Na década de 1970, poucos países tiveram uma oportunidade estratégica tão clara de transição energética quanto o Brasil teve com o Proálcool. Enquanto boa parte do mundo ocidental patinava na busca por alternativas viáveis aos combustíveis fósseis, nós já consolidávamos uma solução madura, testada em escala continental e integrada à nossa matriz energética.
O Proálcool criou uma cadeia produtiva robusta. Nossas universidades e centros de pesquisa formaram especialistas e desenvolveram ciência de ponta. A indústria automobilística brasileira criou o motor flex — uma inovação genuinamente nacional, que transformou o ciclo fechado do carbono da cana-de-açúcar em benefício ambiental tangível.
Com o advento global dos veículos elétricos, o passo seguinte parecia óbvio: o carro híbrido movido a eletricidade e etanol. Ele resolveria o maior gargalo dos elétricos puros — a necessidade de infraestrutura de recarga em um país de dimensões continentais — aproveitando a maior rede de distribuição de biocombustíveis do mundo, já instalada em cada esquina do território nacional.
O Brasil tinha a faca, o queijo e o canavial. Não fizemos o sanduíche
Hoje, montadoras chinesas chegam ao mercado brasileiro exatamente com essa solução. E há uma ironia ainda mais profunda: parte expressiva do desenvolvimento desses veículos por lá contou com engenheiros brasileiros — formados aqui com recursos públicos nossos - que acabaram migrando para ecossistemas estrangeiros que compreendem melhor o valor do planejamento de longo prazo.
A pergunta relevante não é por que a China conseguiu. Eles traçaram planos de Estado por décadas, subsidiaram a pesquisa e o desenvolvimento, compraram conhecimento onde ele existia e executaram com disciplina.
A pergunta incômoda é por que o Brasil não conseguiu. E a resposta não está na falta de engenheiros, nem na qualidade da nossa Ciência. Ela está na nossa dificuldade histórica de transformar vantagens científicas em políticas de Estado duradouras.
O automóvel é apenas o espelho. Quatro anos não constroem um país — constroem um mandato
Democracias vivem ciclos eleitorais curtos. Isso é uma virtude institucional, não um defeito. O problema surge quando o horizonte de planejamento de uma nação inteira se reduz ao horizonte dos mandatos políticos.
Políticas industriais de vanguarda, infraestrutura científica complexa e desenvolvimento tecnológico disruptivo exigem décadas de maturação contínua. Presidentes ficam quatro anos. Laboratórios precisam sobreviver quarenta. Universidades formam doutores cujas contribuições mais relevantes frequentemente só aparecem vinte anos após a titulação.
Quando um país confunde rotineiramente plano de governo com política de Estado, condena-se a reinventar a roda a cada troca de guarda na capital. O preço dessa descontinuidade raramente se manifesta por rupturas dramáticas — ele se cobra de forma silenciosa: perde-se uma liderança tecnológica aqui, desestrutura-se uma cadeia produtiva acolá, assiste-se à debandada de talentos logo adiante.
Um segundo problema, igualmente estrutural: a fraca coordenação entre a atividade científica e o setor produtivo. Atingimos um nível razoável em ciência, mas isso não se traduz em impacto econômico porque o Estado nunca exerceu com consistência seu papel de indutor — incentivando, cobrando e, quando necessário, pressionando o setor empresarial a inovar com base no que nossas instituições já produzem.
Temos bons exemplos: o Proálcool, a Embraer. Mas são ilhas num arquipélago de oportunidades desperdiçadas. A Coreia do Sul oferece um contraponto instrutivo: lá, o acesso a estímulos públicos era condicionado a desempenho em exportação e inovação. Empresas que captavam recursos públicos eram cobradas por resultados.
Aqui, a lógica frequentemente se inverte — subsídios são capturados nas crises, e os prejuízos socializados, sem contrapartida de inovação. Há, porém, um fator mais profundo por trás dessa descontinuidade: interesses organizados de curto prazo — que privatizam lucros e socializam prejuízos via apropriação de subsídios públicos nas crises — encontraram formas eficazes de influenciar o processo político, tornando o horizonte de quatro anos não apenas uma limitação democrática, mas uma conveniência estrutural.
Eleitores frequentemente escolhem representantes por identidade de valores, não por planos de governo. Provocar candidatos a explicitar metas para 2050 é, portanto, também um exercício de formação do espírito crítico republicano. Somente décadas mais tarde, ao olharmos para o lado, percebemos que nos tornamos importadores da riqueza que nós mesmos ajudamos a descobrir.
O laboratório que nasceu certo — e a pergunta que persiste
Em 2009, durante o segundo mandato do presidente Lula, participei da criação do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), do qual fui o diretor fundador. A missão era cirúrgica: dar robustez científica e tecnológica à liderança global que o Brasil detinha no setor de biocombustíveis.
O CTBE é, antes de tudo, um exemplo do que o Brasil é capaz quando decide agir. O governo identificou uma oportunidade estratégica, mobilizou competências e deu o tiro de partida. A instituição nasceu, cresceu e permanece ativa até hoje — prova de que políticas de Estado podem sobreviver à alternância de poder quando há base científica sólida e comprometimento institucional genuíno.
Anos depois, o CTBE foi reestruturado e tornou-se o Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR), com missão científica mais ampla. Instituições precisam se adaptar, e essa evolução reflete tanto o amadurecimento da pesquisa quanto as transformações do campo energético global.
