O que pensam e produzem os intelectuais indígenas do Brasil

A SBPC acredita que já passa da hora de se abrirem espaços formais dentro e fora da comunidade científica para dar maior destaque e visibilidade a cientistas, artistas e demais intelectuais indígenas

24 jul 2026 - 10h49
(atualizado às 11h31)

No dia 26 de julho começa a acontecer, no campus da Universidade Federal Fluminense (UFF), a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Com o tema "Ciência para todos: soberania, desenvolvimento e inclusão", a reunião vai até o dia 1º de agosto promovendo conferências, mesas-redondas, atividades culturais, exposições e cursos destinados a estudantes e professores do ensino básico, técnico e superior, além de pesquisadores, profissionais e do público geral. Tudo, como sempre, com inscrições gratuitas. A equipe do The Conversation Brasil está de olho nos preparativos para o evento, e pediu a alguns pesquisadores que farão palestras por lá para adiantar o tema de suas apresentações em artigos aqui no site. No texto abaixo, coordenado pelo membro da SBPC André de Avila Ramos, três acadêmicos de origem indígena discorrem sobre seus estudos, à luz da condição pioneira e ainda rara que os permite unir o pensamento acadêmico das universidades com a sabedoria milenar dos povos originários:

Historicamente, quando a ciência oficial trata de questões ligadas a populações e culturas autóctones, costuma-se delegar a estas o papel de "objetos" de estudos (antropológicos, linguísticos, etnobotânicos, etc), os quais, em sua esmagadora maioria, são produzidos e publicados por pesquisadores não indígenas

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Em outros contextos, lideranças indígenas são por vezes convidadas a se manifestar politicamente e/ou na qualidade de porta-vozes de saberes ancestrais, dentro de fóruns acadêmicos e políticos dominados por visões eurocentradas.

Mas essa realidade está mudando. Temos um número cada vez maior de estudantes indígenas ingressando e sendo diplomados nas universidades brasileiras, fruto da luta permanente de seus povos e das resultantes políticas de ações afirmativas implementadas pelo Estado nos últimos 13 anos. Em todas as regiões do país, vemos uma nova geração de mestres e doutores indígenas que já concluíram suas formações acadêmicas e hoje estão ingressando, não apenas nas carreiras de docência universitária, mas também em outros órgãos estratégicos ligados à formulação de políticas públicas.

No entanto, ainda há muito a avançar. Do ponto de vista da internacionalização, tendo visitado universidades estrangeiras com políticas e oportunidades dirigidas especificamente a povos indígenas no ensino superior — como é o caso da mexicana Universidad Veracruzana Intercultural (UVI) —, percebi que, no Brasil, ainda não se costuma sequer debater a importância de uma internacionalização inclusiva, com atenção especial a povos originários.

No entanto, observamos algumas iniciativas recentes ocorrendo nesse sentido, como o inovador programa Guatá da Embaixada da França no Brasil que, em 2023, criou bolsas destinadas exclusivamente a estudantes indígenas brasileiros que desejem realizar uma mobilidade na França de 6 a 10 meses durante seu doutorado, independentemente da área de estudo. O programa encontra-se hoje em seu terceiro ano consecutivo.

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A SBPC acredita que já passa da hora de se abrirem espaços formais dentro e fora da comunidade científica, que proporcionem maior destaque e visibilidade para que cientistas, artistas e demais intelectuais indígenas publiquem e assinem sua própria produção intelectual, abordando questões que sejam relevantes de seus pontos de vista, como produtores de conhecimentos contemporâneos e, ao mesmo tempo, detentores de saberes e visões inerentes a suas culturas ancestrais e a seus contextos sociais, territoriais e políticos.

Para atingir esse objetivo, juntamos esforços com os Ministérios dos Povos Indígenas (MPI), da Saúde e da Educação (MEC), além de universidades que contam com pesquisadores indígenas em seus quadros. Até o momento, já identificamos 103 pesquisadores indígenas atuando em instituições de ensino e pesquisa no Brasil, incluindo 52 mestres e 45 doutores. Destes, contabilizamos até agora 31 professores e professoras concursados(as) em Instituições Federais de Ensino. Esses números são ainda preliminares e precisam ser devidamente verificados, detalhados e ampliados, como esperamos poder fazer em breve por meio do MPI.

