O que diferencia a radicalização misógina online da cultura machista histórica no Brasil?

É preciso impedir que a radicalização misógina, surgida inicialmente às margens do machismo hegemônico preexistente, torne-se uma nova norma massificada para a banalização da violência contra as mulheres no Brasil

13 mar 2026 - 12h40

No contexto da onda recente de casos chocantes de violência contra mulheres e meninas, venho argumentando que estas não devem mais ser entendidas apenas na chave do machismo histórico do Brasil, mas de uma nova forma de radicalização misógina ancorada em ambientes digitais. Embora essa associação esteja sendo feita por boa parte do público e da imprensa, ela não é incontroversa. Afinal, todas essas violências contra as mulheres sempre existiram, fruto da cultura machista e das estruturas patriarcais que predominam há séculos no país.

Esse tipo de argumento sempre aparece quando estão em questão os fenômenos associados à digitalização: as fake news sempre existiram, assim como a polarização política, o discurso de ódio, as teorias da conspiração, problemas de saúde mental, abuso infantil. Este é, inclusive, o discurso das próprias plataformas, em seu eterno esforço para afastar responsabilidades pelos crimes que ocorrem nos ambientes sobre os quais elas exercem, sozinhas, poder executivo, legislativo e judiciário.

Publicidade

Porém, como argumentei extensivamente no meu livro sobre tecnopolítica, dizer que algo já existia antes é apenas dizer o óbvio, pois afinal, nada que existe hoje veio do zero. O que a plataformização da internet faz é uma transmutação cibernética desses problemas preexistentes. Além de aumentar sua velocidade e escala, também lhes empresta um caráter sistêmico, não-linear e preemptivo que não tinham antes, e que dificultam sobremaneira o seu reconhecimento e enfrentamento através das ferramentas analógicas do direito e demais formas tradicionais de diagnóstico, controle e prevenção.

No caso das violências contra meninas e mulheres, o que muda com a plataformização da misoginia? O que, exatamente, diferencia o machismo de nossos pais, tios e avós da radicalização misógina de adolescentes e jovens, mas também de homens adultos, em ambientes digitais? Por que este deve ser pensado como um fenômeno típico do nosso tempo: "nativo digital", e adaptado às contradições específicas da atual era pós-neoliberal?

"Contrarrevolução" reacionária

Em primeiro lugar, diferente do machismo histórico, a misoginia contemporânea é reacionária. Enquanto o primeiro é parte do caldo cultural que vem sustentando a hegemonia patriarcal na sociedade brasileira há séculos, a segunda é um movimento reativo às conquistas acumuladas pelo feminismo e demais lutas por direitos ao longo do século XX. A platformização da internet após a crise de 2008 propiciou uma alavancagem sem precedentes dessa "contrarrevolução" reacionária não apenas no campo das relações de gênero, mas em todo o espectro da aliança (pós)neoliberal-conservadora analisada pela crítica feminista do neoliberalismo.

Com isso, a misoginia contemporânea também evidencia a sistematicidade das relações entre os sistemas capitalista e patriarcal, que se rearticularam em sincronia diante da mesma crise de 2008. Esta fincou o último prego no caixão do bloco histórico fordista do pós-guerra, inaugurando uma era pós-neoliberal em que o capitalismo (também cada vez mais digitalizado) assume um modo de crise permanente e, talvez, irreversível. É nessa conjuntura que ocorre a convergência cada vez mais íntima entre capital e forças antidemocráticas, sacramentada no ano passado com a aliança explícita entre big techs, o segundo governo Trump e sua máquina de guerra doméstica, geopolítica e comercial.

Publicidade

Diante da incapacidade do capital de cumprir a própria promessa de emprego pleno e de qualidade, mobilidade social e prosperidade geral, ele se volta à produção em série de inimigos fantasiosos a quem as pessoas possam culpar pela sensação geral de crise e decadência - entre os quais, o feminismo, uma das manifestações contemporâneas do "espectro do comunismo". Para homens que não vislumbram mais o horizonte de cumprir adequadamente o papel de provedor que lhes designou o sistema patriarcal, a radicalização misógina aparece como alívio cognitivo e emocional: uma gramática altamente palatável ao senso comum que explica os infortúnios, re-empodera os indivíduos, anula suas culpas e responsabilidades e permite que se vejam como vítimas.

