Por que o atual surto de Ebola na África está sendo tão contagioso?

18 mai 2026 - 14h26

Variante rara de vírus, precariedade de infraestrutura, conflitos armados e fatores culturais vêm potencializando risco de transmissão do Ebola na República Democrática do Congo (RDC) e Uganda.Equipes médicas têm se deslocado às pressas para a linha de frente do surto de Ebola que atinge a República Democrática do Congo (RDC) e Uganda. A detecção tardia e a rápida disseminação da doença alarmam os especialistas, e a Organização da Saúde (OMS) declarou no domingo (17/05) uma emergência global.

Acredita-se que já tenham morrido 91 pessoas em poucas semanas, segundo a última estimativa das autoridades da RDC. Outros 350 casos são considerados suspeitos, com a maioria dos afetados entre 20 e 39 anos.

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Segundo a OMS, o contágio poderia extravasar as fronteiras do país. Dois casos já foram confirmados em Uganda em pacientes que haviam viajado para a RDC. Já os Centros para Controle e Prevenção de Doenças na África alertaram para um alto risco de contágio nos países vizinhos.

Uma miríade de condições permite à doença se espalhar velozmente, incluindo características do surto atual, precariedade de infraestrutura, conflitos armados e fatores culturais.

Como Ebola se espalha?

O Ebola pode ser contraído por fluidos corporais, como vômito, sangue ou sêmen de alguém já infectado. Uma pessoa se torna contagiosa quando apresenta os primeiros sintomas.

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Outras vias de contaminação são o contato direto com objetos infectados, a exemplo de material hospital ou agulhas, ou com primatas ou morcegos que carregam a doença.

É frequente que trabalhadores de saúde ou cuidadores sejam contaminados quando tratam de pacientes com Ebola. Além disso, cerimônias fúnebres que envolvem contato direto com o corpo de uma pessoa que morreu da doença também são uma fonte de contágio comum.

Segundo Jean Pierre Badombo, ex-prefeito de Mongbwalu, a cidade mineradora que serve de epicentro para o surto, a doença se espalhou a partir de meados de abril. Uma procissão funerária com caixão aberto chegou, na mesma época, de Bunia, a capital da província de Ituri.

"Depois disso, experimentamos uma cascada de mortes," ele disse.

Variante rara dificulta controle

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Três vírus diferentes da mesma família já provocaram grandes surtos de Ebola desde 1976. Naquele ano, houve dois focos simultâneos, no que hoje são o Sudão do Sul e a RDC.

O surto atual, confirmado na última sexta-feira, vem sendo provocado pelo vírus Bundibugyo. A variante rara só fora detectada outras duas vezes até então, e não há vacina ou tratamento específicos para ela.

Segundo especialistas em saúde da região, os esforços de resposta à crise são complicados pela raridade do vírus, apesar da longa experiência local no combate ao Ebola.

Os infectados pelo vírus Bundibugyo inicialmente apresentam sintomas semelhantes aos da malária ou da gripe, o que atrasa a detecção e aumenta o risco de contágio. Além disso, autoridades disseram que comunidades afetadas acreditaram se tratar de uma "doença mística" ou "bruxaria", recorrendo a centros de reza ao invés de profissionais de saúde.

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"É um surto que se espalhará muito rapidamente, ainda mais por ter surgido em uma província densamente povoada", segundo o virologista Jean-Jacques Muyembe, um dos cientistas que descobriu o Ebola na década de 1970.

O vírus Bundibugyo foi detectado pela primeira vez no distrito de Bundibugyo, em Uganda, durante um surto ocorrido entre 2007 e 2008, que infectou 149 pessoas e causou a morte de 37. A segunda vez foi em 2012, num surto em Isiro, na RDC, onde foram registrados 57 casos e 29 mortes.

Crises se amontoam

A região mais afetada, na província de Ituri, é não só remota, como enfrenta uma crise humanitária e de segurança precedente ao surto. A precariedade da rede rodoviária e a distância de mais de mil quilômetros de Kinshasa, a capital da RDC, dificultam o acesso de profissionais de saúde.

Os primeiros casos ocorreram numa área com intenso fluxo de pessoas, que transitam dentro da RDC e pela fronteira com Uganda por causa da mineração, o que também preocupa a OMS.

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"O surto está ocorrendo atualmente em províncias assoladas por crises, incluindo insegurança, presença de grupos armados ou autoridades de facto, com grandes deslocamentos populacionais, sistemas de saúde precários e disponibilidade insuficiente de serviços", afirmou a OMS na segunda-feira.

Desde janeiro de 2025, ocorreram 44 ataques a unidades de saúde na RDC e 742 incidentes que afetaram profissionais humanitários. São vários os grupos armados que atuam na província. Nas últimas semanas, a eclosão de novos conflitos agravou a crise humanitária.

A falta de confiança de parte da população nas equipes de saúde e a violência armada já foram fatores complicadores no controle de outro surto, que matou 2,3 mil pessoas entre 2018 e 2020. Em cinco décadas, desde o primeiro surto em 1976, o Ebola já matou mais de 15 mil pessoas na África.

ht (AFP, Reuters, ots)

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