Em 2027, a SBPC publicará a primeira edição da revista Ciência e Cultura inteiramente dedicada a autores e autoras indígenas. Representando diferentes áreas do conhecimento, regiões, biomas e etnias, esses autores e autoras trarão maior visibilidade à produção intelectual indígena do Brasil que, apesar de crescente, é desconhecida da maior parte do público, tanto acadêmico como geral.

Na 78a Reunião da SBPC, convidamos para uma mesa redonda — intitulada O que pensam e produzem os intelectuais indígenas do Brasil? — cientistas de prestígio acadêmico e lideranças reconhecidas por seus povos, que formam o grupo editorial encarregado de pensar e produzir esse número da revista. Na mesa redonda, eles falarão de suas visões sobre o estado atual, os caminhos e os desafios para o reconhecimento da ciência indígena brasileira como parte fundamental do desenvolvimento científico do país. Cada um deles trouxe aqui uma pequena apresentação de suas falas no evento:

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ALMIRES MATINS MACHADO GUARANI: Nas epistemologias da resistência, a intelectualidade e a Ciência Indígena

"Quando nos referimos a uma emergência da intelectualidade indígena, seja nas universidades brasileiras ou fora delas, não nos referimos somente a um movimento de inclusão social, literária ou de reparação histórica e de direito. Estamos nos referindo a uma mudança de pensamento, de ciência, de uma forma de pensar, ver e fazer; uma quebra de paradigmas, conhecimento, epistemologias. Uma mudança que atinge o ponto de maturação em que o lugar de fala do intelectual indígena transcende a mera representação identitária para se consolidar como uma autoridade epistemológica, filosófica e da espiritualidade.

Isso desafia os paradigmas da ciência ocidental, contrapondo-os com a proposta de uma ciência indígena, e usa ou transforma o papel da produção editorial como ferramenta de resistência, resiliência, vencendo os entraves institucionais, burocráticos, orçamentários, discriminatórios e por vezes racistas, que tentam limitar o reconhecimento desses saberes nas agências de fomento e no mundo acadêmico.

Essa mudança representa a reterritorialização ou a ressignificação do pensamento, num território de complexas disputas de identidades e reconhecimento. Então, o lugar de fala assume o locus estratégico da denúncia contra o apagamento e a invisibilização sistemática que os povos indígenas enfrentam, enquanto potencializa um laboratório vivo de diversidade sociocultural, estabelecendo uma ponte entre a tradição ancestral e a técnica acadêmica, reconhecendo a necessidade de decolonizar e valorizar as epistemologias do Sul Global.

A ciência indígena diz respeito, grosso modo, a sistemas de conhecimento profundamente enraizados em tradições culturais e associados à biodiversidade de um território específico, priorizando as forças da natureza e as conexões que ligam todas as formas de vida: um sistema de observação, previsão, interpretação, permeado pelo holismo.

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Na ciência indígena, tudo é vivo e todos os seres se conectam e possuem espíritos que devem ser respeitados conforme regras estabelecidas que regem a interação entre humanos e não humanos. Essa ciência estabelece os caminhos de uma cosmopolítica, dada a importância de incorporar perspectivas indígenas na gestão ambiental e ecológica.

Desse modo, a produção dos intelectuais indígenas tornam-se ferramentas, refletindo uma mudança de paradigma. O ato de publicar deixa de ser apenas uma exigência acadêmica para se tornar um ato de resistência contra o extrativismo acadêmico, onde pesquisadores externos coletam dados e saberes sem o devido retorno ou reconhecimento das comunidades.

O futuro da intelectualidade ou dos intelectuais indígenas é um novo pacto civilizatório, em que a ciência seja um instrumento contínuo de construção de futuro e defesa da vida: caminhos para a consolidação do saber originário. Esse futuro deve considerar as perspectivas do transitar entre uma ciência de gabinete para uma ciência do/no território, que reconheça a vida e o espírito em todos os recursos naturais.