Em terceiro lugar, a misoginia contemporânea apresenta padrões convergentes com o fenômeno mais geral da radicalização online e novas subculturas extremistas emergentes na última década, como as que impulsionaram a onda inédita de massacres em escolas no Brasil. Olhar para a misoginia contemporânea, principalmente entre jovens e adolescentes (mas não apenas), a partir das lentes mais amplas dos estudos sobre extremismo e radicalização online lança luz sobre padrões estruturantes que são comuns, embora o conteúdo de cada segmento possa variar.

Naturalização das desigualdades

Nos ecossistemas misóginos como um todo, por exemplo, prevalece um fatalismo difuso também presente em outras manifestações da radicalização. No contexto do fechamento de alternativas que Mark Fisher chamou de realismo capitalista, a radicalização pode ser vista como resposta fantasiosa para um impasse em que o horizonte de expectativas dentro da sociedade convencional vem se fechando para os sujeitos. Nos ecossistemas misóginos, esse fatalismo subjacente se expressa numa rígida naturalização de desigualdades - de gênero, raça, Q.I., genética e outras - que são entendidas como parte de uma ordem espontânea e imutável.

Embora possa haver interseções com concepções cristãs sobre hierarquias de gênero, nesses ecossistemas a base dessa naturalização é de ordem principalmente biológica. Humanos, assim como outros animais, se organizariam em hierarquias: dos machos sobre as fêmeas, dos machos alfa sobre os demais. Essa tese pseudo-científica já chegou a ser ventilada como hipótese entre estudiosos de primatas, lobos e outros mamíferos, mas foi há muito desacreditada inclusive por aqueles que originalmente a haviam proposto. Na machosfera, porém, ela segue firme e forte como verdade autoevidente, e organiza toda uma taxonomia de alfas, betas, sigmas e outras categorias, além de uma frenologia freestyle em que características como constituição óssea, altura e simetria facial são tomadas como leis de ferro que definirão que um homem nasça "beta" e assim permaneça pelo resto da vida - a não ser que logre reverter o destino através de muito dinheiro.

Publicidade

Essa possibilidade existe devido às crenças sobre o que estaria por trás do comportamento das mulheres. Segundo essa cosmologia, o feminismo haveria desvirtuado a ordem natural das coisas ao oferecer às fêmeas a (impossível) promessa de igualdade para com os machos, bem como autonomia para escolher seus parceiros.

As mulheres, contudo, não utilizariam essa liberdade com sabedoria, engajando num comportamento "hipergâmico" de troca constante de parceiros, sempre em busca do "topo da cadeia alimentar": os machos alfa. O resultado é uma matemática que não fecha: como popularizado na série Adolescência, 80% das mulheres iriam atrás de 20% dos homens (os alfa), sendo todos os demais relegados a um horizonte fatalista de baixa ou zero probabilidade de encontrar uma boa parceira. Daí a ideia do "celibatário involuntário", ou incel.

Frustração como base da radicalização

Isso é algo bem diferente do machismo histórico, não apenas pelas crenças abraçadas mas por seus efeitos práticos. Muitos meninos doutrinados nesses ecossistemas que passam a se entender como beta perderão de antemão qualquer esperança de engajar em um relacionamento amoroso, sendo o extremo desse fatalismo a chamada black pill.

Ou seja, a frustração que é a base da radicalização será produzida sem o sujeito sequer ter vivido a sua experiência real. É o que Brian Massumi chamou de fatos afetivos: a evidência empírica da experiência irá se adaptar preemptivamente à convicção afetiva, e não o contrário. Como todo fato afetivo, parte de uma lógica preemptiva: o sujeito já sabe como a mulher é; cabe a ele descobrir o que está por trás do seu comportamento, e desenvolver formas de manipulá-lo e/ou defender-se dele. O enrijecimento psicológico e paranoia constante que isso gera não encontra precedentes na cultura machista pregressa.

Publicidade

Disso se desdobra uma quarta diferença, referente à gramática conspiratória envolvida na construção da mulher e do feminismo como inimigos - e as soluções que são, literalmente, vendidas para os homens na forma de cursos, coaching de relacionamentos, serviços advocatícios, fitness e autocuidado e outros produtos digitais. Nesses ecossistemas, existe toda uma pedagogia indiciária que ensina a identificar sinais da confiabilidade - ou não - das mulheres, e da iminência de serem enganados ou traídos por elas: a forma de se vestir, de se portar, a presença de tatuagens (e quais), seus hábitos de consumo de bebidas, roupas, etc.

