Países ocidentais têm piora no Índice de Corrupção de 2025

10 fev 2026 - 07h11
(atualizado às 09h11)

Outrora considerados bastiões do combate à corrupção, EUA, Reino Unido, Canadá e Suécia estão em declínio. Brasil manteve posição registrada em 2024.Até as democracias mais consolidadas do mundo estão cada vez mais mergulhadas na corrupção, revelou o Índice de Percepção da Corrupção (IPC) de 2025, da ONG Transparência Internacional, publicado nesta terça-feira (10/02). O estudo destaca uma preocupante erosão das lideranças contra a corrupção no Ocidente. O Brasil manteve a posição registrada em 2024, a 107ª de 182 nações - a sua pior colocação do ranking.

Queda de países ocidentais que eram exemplo do combate à corrupção preocupa analistas
Queda de países ocidentais que eram exemplo do combate à corrupção preocupa analistas
Foto: DW / Deutsche Welle

A 31ª edição do IPC classifica mais de 180 países e territórios de acordo com os níveis percebidos de corrupção no setor público, que avançou em países tradicionalmente bem classificados, como os Estados Unidos, o Canadá, o Reino Unido e a Suécia.

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O índice de 2025 apontou queda drástica no número de países com pontuação acima de 80 - visto como um parâmetro para governança limpa - em uma escala de 0 (altamente corrupto) a 100 (muito limpo). Se há uma década 12 países estavam neste grupo, em 2025 eram apenas cinco.

Mesmo com a Dinamarca alcançando a pontuação mais alta (89) pelo oitavo ano consecutivo, seguida de perto por Finlândia (88) e Singapura (84), a Transparência Internacional lamentou a falta de "lideranças ousadas" em todo o mundo. Segundo a organização, isso vem enfraquecendo os esforços no combate à corrupção.

"Vários governos não consideram mais o combate à corrupção uma prioridade", disse François Valerian, presidente da Transparência Internacional, à DW. "Os governos podem ter tido a impressão de que [...] já haviam feito de tudo para combater a corrupção e precisavam se voltar para outras prioridades."

Por que os EUA caem nos índices globais de corrupção?

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Os EUA caíram para sua pontuação mais baixa de todos os tempos no IPC: 64, queda de 10 pontos em relação a 2016. A Transparência Internacional aponta que o clima político nos EUA vem se deteriorando há mais de uma década e ressalta que os dados mais recentes não refletem totalmente os acontecimentos desde o retorno do presidente dos EUA, Donald Trump, à Casa Branca.

Embora a pontuação dos EUA no ranking tenha permanecido estável durante a maior parte do governo do antecessor de Trump, Joe Biden, relatórios anteriores destacaram escândalos éticos de grande repercussão na Suprema Corte dos EUA como responsáveis por uma queda significativa no ano passado.

"Não podemos atribuir tudo a Trump, porque houve reformas preocupantes que começaram antes dele", disse Valerian à DW.

O relatório, no entanto, citou o "uso de cargos públicos para perseguir e restringir vozes independentes", assim como a "normalização de políticas conflituosas e transacionais", "a politização da tomada de decisões por parte do Ministério Público" e "ações que minam a independência judicial". A entidade anticorrupção afirmou que essas medidas "enviam um sinal perigoso de que práticas corruptas são aceitáveis".

Desde o início de seu segundo mandato, Trump vem adotando medidas que alimentam essas preocupações, como o desmantelamento de emissoras públicas como a Voz da América e a instrumentalização de agências governamentais contra oponentes políticos, incluindo membros do governo Biden e outros altos funcionários dos EUA.

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O republicano também foi acusado de minar a independência judicial e enfraquecer a aplicação da Lei de Práticas de Corrupção no Exterior, que foi originalmente aprovada para impedir que cidadãos e entidades dos EUA subornassem funcionários de governos estrangeiros para obter contratos.

Valerian criticou a revisão dessa lei por Trump através de uma ordem executiva que a transformou em uma ferramenta de segurança nacional. Ele também destacou o apoio do presidente republicano a criptomoedas como o Bitcoin - frequentemente usadas para lavagem de dinheiro - e a um programa de imigração acelerada para estrangeiros ricos, apelidado pelos críticos de Cartão de Ouro de Trump.

"Com base em nossa experiência internacional, esses esquemas [de visto] atraem pessoas corruptas e também podem atrair criminosos", disse Valerian.

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Ao longo da mesma década, a maior queda na percepção de corrupção foi no Reino Unido. O país teve score de 70 pontos e caiu 11 pontos, o que, segundo a Transparência Internacional, está ligado às falhas contínuas na aplicação de padrões éticos para ministros, legisladores e outros funcionários do governo.

