A árvore que sangra: os segredos da árvore-do-sangue-de-dragão

Árvore-do-sangue-de-dragão: conheça a Dracaena cinnabari, sua seiva vermelha, usos medicinais, simbolismo místico e ameaça ambiental

27 jan 2026 - 17h31

Entre penhascos áridos e formações rochosas esculpidas pelo vento, uma árvore de copa densa em forma de guarda-chuva chama a atenção na paisagem do arquipélago de Socotra, no Iêmen. Trata-se da árvore-do-sangue-de-dragão (Dracaena cinnabari), espécie que há séculos intriga viajantes, botânicos e habitantes locais. Sua fama não se deve apenas à aparência singular, mas sobretudo à seiva vermelho-escura, conhecida como "sangue de dragão".

Esse líquido espesso, que lembra sangue recém-derramado, alimentou lendas, rituais e práticas medicinais em diferentes culturas. Ao mesmo tempo, a árvore-do-sangue-de-dragão tornou-se um símbolo de um ecossistema isolado e frágil. Em 2025, pesquisadores alertam para o risco de declínio da espécie, pressionada por mudanças climáticas e pela transformação de seu habitat natural.

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O que é a árvore-do-sangue-de-dragão e por que sua seiva é vermelha?

A árvore-do-sangue-de-dragão é uma espécie arbórea perene da família Asparagaceae, endêmica principalmente da ilha de Socotra, no noroeste do oceano Índico. O traço mais conhecido é a resina vermelho-escura, produzida quando o tronco ou os galhos são feridos. Estudos apontam que essa coloração se deve à presença de compostos fenólicos e pigmentos específicos, que funcionam como proteção química contra fungos, insetos e outros agentes externos.

Ao secar, o "sangue de dragão" forma uma resina dura, facilmente moída em pó ou dissolvida em líquidos. Historicamente, esse material foi comercializado em rotas que ligavam o Oriente Médio, a África e a Europa. Na Idade Média, registros indicam o uso da substância em ateliês de pintura, laboratórios de alquimia e práticas médicas tradicionais, o que fortaleceu a aura de mistério em torno da árvore.

Com copa em forma de guarda-chuva e seiva vermelha, a árvore-do-sangue-de-dragão transforma a paisagem de Socotra em um cenário quase mítico – Divulgação / Câmara Municipal de Almada
Com copa em forma de guarda-chuva e seiva vermelha, a árvore-do-sangue-de-dragão transforma a paisagem de Socotra em um cenário quase mítico – Divulgação / Câmara Municipal de Almada
Foto: Giro 10

Árvore-do-sangue-de-dragão: características físicas e forma em guarda-chuva

A aparência da Dracaena cinnabari é um dos aspectos mais citados em levantamentos botânicos. O tronco é espesso, de cor acinzentada, com ranhuras marcadas pelo tempo. Os galhos se dividem de maneira dicotômica, formando uma copa densa, arredondada e achatada, que lembra um grande guarda-chuva invertido. Esse desenho não é apenas estético: ele ajuda a planta a captar e reter umidade em um ambiente de chuvas escassas.

As folhas são estreitas, longas e rígidas, agrupadas nas extremidades dos ramos, criando tufos verdes que, vistos de longe, compõem uma espécie de cúpula. Em períodos de floração, a árvore produz pequenas flores esbranquiçadas ou esverdeadas, que mais tarde dão origem a frutinhos arredondados, de coloração alaranjada ou avermelhada. Especialistas destacam que a copa em guarda-chuva também protege o solo sob a planta, reduzindo a exposição ao sol e ajudando a manter um pouco de umidade ao redor das raízes.

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Onde existe a árvore-do-sangue-de-dragão e como é o habitat em Socotra?

A maior parte das populações naturais da espécie é encontrada na ilha principal do arquipélago, pertencente ao Iêmen, com registros também em algumas ilhas menores da mesma região. O cenário é marcado por montanhas calcárias, planaltos rochosos, encostas íngremes e solos rasos, onde poucas plantas conseguem se estabelecer.

