O governo de El Salvador anunciou o envio de mais de 2 mil militares ao Haiti para resgatar quatro soldados da missão da ONU sequestrados após emboscada de gangues em Porto Príncipe. A ação, coordenada com autoridades haitianas após o fracasso de uma operação inicial, representa o maior contingente estrangeiro individual no país desde o fim da Minustah. A ofensiva ocorre em meio à grave crise de violência que assola o Haiti e que já forçou o adiamento das eleições gerais.
Governo Bukele anunciou mobilização de mais de 2 mil homens após desaparecimento de quatro soldados salvadorenhos que atuam em força da ONU de repressão a gangues.O governo de Nayib Bukele em El Salvador anunciou nesta quarta-feira (28/10) o envio de mais de 2 mil militares ao Haiti. A mobilização é parte dos esforços para resgatar quatro soldados salvadorenhos desaparecidos em 18 de outubro, numa emboscada de gangues armadas.
Os soldados desaparecidos fazem parte da Força de Repressão de Gangues (GSF, na sigla em inglês), uma missão apoiada pela ONU. Eles voltavam de uma visita a um mercado nos arredores de Porto Príncipe, quando o veículo blindado em que viajavam foi atacado com explosivos e incendiado.
Dias depois, Bukele publicou uma mensagem no X, escrita em crioulo haitiano, ameçando eliminar as gangues haitianas, como afirma ter feito em El Salvador, caso os salvadorenhos não fossem libertados.
Uma missão anterior de resgate, formada por cem homens das forças especiais salvadorenhas, não obteve sucesso.
A área onde o veículo blindado foi atacado é controlada por gangues como a Chèn Méchan; a Kraze Barye, liderada por Vitelhomme Innocent; e a 400 Mawozo, liderada por Lanmo Sanjou. Ambos os líderes foram sancionados pela ONU e pelos Estados Unidos.
Ninguém reivindicou responsabilidade pelo ataque, o primeiro dessa magnitude desde o início das operações da GSF, no final de 2025.
A instabilidade no Haiti levou ao adiamento das eleições presidenciais e legislativas, previstas para 13 de dezembro deste ano e remarcadas para julho do ano que vem. O país não realiza eleições gerais há mais de dez anos.
Paradeiro incerto
O governo haitiano afirma que os quatro salvadorenhos desaparecidos foram sequestrados.
No último domingo (25/10), a GSF informou que recebeu restos humanos encontrados por funcionários de uma ONG, mas disse não estar em condições de confirmar "se correspondem ao pessoal desaparecido".
A descoberta desses restos havia sido revelada um dia antes pelo jornal The New York Times. Bukele, contudo, assegurou que eles "não são nossos homens".
"Não é uma invasão do Haiti"
Até a quarta-feira, o contingente militar mobilizado por El Salvador no Haiti já somava cerca de 1.300 soldados, segundo fontes oficiais citadas pela imprensa local.
Em Porto Príncipe, fala-se sobre a possível chegada de outros voos fretados procedentes de El Salvador.
"Esse deslocamento está sendo realizado em coordenação com o governo haitiano. É um país amigo que está ajudando. Não se trata de uma invasão do país", afirmou uma fonte do governo ao Le Nouvelliste, o jornal mais antigo do Haiti.
O contingente salvadorenho, que inclui integrantes de forças especiais, é o maior enviado por um único país ao Haiti desde o fim da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), que esteve lá entre 2004 e 2017. Mas ainda não está claro se eles se juntarão à GSF.
Atualmente, essa força multinacional é composta por soldados de El Salvador, Guatemala, Jamaica, Mongólia, Sri Lanka e Chade, e é comandada pelo general de divisão mongol Edernebat Batsuuri. O contingente está muito abaixo da meta da ONU de 5,5 mil soldados.
O governo do primeiro-ministro haitiano, Alix Didier Fils-Aimé, mantém silêncio sobre a operação de resgate salvadorenha.
Reforço à vista?
No início da semana, o governo da República Dominicana, país vizinho ao Haiti, anunciou que a GSF deverá alcançar o contingente esperado de 5,5 mil homens "em cerca de três meses", com a chegada esperada de tropas de Bangladesh.
A República Dominicana não enviou soldados à GSF, mas apoia a missão financeiramente. O país também confirmou o envio de reforços militares às fronteiras como medida de precaução.
Haiti em crise
O Haiti, o país mais pobre das Américas, atravessa há anos uma profunda crise, que se agravou nos últimos tempos com o aumento de assassinatos, sequestros, estupros e recrutamento de menores por grupos armados.
Esse cenário de violência provocou o deslocamento de quase 1,5 milhão de pessoas nos últimos anos.
Foi diante desse cenário que o Conselho de Segurança das Nações Unidas autorizou a criação do GSF em setembro de 2025, para combater as gangues armadas e ajudar na estabilização do país.
De janeiro até meados de setembro, mais de 5.700 pessoas foram mortas ou feridas e mais de 230 foram sequestradas no Haiti, segundo as Nações Unidas.
ra/le (AFP, EFE, AP, Reuters)