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A organização também citou escândalos de compras relacionados à pandemia de covid-19, em que pessoas próximas ao poder em Londres conseguiram contratos lucrativos para o fornecimento de equipamentos de proteção individual (EPI) com pouca fiscalização.

Outras nações ocidentais que registraram grandes quedas no ranking nos últimos 10 anos são a Nova Zelândia, que caiu nove pontos (81), a Suécia, que teve queda de oito pontos (80), e o Canadá, cuja pontuação caiu sete pontos (75). A queda da Alemanha nos últimos 10 anos foi mais modesta, de quatro pontos, para 77. Ainda assim, o país subiu dois pontos em relação ao ano anterior.

O índice registrou uma queda de quatro pontos na França, que caiu para 66 na última década, citando a diminuição da repressão à corrupção e os crescentes riscos de conluio entre funcionários e interesses privados. O relatório elogiou a condenação do ex-presidente francês Nicolas Sarkozy pelo recebimento de fundos ilícitos, inclusive do falecido líder líbio Muammar Kafafi, que foram usados em sua campanha presidencial.

Onde o combate à corrupção perde impulso?

O relatório observou que 50 países registraram quedas significativas no ranking desde 2012, notadamente, Turquia, Hungria e Nicarágua. Isso se deve ao retrocesso democrático, enfraquecimento das instituições e do Estado de Direito, nepotismo e busca de privilégios.

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A corrupção abre cada vez mais as portas para o crime organizado penetrar na política latino-americana, alertou a Transparência Internacional, observando que até mesmo a Costa Rica e o Uruguai - outrora consideradas as democracias mais fortes da região, com notas altas no IPC - vivenciam atualmente os tipos de pressões de corrupção vistas na Colômbia, no México e no Brasil.

O relatório afirmou que os declínios são "acentuados, duradouros e difíceis de reverter, à medida que a corrupção se torna sistêmica e profundamente enraizada nas estruturas políticas e administrativas". "Quanto mais concentrado o poder, maior o abuso de poder. Quanto mais secreto o poder, mais fácil é abusar dele", disse Valerian.

A entidade anticorrupção também lamentou a interferência política nas operações de organizações não governamentais (ONGs), especialmente as que criticam os governos vigentes. O relatório observou um aumento na repressão e nos cortes de financiamento para ONGs na Geórgia, Indonésia e Peru. Em certos países, está cada vez mais difícil para jornalistas independentes, grupos da sociedade civil e delatores se manifestarem contra a corrupção.

A iniciativa anticorrupção da Ucrânia recebeu elogios, mesmo enquanto o país continua a lutar contra a invasão russa em seu território. Escândalos recentes mostram que a corrupção continua sendo um problema no setor de defesa, mas o fato de esses casos estarem vindo à tona publicamente e sendo levados a julgamento indica que a nova estrutura anticorrupção do país está começando a surtir efeito, afirmou o relatório.

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"Um país, a Ucrânia, decidiu lutar contra a corrupção, enquanto a Rússia escolheu o caminho oposto", disse Valerian, observando que Moscou revogou leis destinadas a prevenir e punir a corrupção.

Brasil permanece na pior posição

Já o Brasil manteve a sua pior posição no ranking em 2025, a 107ª posição, com 35 pontos, apesar de uma alta de um ponto em comparação com 2024. O país ficou abaixo da média global e das Américas, ambas com 42 pontos.

"O resultado mantém o país em um patamar historicamente baixo, reforçando uma trajetória marcada por fragilidade institucional, baixa efetividade dos mecanismos de integridade

Como se saem os países com pior classificação?

A Transparência Internacional também observou que os regimes autoritários, incluindo os da Venezuela e do Azerbaijão, apresentam, em geral, o pior desempenho no ranking, já que "a corrupção é sistêmica e se manifesta em todos os níveis". No índice mais recente, mais de dois terços das nações ficaram abaixo de 50, o que, segundo o relatório, indica "sérios problemas de corrupção na maior parte do planeta".

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O documento destaca que os países classificados abaixo de 25 são afetados principalmente por conflitos e regimes altamente repressivos, incluindo Líbia, Iêmen e Eritreia, que obtiveram 13 pontos, juntamente com Somália e Sudão do Sul, ambos com nove pontos.

Do lado positivo, o relatório destacou como muitos países subiram da parte inferior para o meio do ranking, incluindo Albânia, Angola, Costa do Marfim, Laos, Senegal, Ucrânia e Uzbequistão, e observou ganhos de longo prazo de nações com pontuações já altas, incluindo Estônia, Coreia do Sul, Butão e Seychelles.

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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