É preciso ter autonomia/reconhecimento e fortalecimento, enfatizando temas de meio ambiente, sociedade, cultura. Cremos ser fundamental apoiar a elaboração de propostas que integrem a ciência indígena às políticas públicas. Para tanto, é preciso um diálogo horizontal, pois não há futuro para biomas como a Amazônia sem nós, os povos originários.

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A ciência não indígena deveria tratar equanimemente as epistemologias indígenas e de comunidades tradicionais, reconhecendo Davi Kopenawa, e outros pensadores e pensadoras como autoridades científicas de pleno direito."

PUTIRA SACUENA: Indígenas intelectuais, uma perspectiva a partir dos territórios indígenas

"A chegada de indígenas intelectuais nas universidades, nos espaços de pesquisa e na formulação de políticas públicas representa uma das transformações mais importantes da produção científica brasileira nas últimas décadas. Contribui para a construção de um pensamento que articula ciência, ancestralidade e compromisso político com os direitos dos povos originários.

As ciências indígenas não se opõem à ciência ocidental. Pelo contrário, evidenciam que existem diferentes formas de produzir conhecimento sobre a vida, o corpo, a saúde e a natureza. Essas produções rompem com a antiga lógica colonial que tratava os povos indígenas apenas como objetos de pesquisa e reafirma que eles são produtores e fomentadores de conhecimento científico, filosófico e político.

Indígenas intelectuais, por exemplo, trazem a compreensão de que a saúde não pode ser compreendida apenas como ausência de doença. Trata-se de uma condição inseparável do território, da espiritualidade, das relações familiares, da alimentação ancestral, da preservação ambiental e da continuidade dos modos de vida. O conceito de bem viver, presente em diferentes povos indígenas, parte de uma compreensão ampliada da saúde, baseada no equilíbrio entre seres humanos, natureza, ancestralidade e coletividade.

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Essa perspectiva questiona a centralidade exclusiva do modelo biomédico. A medicina ocidental possui importância inquestionável para o diagnóstico e o tratamento de doenças, mas não esgota as formas de cuidar da vida. Os intelectuais indígenas defendem que os sistemas indígenas de conhecimentos expressos nas tecnologias de cuidados dos pajés, majés, parteiras, rezadores, benzedeiras e outros especialistas das medicinas indígenas constituem patrimônios científicos e culturais que devem dialogar com o Sistema Único de Saúde (SUS) em uma relação de respeito e complementaridade.

Outro elemento central desse pensamento é o território. Para intelectualidade indígena, o território não corresponde apenas a uma área demarcada ou a um espaço físico. Ele reúne dimensões históricas, espirituais, ambientais e afetivas que estruturam a existência dos povos indígenas. Rios, florestas, montanhas, animais e outros seres participam da constituição da vida coletiva. A destruição ambiental, o garimpo ilegal, o desmatamento e as invasões territoriais não representam apenas impactos ecológicos, mas produzem adoecimento, rompem vínculos culturais e ameaçam a continuidade dos conhecimentos ancestrais.

Durante a pandemia de covid-19, houve uma ampliação do entendimento de que epidemias, invasões territoriais e violência histórica fazem parte de um mesmo processo de vulnerabilização dos povos indígenas. Proteger os mais velhos significa preservar bibliotecas vivas de conhecimentos, memórias, línguas e espiritualidades. A perda de um ancião representa uma perda coletiva que ultrapassa qualquer dimensão econômica, pois compromete a transmissão da história e da identidade dos povos indígenas.

Os intelectuais indígenas também defendem uma profunda revisão das relações entre humanidade e natureza. Em oposição às concepções que separam sociedade e meio ambiente, esses intelectuais afirmam que humanos e demais seres compartilham uma mesma comunidade de vida. Essa compreensão amplia a ética do cuidado, reconhecendo rios, florestas, animais e outros elementos da natureza como parte constitutiva da existência coletiva e não apenas como recursos disponíveis para exploração.

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Outro aspecto recorrente na produção é a defesa do protagonismo indígena na construção das políticas públicas. A participação dos povos indígenas não deve restringir-se à condição de beneficiários das ações do Estado, mas deve ocorrer em todas as etapas da formulação, implementação, monitoramento e avaliação das políticas. Essa participação fortalece a autonomia dos povos indígenas e permite que programas e serviços dialoguem efetivamente com as realidades socioculturais dos territórios. Essa perspectiva demonstra que a gestão pública pode incorporar princípios da interculturalidade, da equidade e da participação social como elementos estruturantes das políticas de saúde.

