Parlamentares europeus e alemães consideram a eleição presidencial brasileira decisiva para o futuro das relações bilaterais, ressaltando temas como sustentabilidade, terras raras, democracia e a ratificação do acordo UE-Mercosul. Embora haja consenso de que o diálogo deva continuar com qualquer eleito, lideranças divergem sobre os rumos geopolíticos: teme-se um alinhamento excessivo aos EUA em caso de vitória da direita, enquanto se cobra a manutenção de compromissos ambientais e democráticos.
Representantes da UE e da Alemanha apontam clima, comércio, democracia e terras raras como temas centrais para os próximos anos. O apelo é pela manutenção dos compromissos assumidos.Eurodeputados e parlamentares alemães envolvidos em grupos legislativos vinculados ao Brasil dizem acompanhar com atenção a eleição presidencial brasileira, marcada para o próximo domingo. Em comum, elencam temas decisivos para o futuro da parceria com a União Europeia, como a questão ambiental, o acordo UE-Mercosul, as terras raras, o respeito à democracia e até o papel dos algoritmos das plataformas digitais.
Por um lado, há consenso de que o Brasil é um parceiro relevante para a Europa e que o diálogo deve permanecer independentemente do resultado das urnas. Por outro, os representantes ouvidos pela DW entendem que o resultado dará o tom do futuro dessa parceria, citando, inclusive, o peso que Brasília pode dar a terceiros, como os EUA. O apelo é pela manutenção dos compromissos assumidos.
"Esta eleição é importante não só para o Brasil, senão também para a Europa. O Brasil é um parceiro fundamental da União Europeia, pelo seu peso internacional e pelo seu papel em áreas como o comércio, o Acordo UE-Mercosul, a transição energética, a proteção da Amazônia e a defesa do multilateralismo", afirmou à DW Hélder Sousa Silva, presidente da Delegação do Parlamento Europeu para as Relações com o Brasil.
O parlamentar português é membro do Partido Popular Europeu (PPE), grupo político conservador do Parlamento Europeu associado à democracia cristã. Ele vê como natural que uma possível mudança de liderança traga diferenças nas prioridades e na orientação da política externa brasileira. "A relação entre a União Europeia e o Brasil deve ser sólida o suficiente para atravessar essas diferenças e continuar a produzir resultados concretos", diz.
Na Câmara Baixa do Parlamento alemão, o Bundestag, o deputado Florian Ossner, da sigla conservadora União Social Cristã (CSU), também vê a eleição como decisiva para a relação bilateral. O partido bávaro é irmão da União Democrata Cristã (CDU), do chanceler federal Friedrich Merz.
"Como nosso parceiro comercial mais importante na América Latina, o país está [...] diante de uma decisão fundamental de rumo, que também vai moldar de forma decisiva o futuro da parceria alemã-brasileira", diz o parlamentar, membro do Grupo Parlamentar Alemão-Brasileiro do Bundestag. "A polarização política, que ficou ainda mais evidente com a eleição de 4 de outubro, também nos coloca diante de desafios no trato com o Brasil", diz à DW.
Engajamento europeu em jogo
Anna Cavazzini, vice-presidente da Delegação para as Relações com o Brasil no Parlamento Europeu, também argumenta que a eleição importa para além das fronteiras brasileiras.
"O resultado vai decidir se o Brasil continua sendo um parceiro confiável para a Europa ou não, um parceiro que compartilha nossos valores: defender a democracia, combater a crise climática e acreditar na cooperação multilateral. Por isso nós, na Europa, acompanhamos estas eleições muito de perto", defendeu à DW. A eurodeputada alemã integra o grupo parlamentar dos Verdes/Aliança Livre Europeia no Parlamento Europeu. "Mas, não importa quem vença, esperamos um diálogo respeitoso e construtivo."
Cavazzini sustenta que o engajamento do bloco está atrelado a padrões democráticos, coesão social, Estado de Direito e proteção da Amazônia e de seus povos. "O Brasil, como sabemos, é central na luta contra as crises do clima e da biodiversidade. [...] Acredito que a parceria UE-Brasil deve ser construída sobre valores compartilhados: a transição verde, o combate à pobreza, a justiça social", pontua, ao elogiar a redução do desmatamento da Amazônia sob o governo Lula.
O Brasil se tornou central na negociação do acordo Mercosul-UE. O acordo comercial interino está em aplicação provisória desde maio, enquanto o tratado de parceria mais amplo ainda depende da conclusão dos procedimentos de ratificação. O bloco europeu cobra dos países sul-americanos padrões ambientais elevados para consolidar o tratado.
Para Sousa Silva, a Europa vê o Brasil como um parceiro estratégico para enfrentar desafios que nenhum dos lados consegue resolver sozinho. "No comércio, o acordo entre a União Europeia e o Mercosul poderá abrir novas oportunidades, desde que seja acompanhado por compromissos efetivos em matéria de sustentabilidade e por benefícios para as empresas e os cidadãos", diz o eurodeputado, que também cita o domínio das matérias-primas críticas como área de interesse comum.