A questão que persiste, contudo, é de estratégia nacional: por que, justamente quando o planeta acelerava sua transição energética, o Brasil deixou de tratar o etanol como prioridade estratégica central? O nome mudou. E com ele, parte do foco.
O CTBE e seu sucessor demonstram que o Brasil sabe criar e sustentar instituições científicas de excelência. O desafio é garantir que a luta, a adaptação e a superação de erros — inevitáveis em qualquer trajetória institucional — ocorram dentro de uma visão estratégica de longo prazo que não se perca nas transições de governo.
Quatro ministérios, um vice-presidente entusiasmado — e nada aconteceu
A mesma dinâmica operou anos depois, de forma ainda mais nítida. Em parceria com a PUC-Campinas, passei três anos articulando a criação do Laboratório Nacional para o Desenvolvimento Sustentável (LANDS). A tese era simples: os grandes desafios do século XXI — mudanças climáticas, transição energética, segurança alimentar, biodiversidade — não podem ser enfrentados em caixas ministeriais isoladas. Exigem soluções transdisciplinares e transversais.
Percorremos quatro ministérios: Meio Ambiente; Ciência, Tecnologia e Inovação; Relações Exteriores; Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Em todos, fomos recebidos com cortesia. O projeto era elogiado. Sua relevância era reconhecida. Chegamos à Vice-Presidência da República. O projeto foi adorado. Nada aconteceu.
Essa experiência ensinou algo que nenhum manual de gestão pública descreve com clareza: projetos estruturantes no Brasil raramente fracassam porque alguém é contra. Eles fracassam porque atravessam ministérios demais, burocracias sobrepostas e calendários eleitorais concorrentes.
O LANDS não morreu por falta de interlocução. Morreu cercado de elogios. Quando há liderança, o longo prazo acontece: a lição do HIDS Há, contudo, um contraponto que prova que o longo prazo não é uma impossibilidade cultural brasileira.
Na Unicamp, durante a gestão do Reitor Marcelo Knobel, atuei como Diretor Executivo de Planejamento Integrado. Foi nesse contexto que criamos o Hub Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (HIDS) — um projeto concebido com horizonte de 20 anos, articulando pesquisa, inovação e território, com governança estabelecida e parcerias concretas. O HIDS funcionou porque contou com liderança institucional comprometida com o longo prazo e com uma estrutura que protegeu a visão da rotatividade de gestores. Não foi magia. Foi escolha.
O problema brasileiro, portanto, não é incapacidade de planejar. É incapacidade de institucionalizar o planejamento em nível federal, blindando-o da descontinuidade política que fragmenta o esforço nacional.
O Brasil de 2050 começa nas respostas de 2026
Nos próximos meses, o Brasil voltará a discutir programas de governo. Como cidadão e cientista, meu apelo é para que o debate não permaneça refém do horizonte de quatro anos.
Gostaria de convidar cada candidato à Presidência da República a apresentar ao país não apenas um conjunto de metas imediatas, mas uma visão estruturada de Brasil para 2050 — e a responder publicamente a quatro perguntas:
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Quais políticas de desenvolvimento tecnológico e industrial o senhor(a) se compromete a preservar independentemente da alternância de poder?
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Quais instituições científicas e laboratórios estratégicos serão blindados da descontinuidade orçamentária e burocrática?
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De que maneira prática sua gestão pretende fortalecer o nexo entre universidades, centros nacionais de pesquisa, empresas e governo?
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Quais mecanismos institucionais serão criados para que a sociedade civil e a comunidade científica possam monitorar e cobrar metas que ultrapassem o tempo do seu próprio mandato?
O convite é também uma declaração de critério: candidatos que apresentarem compromissos concretos e verificáveis com o Brasil de 2050 terão o apoio da sociedade que pensa no longo prazo. Os demais serão lembrados pelo que deixaram na gaveta.
O Brasil já demonstrou inúmeras vezes que possui criatividade, competência científica e capacidade de inovar. Chegamos primeiro no etanol. Criamos o motor flex. Formamos engenheiros que o mundo disputa. O desafio agora é de outra natureza: aprender a construir instituições que sobrevivam aos seus criadores, aos seus governos e às suas eleições.
O verdadeiro legado de um governante não é aquilo que inaugura durante seu mandato. É aquilo que continua produzindo resultados muito depois de sua saída. A pergunta que este artigo deixa a cada candidato é simples e exigente: qual instituição criada ou fortalecida no seu governo ainda estará produzindo resultados em 2050? O futuro não é um mandato. É uma construção coletiva.
O autor agradece a leitura crítica e as sugestões dos ex-reitores da Unicamp Carlos Henrique de Brito Cruz, Marcelo Knobel e Antonio José de Almeida Meirelles (Tom Zé), do ex-reitor da PUC-Campinas Germano Rigacci Júnior, do ex-Deputado Federal Walter Feldman e do fundador do LNLS e ex-diretor do CNPEM Cylon Gonçalves da Silva, cujas contribuições enriqueceram este texto. Agradece também outros leitores generosos, em especial a leitura crítica da jornalista Rosana Herman. Os eventuais erros e opiniões são de responsabilidade exclusiva do autor.
Marco A. P. Lima recebeu no passado financiamento da agências de fomento CNPq, FINEP, FAPESP, BNDES, como pessoa física e como diretor do CTBE.