Em síntese, o pensamento dos intelectuais indígenas contemporâneos, representado por nós, propõe uma mudança paradigmática na produção do conhecimento. Em vez de compreender os povos indígenas como populações vulneráveis definidas apenas por indicadores epidemiológicos, esse pensamento reconhece sua capacidade de produzir ciência, formular políticas, interpretar a realidade e oferecer contribuições fundamentais para enfrentar desafios contemporâneos relacionados à saúde, às mudanças climáticas, à proteção ambiental e aos direitos humanos.

Mais do que reivindicar reconhecimento, esses intelectuais propõem uma nova forma de pensar a própria sociedade brasileira: uma sociedade fundada no diálogo entre ciências, no respeito à diversidade, na valorização dos conhecimentos ancestrais e na construção de políticas públicas orientadas pelo cuidado, pela justiça social e pelo bem viver."

ROSANI KAMURI KAINGANG: O que pensam e produzem os intelectuais indígenas

"Nas últimas décadas, lideranças, escritores, professores e pesquisadores indígenas vêm ocupando cada vez mais espaço público no Brasil, produzindo reflexão sistemática sobre cosmologia, política e meio ambiente a partir de categorias muitas vezes distintas das acadêmicas ocidentais, mas não menos rigorosas e complexas. Uma marca dessa produção é a valorização da oralidade como forma legítima de conhecimento.

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Em "A queda do céu", escrito por Davi Kopenawa com o antropólogo Bruce Albert, a cosmovisão do povo Yanomami foi sistematizada, mostrando como a palavra do xamã carrega uma teoria sobre a origem do mundo e os riscos da destruição ambiental provocada pelos brancos, sem separar filosofia, política e espiritualidade.

Ailton Krenak, por sua vez, questiona a noção ocidental de humanidade separada da natureza, entendendo a "crise ambiental" como crise da forma como certas sociedades concebem vida, tempo e progresso, reflexão que dialoga com a decolonialidade e os limites do antropocentrismo.

No campo acadêmico, cresce o número de indígenas com formação em antropologia, educação, direito e ciências sociais, que pesquisam suas próprias comunidades a partir de um lugar de fala diferenciado, a chamada "etnografia reversa", que tenciona hierarquias sobre quem tem legitimidade para falar sobre povos indígenas.

Esse protagonismo ganhou marco institucional com a criação da Universidade Federal Indígena (Unind), instituída pela Lei nº 15.418/2026 e sancionada em maio de 2026, após anos de mobilização do movimento indígena, sobretudo do Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (FNEEI) e debates conduzidos desde 2010 no Ministério da Educação.

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Sediada em Brasília, a Unind terá reitoria obrigatoriamente indígena, processos seletivos próprios e cursos em áreas como educação, saúde e gestão territorial, representando o reconhecimento institucional de que saberes indígenas podem ser produzidos e credenciados a partir de suas próprias epistemologias. Esse movimento expressa um fenômeno mais amplo: a emergência do pensamento indígena como campo próprio da produção intelectual brasileira, não mais como apêndice da antropologia ou do folclore.

Uma nova geração de pesquisadoras e parlamentares indígenas vêm ocupando espaços nas universidades e em diversos espaços de poder, comissões legislativas, indicando mudança estrutural, ainda em curso, no reconhecimento da autoria e autoridade intelectual indígena. Por fim, essa produção não se limita a livros e teses, mas está em documentários, música, artes visuais e na articulação política de organizações indígenas que produzem diagnósticos e propostas legislativas coletivas.

Em conjunto, esses pensadores mostram que os povos indígenas não apenas resistem, mas pensam e propõem alternativas civilizatórias diante da crise climática e dos limites do desenvolvimento vigente. Reconhecer essa produção como pensamento e não apenas como cultura ou tradição é passo necessário para uma relação mais simétrica entre saberes indígenas e não indígenas."

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

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Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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