O que a China espera de cúpula com Trump e Putin sobre a Ucrânia?

5 nov 2026 - 09h26
Resumo
Moscou propôs uma cúpula com EUA e China para negociar o fim da guerra na Ucrânia, excluindo Kiev e a União Europeia, numa tentativa de impor termos favoráveis e reafirmar seu status de potência. Donald Trump e Xi Jinping aceitaram participar. Para analistas, Pequim busca reduzir a presença militar ocidental e manter Vladimir Putin no poder sem assumir compromissos diretos, embora a exclusão da Europa e da Ucrânia desconsidere a real capacidade de resistência ucraniana no campo de batalha.

Enquanto Trump tenta reativar negociações de paz, Moscou articula reunião com EUA e China sem Ucrânia e UE. Analistas avaliam os interesses estratégicos de Pequim e o impacto para a Europa.O governo de Donald Trump voltou a fazer esforços diplomáticos para reativar as negociações em torno da guerra da Rússia na Ucrânia.

Putin propõe que Xi Jinping participe de cúpula sobre a guerra na Ucrânia
Putin propõe que Xi Jinping participe de cúpula sobre a guerra na Ucrânia
Foto: DW / Deutsche Welle

Washington aumentou a pressão sobre Kiev e seus parceiros europeus e tenta, ao mesmo tempo, trazer Moscou de volta à mesa de negociações. Propôs concessões ao governo de Vladimir Putin, como um acordo envolvendo exportações russas de diesel para os Estados Unidos e um afrouxamento temporário de algumas sanções.

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Ainda assim, o Kremlin não parece ter pressa em retomar negociações de paz substanciais. Após reunião entre o enviado especial americano Steve Witkoff e Putin, realizada em São Petersburgo em 21 de outubro, o governo russo anunciou estar disposto a realizar conversas com a Ucrânia em nível técnico no mês seguinte.

Na terça-feira (03/11), o Kremlin confirmou que uma delegação russa participará em Abu Dhabi de novas negociações trilaterais com representantes da Ucrânia e dos EUA, nos dias 10 e 11 de novembro.

Segundo o assessor de Putin para relações internacionais, Yuri Ushakov, a rodada de negociações se concentrará na "construção do sistema de segurança para Rússia e Ucrânia após o fim da guerra".

Está previsto ainda um encontro, em Bruxelas, de autoridades de França, Alemanha, Reino Unido, União Europeia e Otan com representantes dos EUA sobre possíveis garantias de segurança para a Ucrânia.

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Cúpula trilateral na China sem a Ucrânia

Paralelamente, Moscou propôs realizar uma reunião tripartite à margem da cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec), marcada para os dias 18 e 19 de novembro em Shenzhen, na China, informou o Wall Street Journal. A proposta russa é de uma cúpula envolvendo Rússia, EUA e China, sem a participação de Ucrânia e União Europeia.

Segundo fontes do jornal, Putin espera chegar a um acordo com Trump e Xi Jinping sobre o fim da guerra na Ucrânia em termos favoráveis à Rússia.

A Rússia insiste que a Ucrânia precisa estar disposta a fazer concessões territoriais antes que as negociações possam avançar. Putin também enfatizou repetidamente que só está disposto a negociar se os interesses russos forem levados em consideração.

De acordo com o Wall Street Journal, Putin vê o encontro proposto em Shenzhen como uma possível nova Conferência de Yalta, em referência à reunião de 1945 entre os líderes dos EUA, do Reino Unido e da União Soviética para discutir a derrota da Alemanha nazista e a ordem europeia do pós-guerra.

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O governo chinês confirmou que irá participar do encontro trilateral. Trump, cujas relações com Kiev se deterioraram significativamente nas últimas semanas, também manifestou abertura para essas conversas.

Durante visita a Oslo em 20 de outubro, o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, afirmou que qualquer discussão sobre o futuro de seu país só será aceitável se a Ucrânia tiver assento à mesa de negociações.

O que a China tem a ganhar?

Temur Umarov, pesquisador do Carnegie Russia Eurasia Center, em Berlim, especializado nas relações entre China e Rússia, disse à DW não estar surpreso com a proposta do Kremlin.

Segundo ele, Moscou quer se sentir respeitada por Washington e ser tratada como uma grande potência internacional.

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O governo americano anterior não estava disposto a discutir com a Rússia questões relacionadas à soberania da Ucrânia sem a participação de Kiev. Agora, afirma Umarov, o Kremlin acredita que tais negociações podem ter se tornado possíveis.

Moscou aparentemente espera que qualquer acordo alcançado na reunião proposta leve a Casa Branca a pressionar a Ucrânia e a União Europeia a aceitar seus termos. Mas qual seria o papel da China?

Umarov acredita que Pequim participaria principalmente como parceira simbólica, e não como mediadora ativa responsável pelo resultado das negociações. "Pequim não tem intenção de assumir responsabilidade pelo futuro da Ucrânia", afirmou.

