No dia 14 de julho, quarenta e sete organizações da sociedade civil latino-americana apresentaram um roteiro conjunto com um objetivo direto: impedir que os bosques da região continuem sendo destruídos até 2030. O documento chega em um momento simbólico, meses depois de a própria União Europeia adiar, pela segunda vez, a entrada em vigor de sua principal ferramenta legal contra o "desmatamento importado".
Trata-se de o Regulamento de Desmatamento europeu, adotado em 2023 e agora previsto para dezembro de 2026. Existe, porém, um detalhe pouco lembrado nesse debate: a própria Europa praticamente eliminou suas florestas originais séculos atrás, e hoje resta apenas uma fração residual desse patrimônio natural.
A América Latina concentra entre 22% e 23% de todas as florestas do planeta, distribuídas sobre 47% de sua superfície territorial, segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. Trata-se de uma proporção extraordinária, sem equivalente em nenhuma outra região do mundo. A Amazônia, símbolo dessa riqueza, ainda preservava 87,5% de sua cobertura original entre 1985 e 2023, segundo levantamento do projeto de monitoramento territorial MapBiomas.
A situação europeia seguiu um caminho radicalmente diferente ao longo dos séculos. Um estudo científico baseado na análise de pólen fóssil, publicado na revista Scientific Reports, do grupo editorial Nature, mostrou que a região central e norte da Europa teve sua cobertura florestal reduzida de aproximadamente 72% para 34% entre a época anterior à Idade Média e os tempos modernos. Essa transformação começou milênios atrás, com a expansão da agricultura, e se intensificou ao longo dos séculos seguintes, moldando paisagens que hoje parecem naturais, mas resultam de intervenção humana contínua e prolongada.
Em 20 de março de 2021, o Eurostat, órgão estatístico oficial da Comissão Europeia, divulgou que a União Europeia mantinha cerca de 39% de seu território cobertos por algum tipo de floresta, com dados referentes a 2020. O número parece razoável à primeira vista, porém esconde um dado revelador: relatório do Centro Comum de Investigação, órgão científico da própria Comissão Europeia, mostrou que florestas primárias representam menos de 3% de toda a área florestal do bloco, concentradas em apenas quatro países segundo análise do Serviço de Estudos do Parlamento Europeu: Suécia, Bulgária, Finlândia e Romênia.
Início do Regulamento de Desmatamento vem sendo adiado
Essa diferença histórica ganhou um capítulo particularmente contraditório. Em outubro de 2024, a Comissão Europeia propôs adiar por doze meses a entrada em vigor do Regulamento de Desmatamento, apenas dias depois de garantir publicamente que o prazo original seria mantido, segundo análise do Instituto Alemão de Desenvolvimento e Sustentabilidade, sediado em Bonn. O Parlamento Europeu e o Conselho da União Europeia aprovaram formalmente esse primeiro adiamento em dezembro de 2024, fixando a nova entrada para 30 de dezembro de 2025 no caso de empresas grandes e médias, e para julho-agosto de 2026 no caso de pequenos negócios.
Em maio de 2025, a Comissão Europeia classificou todos os Estados-membros como países de "risco muito baixo", a mesma categoria com exigências reduzidas de rastreabilidade que o bloco recusa a Brasil e Indonésia, classificados como "risco padrão". Meses depois, durante a conferência do clima realizada em Belém, entre 10 e 21 de novembro de 2025, Boris Patentreger, diretor para a França na organização ambiental Mighty Earth, relatou que delegados europeus passaram meia hora em uma conferência de imprensa às portas da Amazônia sem mencionar florestas nenhuma vez, episódio que classificou como sintoma de um problema maior de coerência.
Poucas semanas depois desse episódio, o Parlamento Europeu e o Conselho da União Europeia fecharam acordo sobre um segundo adiamento da lei, postergando a aplicação definitiva para 30 de dezembro de 2026 no caso de empresas grandes e médias, e para 30 de junho de 2027 no caso de micro e pequenas empresas.
UE tenta frear as importações de produtos de países em desenvolvimento
É justo reconhecer que o Regulamento europeu nasceu com propósito genuíno: reduzir a contribuição do consumo europeu para o desmatamento tropical em países como Brasil, Indonésia e Malásia, exigindo comprovação documental de que produtos como carne, soja, café e óleo de palma não tenham origem em áreas desmatadas. O problema apontado por organizações ambientais e por institutos de pesquisa não está na intenção original da lei, mas na sequência de adiamentos e pedidos de flexibilização ocorridos nos últimos dois anos, o que fragiliza o discurso de liderança climática que o bloco busca "vender" externamente e que, inclusive, utiliza como argumento para frear as importações de produtos agropecuários de países em desenvolvimento.
O roteiro apresentado pelas organizações latino-americanas propõe um caminho diferente do confronto retórico. O texto, disponível no site oficial da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, pede que, até 2030, os países garantam a titulação legal de pelo menos 80% dos territórios pertencentes a povos indígenas, comunidades afrodescendentes e populações tradicionais que vivem em contato direto com as florestas.
O documento exige, ainda, proteção total para povos indígenas isolados, dado que a região amazônica concentra a maior quantidade desses povos em todo o planeta, uma prioridade também reconhecida pelo Mecanismo Amazônico de Povos Indígenas, instância criada pela Organização do Tratado de Cooperação Amazônica, e pela presidência brasileira da conferência do clima.
US$ 216 bilhões/ano para a conservação florestal e a restauração de áreas degradadas
Nas cadeias produtivas, o roteiro pede que setores como madeira, soja, carne, café, óleo de palma, mineração e petróleo adotem, até o final da década, o princípio de desmatamento zero em toda a cadeia de valor, respaldado por marcos legais vinculantes. O ponto mais ambicioso está no campo financeiro: o documento oficial calcula que sejam necessários 216 bilhões de dólares adicionais por ano para viabilizar a conservação florestal e a restauração de áreas degradadas.
O momento escolhido para a apresentação do documento reflete uma estratégia clara. As organizações esperam que essas propostas influenciem diretamente o roteiro contra o desmatamento que a presidência brasileira da COP30 mantém como uma das prioridades centrais de sua atuação neste ano. A mensagem central permanece simples: a América Latina, guardiã da maior parte das florestas tropicais do mundo, possui autoridade histórica para liderar esse debate, condição que a Europa, dada sua própria trajetória documentada de destruição florestal secular e sua sequência recente de adiamentos regulatórios, enfrenta dificuldade crescente para reivindicar com a mesma credibilidade.
Armando Alvares Garcia Júnior não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.