"Há, naturalmente, desafios e diferenças a superar. Mas a minha convicção é que a relação UE-Brasil tem condições para se aprofundar, assente no diálogo, em regras claras e no respeito pelos compromissos assumidos."
Entre pragmatismo e alinhamento
No Bundestag, deputados repetem o apelo à parceria estratégica. "O Brasil é um país de uma importância enorme para a Alemanha, não só porque tem uma população muito grande, não só porque é a décima maior economia do mundo, mas também porque tem muitos recursos, matérias estratégicas, terras raras", diz Rainer Rothfuss, membro do partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD) e presidente do Grupo Parlamentar Alemão-Brasileiro.
"Por isso também acompanhamos de perto todas as eleições e consideramos o resultado de importância realmente excepcional para as relações da Alemanha com o Brasil no futuro", afirma.
Rothfuss, que vê "grande potencial" de colaboração de seu partido com Flávio Bolsonaro, com quem conversou por videochamada no fim de fevereiro, considera que a estratégia de política externa brasileira serve de modelo para a política externa alemã. "O Brasil sempre mantém o equilíbrio entre o Ocidente e as economias emergentes, os países do Brics, e por isso também tem uma posição forte. E é isso que buscamos para a Alemanha", argumenta. "A cor do partido não interessa para nós. É uma questão de interesse dos dois lados para intensificar os laços."
Por outro lado, também avalia que uma eventual presidência de Flávio Bolsonaro pode acabar optando por uma relação mais forte com os Estados Unidos, em detrimento da parceria com a UE e com a Alemanha. "Achamos que seria sábio, e esperamos, que Bolsonaro [se eleito] também mantenha a via do Brics como alternativa aos Estados Unidos", diz, ao defender a intensificação dos laços bilaterais e sugerir que o Brasil evite a dependência dos EUA na extração e no processamento de terras raras.
O tema também vem sendo destacado por institutos de pesquisa alemães vinculados a partidos políticos e pelo Serviço de Pesquisa do Parlamento Europeu, que, em um relatório publicado neste mês, afirmou que uma vitória de Flávio Bolsonaro "poderia levar a um forte alinhamento com o governo [de Donald] Trump e ao distanciamento do Brics e da China".
Para Ossner, da CSU, vice-presidente do Grupo Parlamentar Alemão-Brasileiro, a eleição brasileira exigirá da política externa alemã um "pragmatismo estratégico". "Independente do resultado da eleição, precisamos nos preparar para que as relações com o Brasil possam, no futuro, ser mais fortemente marcadas por interesses nacionais próprios e por formações de blocos geopolíticos", diz.
Oposição cobra governo alemão
Maren Kaminski, do partido A Esquerda (Die Linke), que também compõe o Grupo Parlamentar Alemão-Brasileiro e exerce uma de suas vice-presidências, cita preocupações com uma aliança brasileira com os EUA em caso de vitória de Flávio Bolsonaro. "O abandono da proteção do clima seria apenas uma das catástrofes. Além disso, trata-se de mais: esses governos autoritários minam toda a ordem internacional e suas regras", diz.
Para Kaminski que defende a candidatura de Lula, o intercâmbio parlamentar entre países não deve se limitar a partidos de governo e é "essencialmente importante nestes tempos políticos difíceis". A deputada também cobra o governo alemão, que, segundo ela, pretende manter parceria estratégica independente do resultado das urnas. "Se direitos humanos e democracia forem atropelados, algo estaria dando terrivelmente errado."
"Às vezes nós, na Europa, esquecemos como o Brasil é relevante: 200 milhões de habitantes vivem em um país democrático de dimensões continentais. O Brasil é uma potência econômica global. A República Federal tem um acordo de parceria estratégica com o Brasil, e a União Europeia negociou no ano passado o acordo de livre comércio com o Mercosul. O fato de que nisso os interesses de lucro estejam em primeiro plano, muito mais do que os aspectos sociais, não torna a cooperação menos importante", diz.
Desinformação entra no radar europeu
Questionados sobre o papel das plataformas e da desinformação nas eleições brasileiras, Cavazzini e Sousa Silva destacaram a necessidade de regulação e de transparência sobre os algoritmos.
"O que vemos no Brasil, conhecemos da Europa: plataformas com enorme poder sobre o debate político, nenhuma transparência sobre os algoritmos, dinheiro estrangeiro e deepfakes de IA em anúncios políticos", diz Cavazzini. "Estas eleições mostram de novo que eleições não são justas se há interferência e viés nas plataformas americanas."
Para Sousa Silva, a inteligência artificial torna esse desafio ainda mais exigente, sobretudo quando é usada para criar conteúdos que parecem autênticos. "Isso exige transparência sobre a publicidade política e a forma como os conteúdos são recomendados, maior responsabilidade das plataformas e uma resposta eficaz a campanhas coordenadas de manipulação, sem transformar o combate à desinformação numa forma de censura."
A DW também procurou organizações representativas da sociedade civil do continente, que preferiram não comentar a política doméstica brasileira até o resultado efetivo das eleições.
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