Como em toda radicalização, esse inimigo se constrói através da fantasia, ou mais precisamente, de estereótipos que vão aos poucos tomando o lugar da realidade: as feministas apoiadas por um "sistema" que também é responsável por produzir uma sociedade fraca e decadente; a mulher interesseira que maquina para fazer os homens de bem pagarem suas contas e assumirem os filhos de alfas e vagabundos. A desumanização da mulher também se dá de forma progressiva, mas ativa: inicialmente avançada na base da brincadeira, meme e ironia - a feminista que come "ração na tigela" e "tem mais pelo que cadela" - progride para níveis extremos em que elas passam a serem vistas como meros objetos e receptáculos sexuais, por um lado, e literais demônios em pele de cordeiro, por outro.

Nesses ambientes, o grau de desprezo é tanto que até a própria misoginia deixa de ser sobre as mulheres. Por trás do discurso sobre as mulheres, se entrevê, de fato, uma preocupação com outros homens: o medo de que ela o traia ou troque por outro, a competição entre eles e o fatalismo da hierarquia entre "alfas" e "betas", a "broderagem" da violência cometida coletivamente. Em casos ainda mais extremos, a misogina reverte em misandria: é a humanidade como um todo que degenerou a um ponto irreversível, sendo a única saída o ato de violência extrema contra outros e contra si. A tragédia pessoal se funde com o destino da sociedade e, em última instância, do cosmos.

Essa é a última, e mais perigosa, etapa da radicalização, que não raro adquire tons religiosos ou espirituais. Na postagem feita por Thales Machado antes de matar os dois filhos como vingança por uma suposta traição da esposa com um "desqualificado e malandro", em meio a muitas referências a Deus, anjos e ao lugar desconhecido para onde ele iria, chamou os filhos de "anjos que infelizmente vieram comigo". Chama atenção a postagem, no mesmo dia, de uma imagem representando sua família unida e feliz gerada por I.A., pois a fantasia também é um elemento onipresente em trajetórias de radicalização.

Publicidade

Uma vez que vão sendo atravessadas essas várias camadas, vai aumentando a irreversibilidade do processo, bem como a probabilidade da desumanização e violência cultivadas no online reverterem em atos de violência física no mundo offline. A dessensibilização para a violência - outro padrão chave de toda radicalização - encontra nos ambientes digitais um novo motor, ligado à midiatização: imagens e vídeos de violências e atos sexuais explícitos com e contra mulheres são massivamente consumidos e, pior, gravados. Assim como com a tortura animal e abuso de crianças, há nesses ecossistemas demanda constante por conteúdos novos ou transmitidos ao vivo, através dos celulares que, hoje, todo adolescente e jovem possui. Essas redes de abusos e crimes são, como na radicalização online como um todo, altamente transnacionais, algo que só foi possibilitado na e pela plataformização da internet.

Retroalimentação do extremismo

Finalmente, embora o machismo histórico sustentasse uma estrutura econômica que sempre teve o homem no seu centro, ele nunca foi, em si mesmo, sujeito ao grau de mercantilização direta observado na misoginia online. No amplo espectro que vai desde perfis e conteúdos red pill em plataformas de superfície até espaços mais fechados onde estes se retroalimentam com extremismos neofascistas, aceleracionistas e niilistas, pornografia infantil e toda uma rede de abusos e crimes contra pessoas e animais, a misoginia online também vai alimentando novos nichos de empreendedorismo e mercado: legais, ilegais, e, principalmente, os espaços de exceção ambíguos nas fronteiras da legalidade que são, ao fim e ao cabo, a tônica da plataformização como um todo.

Esse é o maior perigo: não o segmento extremo sozinho, mas sua participação em um vasto circuito que tem como direção abrangente a normalização e o mainstreaming da misoginia na e pelas plataformas digitais. É preciso intervir em múltiplas frentes para impedir que a radicalização misógina, que inicialmente emergiu às margens do machismo hegemônico preexistente, se torne, pela via da plataformização, uma nova norma massificada para a banalização da violência contra as mulheres e meninas no Brasil.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Letícia Cesarino não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Publicidade
Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se