Quanto maior a variedade de alimentos que uma criança aceita no prato, mais saudável será sua alimentação. Essa é uma crença comum entre pais que procuram a ajuda de especialistas porque seus filhos comem apenas uma quantidade limitada de alimentos. Mas será que essa afirmação corresponde à realidade?
Para responder a essa pergunta, pesquisadores do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares (Cenda), do Instituto Pensi, em São Paulo, analisaram o repertório alimentar — a lista de alimentos aceitos — de 237 crianças e adolescentes com dificuldades alimentares.
Os resultados mostram que a relação entre variedade e qualidade da dieta é mais complexa do que normalmente se imagina. O estudo, intitulado Does Accepting a Wider Variety of Foods Mean Eating Better? The Food Paradox of Children and Adolescents with Feeding Difficulties, foi publicado na revista Recent Progress in Nutrition (Lidsen Publishing).
Antes de mais nada, é importante considerar que a variedade da dieta faz parte de um processo de aprendizagem que começa já na fase de introdução alimentar. Esse processo contempla a oferta frequente de diferentes alimentos adequados à idade, respeitando os sinais de prontidão do bebê e de forma segura. Ao longo do desenvolvimento, é necessário evoluir a consistência dos alimentos, ajustar os volumes oferecidos e manter o aleitamento materno (ou a fórmula infantil), compreendendo que o bebê pode passar por fases em que comerá mais ou menos.
Seletividade alimentar
Por volta de 1 a 2 anos de idade, é comum que a criança comece a demonstrar preferências alimentares, ora comendo mais de alguns alimentos, ora deixando outros um pouco de lado. Isso é normal e esperado. A seletividade alimentar costuma surgir nesse momento.
Durante essa fase, situações como a redução da quantidade consumida, recusas a determinados alimentos, texturas, consistências, cores e sabores, entre outras queixas, podem surgir e tendem a ser transitórias, quando bem direcionadas. Mas, quando se mantêm, frequentemente trazem grande preocupação para pais e cuidadores. Com paciência, exposição contínua aos alimentos e orientação adequada de um nutricionista é possível preservar a qualidade e favorecer a ampliação gradual do repertório alimentar.
Frente a esse cenário, algumas práticas alimentares inadequadas podem influenciar a evolução do problema. Um exemplo é deixar a criança escolher o que quer comer ou substituir uma refeição previamente planejada por leite, bebidas açucaradas ou outro alimento que ela peça. Também é comum permitir o consumo de alimentos ainda não adequados à idade, tais como frituras, biscoitos, sucos industrializados, bebidas lácteas com adição de açúcar e doces em geral.
Estima-se que cerca de 20% a 30% das crianças neurotípicas (que não apresentam transtornos do neurodesenvolvimento) tenham algum grau de dificuldade no processo de experimentação e escolha dos alimentos, e a idade de maior prevalência é entre os 2 e 6 anos. Além disso, também pode haver crianças com problemas clínicos (por exemplo, dor ao deglutir, constipação e alergias) e sensoriomotoras orais (dificuldade de retirar o alimento da colher com habilidade e de lateralizar a língua auxiliando a mastigação, entre outros) que limitam a ampliação do repertório alimentar. Essas possibilidades precisam ser verificadas por profissional especializado.
Quantidade não é qualidade
Respondendo à pergunta feita no início do texto, os resultados deste estudo indicam que ter um repertório alimentar ampliado não garante, por si só, uma melhor qualidade da alimentação. No grupo analisado, crianças e adolescentes que aceitavam mais alimentos não foram os que apresentavam as dietas mais saudáveis.
Ao estratificar a amostra por faixa etária e analisar o número de alimentos aceitos, pudemos observar que, conforme a idade aumentava, também aumentava o número de alimentos aceitos. Os menores de 2 anos aceitavam, em média, quase 20 alimentos, enquanto os adolescentes aceitavam quase 30.
À primeira vista, essa parece ser uma boa notícia. A questão é que parte significativa desse aumento era composta por alimentos ultraprocessados, como salgadinhos, biscoitos, sobremesas e bebidas açucaradas. Em outras palavras, havia mais variedade, mas não necessariamente mais nutrientes.
Além disso, mesmo aceitando um número menor de alimentos, os bebês apresentavam o perfil alimentar mais favorável: consumiam proporcionalmente mais frutas, legumes, verduras e preparações simples. Já a partir da fase pré-escolar, os alimentos ultraprocessados passaram a ocupar mais espaço na alimentação. Esse resultado mostra que avaliar apenas o número de alimentos aceitos pode ser enganoso. A qualidade do que entra no repertório é tão valiosa quanto a sua diversidade.
O que molda o repertório
Existem razões biológicas para isso acontecer. Crianças nascem com uma preferência natural por sabores doces e por alimentos mais previsíveis em aparência, textura e sabor.
Entre as crianças com dificuldades alimentares, essa tendência pode ser ainda mais evidente. No estudo, os alimentos mais aceitos tinham características muito semelhantes: eram frequentemente doces, claros, crocantes ou fáceis de mastigar. Batata frita, pipoca, biscoitos e chocolates apareceram entre os itens mais aceitos. Já alimentos com sabores azedo e amargo, como muitas frutas e vegetais, perdiam espaço com o aumento da idade.
A biologia, no entanto, conta apenas parte da história. O ambiente alimentar também exerce enorme influência. Quando pais e cuidadores ficam preocupados com a alimentação da criança, é compreensível que ofereçam repetidamente os alimentos que sabem que são aceitos. O risco dessa estratégia é que ela carrega a possibilidade de ampliar o repertório alimentar em uma direção pouco saudável. Em vez de aprender a aceitar frutas, verduras e refeições variadas, a criança passa a conhecer cada vez mais versões de alimentos altamente palatáveis, ricos em açúcar, gordura e sal.
A principal mensagem do estudo é que ampliar o repertório alimentar é um objetivo fundamental, mas não deve ser o único. O sucesso não está apenas em fazer a criança comer mais, e sim em ajudá-la a aceitar uma maior variedade de alimentos nutricionalmente adequados. Para isso, pais e cuidadores precisam limitar a presença de alimentos pouco nutritivos, manter a oferta frequente de alimentos saudáveis, respeitar o ritmo da criança e compreender que a aceitação de novos alimentos é um processo contínuo.
Quando pensamos em alimentação infantil, especialmente nas dificuldades alimentares, a informação mais importante não é quantos alimentos a criança aceita, mas quais.
Raquel Ricci não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.