O simples comparecimento à cúpula não imporia obrigações adicionais à China. "Não surpreende que o Kremlin insista nesse formato", explicou Umarov. "A Rússia quer demonstrar que está em pé de igualdade não apenas com os Estados Unidos, mas também com a China. No entanto, objetivamente falando, Moscou não é o parceiro dominante nessa relação."

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Para Umarov, a China tem pouco interesse direto nessas negociações. Mesmo que os líderes emitam uma declaração conjunta, Pequim buscaria uma formulação tão vaga e pouco comprometedora quanto possível.

Isso permitiria à China apresentar praticamente qualquer desdobramento posterior da guerra como compatível com o entendimento alcançado na cúpula. Segundo Umarov, essa flexibilidade seria essencial para a participação chinesa.

Interesses estratégicos comuns

Yurii Poita, pesquisador sênior associado do Instituto Mercator de Estudos da China (Merics), faz uma avaliação diferente.

Ele acredita que China e Rússia têm interesses estratégicos convergentes, especialmente na promoção de uma arquitetura de segurança alternativa para a Eurásia.

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Segundo Poita, ambos os países se beneficiariam de uma redução da presença militar ocidental na Europa e na Ásia e de um enfraquecimento da influência da Otan.

"Se Rússia e China conseguirem convencer os EUA a reduzir sua presença militar na Europa e a assistência militar à Ucrânia, a Rússia terá vantagens adicionais no campo de batalha", disse à DW.

Ele acrescentou que tal cenário enfraqueceria ainda mais a confiança da União Europeia nos EUA como aliado dentro da Otan.

Poita acredita que Moscou e Pequim buscariam exatamente esses resultados em eventuais negociações com Washington.

Sobrevivência política de Putin é crucial para a China?

Michael Kimmage, diretor do Instituto Kennan, nos EUA, também duvida que Pequim esteja se preparando para desempenhar um papel diplomático mais ativo para encerrar a guerra.

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Em entrevista à DW, Kimmage afirmou que a China pode considerar o conflito desestabilizador e preferir manter relações comerciais com a Ucrânia e outros países da região.

No entanto, ele acredita que existe uma prioridade ainda maior. "Mais importante para a China é a sobrevivência política de Vladimir Putin", afirmou.

Segundo Kimmage, a Rússia oferece à China diversas vantagens geopolíticas, incluindo energia barata e um parceiro de política externa que raramente se opõe aos interesses de Pequim.

Ele acredita que a China continuará apoiando indiretamente o esforço militar russo para evitar uma derrota de Moscou.

Uma vitória total da Rússia pode não ser necessariamente o objetivo de Pequim, afirmou, mas garantir que Putin não perca é fundamental.

Por esse motivo, Kimmage não espera que a China pressione o presidente russo a encerrar a guerra caso ele não esteja disposto a fazê-lo.

Exclusão da Europa revela fraqueza da UE?

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Nem a Ucrânia nem a União Europeia participariam das negociações propostas na China.

Kateryna Krasina, pesquisadora da New Geopolitics Network, sediada em Kiev, acredita que essa exclusão pode revelar como Pequim enxerga a influência internacional de ambos.

Na avaliação dela, a postura chinesa sugere que o país não considera a Ucrânia um ator independente nas negociações e vê a Europa como relativamente fraca.

Kimmage, porém, argumenta que a exclusão da Europa da cúpula não reduziria necessariamente sua influência sobre o andamento das negociações.

Ele reconheceu que os governos europeus podem ter pouco poder para impedir um encontro entre Trump, Putin e Xi.

Mas destacou que os esforços europeus em torno da cúpula de 2025 no Alasca entre Trump e Putin ajudaram a evitar resultados desfavoráveis à Europa.Mas destacou os esforços europeus em torno da cúpula de 2025 no Alasca entre Trump e Putin, que, segundo ele, ajudaram a evitar resultados desfavoráveis à Europa.

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Kimmage afirmou que a influência europeia cresceu graças à assistência financeira à Ucrânia e à ampla cooperação na indústria de defesa, especialmente envolvendo Alemanha e outros países europeus.

Segundo ele, o apoio europeu teve papel importante na capacidade da Ucrânia de resistir aos avanços russos. "E esse apoio significa influência", afirmou Kimmage.

Ele acredita que Rússia, China e EUA podem ter interesse em retratar a Europa como uma potência secundária, mas que essa visão ignora a influência real do continente.

"A aparência e a realidade não são exatamente a mesma coisa", afirmou, distinguindo a imagem de uma diplomacia entre grandes potências, semelhante à Conferência de Yalta, da efetiva participação europeia no apoio à Ucrânia.

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Umarov oferece outra perspectiva. Segundo ele, qualquer acordo diplomático entre EUA, Rússia e China terá de enfrentar a realidade no terreno. "A China entende que, independentemente do resultado das negociações com os EUA e a Rússia, a realidade no terreno será muito diferente e dependerá acima de tudo da Ucrânia", afirmou.

"Queira ou não o Kremlin, a Ucrânia tem capacidade própria de ação. Nem os EUA nem os países ocidentais podem determinar plenamente o que acontece no campo de batalha apenas por meio de pressão diplomática."

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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