Terras raras: por que o Brasil está no centro da disputa global por minerais críticos

Brasil ganha espaço na disputa internacional por minerais estratégicos, enquanto Senado aprova política para o setor e BNDES financia centro de processamento em Minas Gerais

9 set 2026 - 10h58
Resumo
Dono da segunda maior reserva mundial de minerais críticos e terras raras, essenciais para tecnologias como semicondutores e defesa, o Brasil virou alvo estratégico da disputa entre EUA e China. Para reduzir a dependência chinesa, Washington investe fortemente no país. Paralelamente, o governo brasileiro busca industrializar o setor e agregar valor localmente com incentivos bilionários e apoio do BNDES, enfrentando o desafio de evitar a mera exportação primária e conter graves impactos socioambientais.

O BNDES acaba de aprovar um investimento de R$ 77,5 milhões para um centro de terras raras em Poços de Caldas (MG). A notícia veio poucos dias após o Senado aprovar a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. À primeira vista, podem parecer decisões restritas ao setor de mineração. Mas elas fazem parte de uma disputa muito maior.

As chamadas terras raras e os minerais críticos são essenciais em inúmeras inovações tecnológicas. De chips avançados (necessários para o desenvolvimento de IAs) a carros elétricos, turbinas eólicas e equipamentos militares. Por isso, controlar o acesso a esses recursos se tornou uma questão de grande valor geopolítico no cenário internacional contemporâneo, sobretudo em meio à disputa tecnológica entre Estados Unidos e China.

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O Brasil possui as segundas maiores reservas conhecidas de minerais críticos do mundo. Porém, ainda explora pouco esse potencial. Isso torna o país um alvo do interesse estadunidense para garantir acesso privilegiado a esses recursos. A disputa pelas terras raras envolve quem terá acesso às tecnologias do futuro, quem controlará partes estratégicas das cadeias industriais e quem ficará com os benefícios e os impactos dessa nova corrida mineral.

A disputa entre Estados Unidos e China

O mercado de minerais críticos hoje é extremamente concentrado na China, que é responsável por cerca de 90% do processamento desses minerais e possui as maiores reservas conhecidas. Há um esforço do governo americano em reduzir sua dependência econômica em relação aos chineses. Portanto, assegurar acesso a fontes alternativas de minerais críticos tornou-se um interesse vital para os Estados Unidos. Nesse cenário, a possibilidade de explorar as grandes reservas do Brasil têm despontado como uma alternativa valiosa nesse contexto geopolítico.

Não é à toa que a Estratégia Nacional de Defesa dos EUA afirma que as Américas são parte da zona de influência do país, que buscará garantir a manutenção de sua preponderância na região. Esse compromisso é apresentado como o Corolário Trump da Doutrina Monroe, que ficou conhecida como "doutrina Donroe". Além de manter a primazia da influência americana na região, os EUA querem garantir acesso privilegiado aos recursos estratégicos da região, como o petróleo venezuelano e os minerais críticos brasileiros.

As relações bilaterais entre Brasil e EUA têm sido marcadas por tensão e pela imposição de tarifas arbitrárias e desproporcionais às exportações brasileiras, apesar do suposto bom relacionamento entre Trump e Lula. Elas têm tido como um de seus principais objetivos forçar os países a buscar acordos de renegociação com os Estados Unidos, que têm incluído exigências sobre minerais críticos, como a facilitação de investimentos dos EUA em toda a cadeia produtiva do recurso. Recentemente, o Brasil foi alvo de uma nova leva de tarifas e da interrupção das negociações para a remoção das tarifas aplicadas sobre o país.

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O interesse americano no Brasil

No último ano, houve um aumento significativo nas solicitações para obtenção de licenças para exploração de reservas de minerais críticos. Elas são oriundas sobretudo de empresas estrangeiras, com destaque para empresas americanas, canadenses e australianas.

Recentemente, a única empresa de exploração de minerais críticos no país, a Serra Verde, foi vendida para uma empresa americana, na qual o governo dos EUA possui participação. Em abril deste ano, a USA Rare Earth anunciou a aquisição por US$ 2,8 bilhões e, três meses depois, o Departamento de Comércio dos EUA anunciou que tem planos de investir US$ 1,6 bilhão na USA Rare Earth, em troca de 16 milhões de ações da empresa. A Serra Verde é hoje a única empresa fora da Ásia capaz de prover os quatro principais minerais para ímãs de alto desempenho: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.

