do holofote”. 

O livro Encontrando Darwin - Uma expedição pelos confins do mundo, escrito por Pimenta e publicado pela editora Solisluna, já está disponível nas principais livrarias.

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Fonte: Portal Terra
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