ONU declara escravidão o mais grave crime contra a humanidade

26 mar 2026 - 08h46

Em medida simbólica, mas histórica, Assembleia Geral da ONU adota resolução com apoio de 123 países, incluindo o Brasil. Votaram contra os EUA, Israel e Argentina. União Europeia e Alemanha se abstiveram.A Assembleia Geral das Nações Unidas adotou nesta quarta-feira (25/03) uma resolução que classifica o tráfico transatlântico de escravos como o crime mais grave contra a humanidade, e também exige a devolução de artefatos culturais aos seus países de origem.

Sessão histórica da Assembleia da ONU discutiu papel da Europa no tráfico transatlântico de escravos
Sessão histórica da Assembleia da ONU discutiu papel da Europa no tráfico transatlântico de escravos
Foto: DW / Deutsche Welle

A medida, proposta por Gana com o apoio de 40 países da União Africana (UA), foi apoiada por 123 países, incluindo o Brasil, enquanto Israel, Estados Unidos e Argentina votaram contra, e a Alemanha e outros 51 países se abstiveram. As resoluções da Assembleia Geral possuem caráter simbólico e não são juridicamente vinculativas.

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O texto afirma que a escravização de africanos e o tráfico transatlântico de escravos devem ser considerados o crime mais grave contra a humanidade devido à escala, duração, natureza sistêmica, brutalidade e consequências duradouras desses crimes.

A votação coincidiu com o Dia Internacional de Memória das Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Escravos. Entre os séculos 16 e 19, milhões de africanos foram escravizados e transportados por colonialistas europeus para as Américas e o Caribe, muitos dos quais morreram durante a viagem.

Estima-se que mais de 15 milhões de pessoas tenham sido deportadas ao longo de 400 anos. Outras fontes falam em 12 a 12,8 milhões. Cerca de 10,7 milhões chegaram vivas às Américas. Entre 1,5 e 2 milhões morreram durante a travessia do Atlântico.

"Obrigação moral inquestionável"

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"O tráfico transatlântico de escravos foi um crime contra a humanidade que atingiu o âmago da existência humana, separando famílias e destruindo comunidades", declarou o secretário-geral da ONU, António Guterres. "Para justificar o injustificável, os defensores e beneficiários da escravidão criaram uma ideologia racista e transformaram o preconceito em pseudociência."

O presidente de Gana, John Dramani Mahama, afirmou que havia uma base jurídica sólida para isso e destacou a "obrigação moral inquestionável" ao lembrar os que resistiram à escravização e os que, doentes e enfraquecidos, foram jogados ao mar.

"O comércio de africanos escravizados e formas racializadas de escravidão são crimes que moldaram o mundo moderno", declarou Mahama em meados de fevereiro, durante a conferência anual da UA em Adis Abeba, na Etiópia.

"As consequências [desses crimes] continuam a se manifestar em desigualdades estruturais, discriminação racial e disparidades econômicas", disse. "Reconhecer essas injustiças não é sinônimo de divisão, e sim de coragem moral. Esta iniciativa nos oferece uma oportunidade histórica de afirmar a verdade de nossa história."

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Rejeições e abstenções

Os países contrários à resolução se disseram contra criar uma escala de gravidade dos crimes contra a humanidade argumentando que isso diminuiria a importância das vítimas de outras atrocidades e genocídios, como o Holocausto.

O representante dos EUA, Dan Negrea, classificou a resolução como altamente problemática e afirmou que a ONU não foi criada para promover agendas específicas ou o que ele descreveu como celebrações internacionais de "nicho".

O Reino Unido, antiga potência colonizadora de Gana, também rejeitou as exigências de indenização, alegando motivos semelhantes aos dos EUA.

A representação da União Europeia na ONU afirmou que o bloco se absteria em razão de preocupações com "interpretações controversas e pouco equilibradas de eventos históricos que podem criar divisões entre países", acrescentando que pedidos de reparação são "incompatíveis com o direito internacional".

Os britânicos aboliram o comércio de escravos em 1807, enquanto a escravidão foi formalmente proibida nos Estados Unidos em 1865. No Brasil, a Lei Áurea, que aboliu a escravidão no país, foi assinada somente em 13 de maio de 1888.

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As Nações Unidas proibiram a escravidão globalmente com a adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948. Segundo estimativas, a escravidão atingiu cerca de 15 milhões de pessoas no continente africano.

rc (DPA, ots)

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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