Antes da venda, a Serra Verde operou em parceria com a empresa chinesa Shenghe Resources, com a qual possuía um contrato de dez anos. Ela chegou a exportar, em um ano, 85% de sua produção para a cadeia de produção chinesa. O contrato com a empresa chinesa foi encerrado em 2025, sete anos antes do previsto. O anúncio do encerramento foi seguido do aumento do empréstimo feito à Serra Verde pela americana International Development Finance Corporation.

Em agosto de 2026, o Departamento da Guerra dos EUA anunciou um pacote de US$ 750 milhões em investimentos para a aquisição de minerais críticos oriundos do projeto Pela Ema, em Serra Verde. Esse recurso seria parte de um projeto de US$ 1,55 bilhão em investimentos. No acordo, o governo americano também se comprometeu a comprar pelo menos US$ 300 milhões em produtos de terras raras nos próximos cinco anos.

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Os minerais críticos são muito importantes para a indústria de defesa americana, inclusive para a produção de aviões-caça e mísseis, que estão com baixo estoque por conta dos conflitos na Ucrânia e no Irã. O Departamento da Guerra e outras autarquias americanas também têm investido em projetos relacionados a minerais críticos no continente africano, porém o Brasil tem recebido os maiores montantes de investimento.

O governo brasileiro se manifestou com preocupação sobre o acordo estabelecido e estuda acionar o Poder Judiciário para vetá-lo, uma vez que o acordo prevê a exportação dos recursos sem exigir que pelo menos parte do processo industrial seja realizado no país. Ainda assim, poucos dias depois do anúncio, houve a retomada das negociações comerciais entre Estados Unidos e Brasil sobre as tarifas aplicadas ao país.

O desafio de industrializar os minerais

A exploração das reservas brasileiras de minerais críticos traz desafios e oportunidades para o país. Por serem recursos centrais para a indústria de alta tecnologia, a exploração e a produção desses recursos poderiam contribuir para a inserção do Brasil nas cadeias de produção de tecnologia, para o crescimento econômico e o desenvolvimento e fortalecimento do setor industrial nacional.

Contudo, os efeitos econômicos da exploração desses recursos podem ser limitados caso o país se limite apenas à exploração e à exportação dos recursos antes dos processos de agregação de valor industrial. Nesse cenário, a maior parte da riqueza potencial desses recursos pode ser transferida para outros países, mantendo o Brasil como fornecedor de matérias-primas na economia global.

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É justamente esse um dos pontos centrais da nova Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Aprovado pelo Senado, o projeto prevê até R$ 7 bilhões em incentivos governamentais para projetos de processamento e transformação desses minerais e foi encaminhado para sanção presidencial. Entre as medidas previstas estão um fundo com aporte de R$ 2 bilhões da União e benefícios fiscais de até R$ 5 bilhões.

A aprovação ocorre justamente quando empresas estrangeiras correm para assegurar licenças de exploração e investimentos no setor. A grande preocupação é criar mecanismos que estimulem as empresas exploradoras a trazer pelo menos parte do processamento desses minérios para ser realizado no país antes da exportação, aumentando o valor agregado do produto exportado. Essa medida, no entanto, desagrada às empresas interessadas principalmente na exploração desses recursos.

O financiamento de R$ 77,5 milhões aprovado pelo BNDES para o centro de terras raras em Poços de Caldas é um exemplo da tentativa de avançar no processamento nacional. O projeto da Viridis prevê uma unidade-piloto para produzir carbonato misto de terras raras e testar técnicas de processamento que poderão ser utilizadas posteriormente em uma planta industrial de maior escala.

O custo ambiental

Há também desafios envolvendo questões ambientais. As reservas brasileiras de minerais críticos se encontram principalmente no Centro-Oeste e no Norte, perto de terras indígenas, da Floresta Amazônica e do Cerrado. O processo de extração e refino dos minerais críticos é, geralmente, bastante poluente, gerando detritos tóxicos ou até mesmo radioativos, além do potencial de contaminação de recursos hídricos e da possibilidade de aumento do desmatamento.

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A discussão já provoca divergências. Enquanto empresas do setor elogiam a nova política e seus incentivos, municípios que sediam atividades de mineração têm apontado preocupações e defendido maior participação nos benefícios gerados pela exploração. Organizações indígenas também alertam para os impactos sobre seus territórios e para a necessidade de consulta prévia às comunidades afetadas.

O tema dos minerais críticos é central para o futuro da inserção política e econômica internacional do país. As escolhas feitas agora sobre como esses recursos serão explorados, processados e comercializados terão impactos duradouros sobre o meio ambiente, nas perspectivas de crescimento econômico e no desenvolvimento social do país.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Fernanda Brandão não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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