O clima é quente, com chuvas irregulares e ventos fortes. Nesse ambiente árido, a árvore-do-sangue-de-dragão se destaca pelo porte e pela capacidade de sobreviver com pouca água. Pesquisas de campo mostram que a espécie se distribui preferencialmente em altitudes médias e altas, onde a neblina ocasional e a condensação de umidade nas folhas fornecem um complemento importante à escassa precipitação.

Estudos recentes indicam que a regeneração natural está diminuindo em algumas áreas. Entre os fatores citados aparecem o sobrepastoreio por cabras, a expansão de áreas habitadas e o aumento da temperatura média. Essa combinação leva cientistas e órgãos de conservação a classificar a espécie como vulnerável, reforçando a necessidade de monitoramento e proteção de seu habitat.

Símbolo de resistência no deserto, a árvore de Socotra mistura lenda, história e alerta ambiental – Wikipedia Commons/Autor Desconhecido
Foto: Giro 10

Quais são os usos tradicionais do "sangue de dragão"?

Ao longo dos séculos, o "sangue de dragão" foi aproveitado de maneiras diversas. Em registros históricos, aparecem usos medicinais, cosméticos, artesanais e ritualísticos. Em contextos de medicina tradicional, a resina foi aplicada como:

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  • Agente cicatrizante em pequenas feridas e cortes;
  • Componente de preparações para aliviar dores locais;
  • Ingrediente em tônicos e misturas de uso restrito a curandeiros.

No campo artístico, a resina serviu como corante vermelho, utilizada para tingir tecidos, produzir vernizes e realçar o tom de madeiras e objetos de decoração. Em práticas religiosas e espirituais, o material foi queimado como incenso, liberando fumaça aromática em rituais de purificação, proteção ou meditação. Especialistas ressaltam que muitos desses usos tradicionais coexistem hoje com abordagens mais cautelosas, devido à preocupação com a conservação da espécie.

Simbolismo místico e presença cultural da árvore-do-sangue-de-dragão

A aparência incomum e a seiva vermelha conferiram à árvore-do-sangue-de-dragão um papel marcante em mitos e narrativas locais. Em algumas versões de lendas regionais, o "sangue de dragão" estaria ligado a criaturas fantásticas derrotadas em batalhas antigas, explicando o vermelho intenso que escorre do tronco. Em outras histórias, a árvore é associada a proteção, vitalidade e força, tornando-se símbolo de resistência em um ambiente hostil.

Esse simbolismo se espalhou para além de Socotra por meio de rotas comerciais e relatos de viajantes. Na iconografia de certas tradições esotéricas, o "sangue de dragão" aparece ligado a rituais de poder e transformação, enquanto, em contextos mais contemporâneos, a espécie é frequentemente citada como exemplo de biodiversidade singular e patrimônio natural que ultrapassa fronteiras nacionais.

Curiosidades sobre a árvore-do-sangue-de-dragão

Alguns fatos levantados por botânicos e historiadores ajudam a ilustrar a singularidade dessa espécie:

  1. A árvore pode viver várias centenas de anos, formando verdadeiros "bosques ancestrais" em áreas preservadas de Socotra.
  2. A forma em guarda-chuva não só capta a umidade do ar, como também reduz a exposição direta do solo, ajudando a evitar erosão.
  3. A resina de "sangue de dragão" foi mencionada em textos antigos como produto valioso, ao lado de incensos e especiarias.
  4. A espécie é considerada um ícone da flora socotrina e aparece com frequência em materiais turísticos e científicos sobre o arquipélago.

Diante da combinação de características físicas únicas, usos tradicionais e forte presença simbólica, a árvore-do-sangue-de-dragão ocupa um lugar particular entre as espécies vegetais do planeta. Para pesquisadores, comunidades locais e instituições de conservação, a preservação de seus bosques em Socotra representa não apenas a proteção de uma árvore rara, mas também a manutenção de um capítulo importante da história natural e cultural do Iêmen e de toda a região do oceano Índico.

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