Radares de velocidade média vão melhorar o trânsito ou criar novos problemas?

Projeto-piloto foi autorizado pela ANTT em rodovias federais concedidas, mas teve a implementação suspensa poucos dias depois para ajustes na sinalização e na comunicação com os motoristas

20 out 2026 - 10h15
Resumo
Embora tenham tido testes suspensos no Brasil, os radares de velocidade média são vistos como eficazes para reduzir acidentes, pois medem o tempo de deslocamento entre dois pontos e evitam que motoristas desacelerem apenas perto do radar. Paradas ou trânsito não prejudicam o condutor, mas a implementação definitiva ainda depende de ajustes nas leis de trânsito, homologação pelo Inmetro, infraestrutura técnica sincronizada e normas rígidas da LGPD para proteção e descarte de dados pessoais.

Os radares de velocidade média chegaram a dar um passo para sair dos testes e avançar nas rodovias brasileiras, mas o projeto-piloto da tecnologia acabou suspenso poucos dias depois de ser autorizado.

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A experiência internacional também aparece entre os argumentos favoráveis ao sistema.

Em Barcelona, na Espanha, os radares de trecho são utilizados desde 2016. Segundo Krzyzanovski, dados da prefeitura apontam redução de acidentes entre 11% e 44%, dependendo da via.

O executivo destaca ainda que a cidade adotou uma fase informativa antes de começar a penalizar os motoristas. Nesse período, os condutores recebiam comunicados sobre o excesso de velocidade, sem aplicação de multa. A intenção era priorizar a mudança de comportamento.

Congestionamentos e paradas podem prejudicar o motorista?

Uma dúvida sobre o sistema é como ele funciona quando o condutor enfrenta congestionamento, para em um posto de combustível ou precisa reduzir a velocidade por alguma razão.

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Segundo Krzyzanovski, essas situações não prejudicam o motorista no cálculo da média. Como o sistema considera o tempo gasto para percorrer o trecho, uma parada ou uma redução de velocidade aumenta a duração da viagem e diminui a velocidade média registrada.

"Parar em um posto, pegar congestionamento ou reduzir por qualquer motivo só aumenta o tempo de percurso e diminui a média. Isso nunca prejudica o motorista", afirma.

As trocas de faixa também não interferem no resultado, desde que os equipamentos façam a leitura dos veículos em todas as faixas de circulação. A escolha dos trechos monitorados, por outro lado, exige cuidado. Acessos e saídas intermediárias podem dificultar a identificação do percurso realizado. Também é necessário garantir a precisão da distância entre os equipamentos e a leitura das placas para confirmar que o veículo registrado na entrada é o mesmo identificado na saída.

Privacidade também entra na discussão

Para calcular a velocidade média, o sistema registra a passagem dos veículos em dois pontos e relaciona informações como placa, horário e local. Esses dados exigem cuidados previstos na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

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Krzyzanovski considera a preocupação legítima e defende que a regulamentação estabeleça limites claros para o uso das informações.

"Usar os dados só para essa finalidade, descartar rapidamente os registros de quem não cometeu infração e definir com precisão quem é responsável pelos dados", afirma ao apontar medidas que deveriam fazer parte das regras.

O poder público pode tratar dados pessoais para exercer suas competências legais, incluindo a fiscalização de trânsito, mas isso não elimina a necessidade de estabelecer responsabilidades, limitar o uso das informações e definir prazos para o descarte dos registros de veículos que não cometeram infrações.

O que falta para os radares começarem a multar?

A implementação da fiscalização por velocidade média depende de três frentes. A primeira é a adequação do CTB e das normas do Contran para reconhecer a medição realizada ao longo de um trecho.

A segunda envolve o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), que precisa estabelecer uma metodologia de validação compatível com esse tipo de medição. Diferentemente dos radares convencionais, o sistema depende da precisão de dois pontos, da distância entre eles e da sincronização dos relógios dos equipamentos.

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A terceira etapa é preparar os órgãos de trânsito para receber os registros, processar as informações e emitir notificações de infração.

A infraestrutura necessária inclui equipamentos de leitura de placas em todas as faixas, conexão confiável com a internet, sincronização precisa dos horários, medição correta das distâncias e sinalização clara.

Na Rodovia dos Tamoios, a Pumatronix realizou uma prova de conceito com equipamentos instalados nos quilômetros 67+200 e 76+500. Segundo Krzyzanovski, os principais desafios técnicos foram garantir o ponto exato de captura dos veículos e manter os relógios sincronizados. Essas condições são essenciais para evitar imprecisões no cálculo da velocidade média.

Afinal, os radares vão ajudar ou prejudicar o trânsito?

A fiscalização por velocidade média pode tornar o controle de velocidade mais eficiente ao reduzir a possibilidade de o motorista respeitar o limite apenas perto dos radares convencionais. Ao mesmo tempo, a suspensão do projeto-piloto mostra que a tecnologia precisa ser acompanhada de regras claras, sinalização adequada e garantias sobre o tratamento dos dados.

O desafio é fazer com que o sistema seja compreendido como uma medida de segurança viária, e não apenas como mais uma forma de fiscalização. Para isso, será importante acompanhar os resultados e avaliar indicadores como a redução de acidentes, de excessos de velocidade e de comportamentos de risco.

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Na avaliação de Krzyzanovski, o sucesso não deve ser medido pela quantidade de multas emitidas. "O sucesso do sistema não se mede pelo número de multas, mas pela queda delas ao longo do tempo, porque isso significa que as pessoas passaram a respeitar o limite."

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