O mito da segurança: conflito envolvendo EUA, Israel e Irã evidencia fracasso da diplomacia tradicional

Como tem sido praxe em conflitos, guerras e invasões recentes, estados condenam certas ações políticas e militares, mas raramente tomam medidas práticas que garantam a proteção de seus cidadãos

28 fev 2026 - 23h33
(atualizado em 1/3/2026 às 00h42)

Acordamos na manhã deste sábado, 28/02, com a notícia de novos episódios de violência internacional envolvendo Israel, Estados Unidos e Irã - países que têm sido foco constante de denúncias e reportagens sobre violações de direitos humanos, especialmente contra civis.

Essa nova escalada teve início com um ataque coordenado por Estados Unidos e Israel em território iraniano, atingindo, segundo a mídia local, cinco cidades: Isfahan, Qom, Karaj, Kermanshah e Teerã. A Agência de Notícias da República Islâmica informou que 108 pessoas morreram em bombardeios que alcançaram uma escola primária feminina no sul do país. O governo iraniano retaliou, atacando Israel e bases militares norte-americanas em Bahrein, no Kuwait e no Qatar.

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Posteriormente, novos mísseis atingiram também os Emirados Árabes Unidos, incluindo Dubai, ampliando o alcance regional do conflito. Tanto os ataques quanto as retaliações ocorreram em meio a um processo diplomático entre Washington e Teerã sobre a questão nuclear.

Essas são as informações centrais que têm sido divulgadas ao longo deste sábado. Enquanto isso, as populações civis de todos os países envolvidos permanecem sob ataque de mísseis: algumas se protegem em bunkers - aquelas que dispõem de estrutura para isso -, outras se escondem como podem em suas casas e há ainda as que estão completamente expostas a uma bomba que pode, literalmente, cair do céu. Entre as mais de 50 pessoas mortas no Irã estavam jovens estudantes da escola atingida. Levanto essa reflexão porque o argumento central dessa troca de mísseis e bombardeios é a segurança.

Apesar de suas diferenças institucionais e políticas, os três governos têm recorrido, em momentos distintos, a práticas autoritárias que envolvem uso intensivo da força e restrições a direitos civis, tanto no plano interno quanto no externo. Não vemos, nesse contexto, um lado que seja defensável sob a ótica da paz internacional ou da defesa dos direitos humanos. E, justamente por isso, os ataques não podem ser normalizados como respostas legítimas, mas compreendidos como parte de uma lógica que perpetua a violência.

O que vemos - e o que temos visto há muitos anos - é a falha da diplomacia tradicional na resolução de conflitos e na mediação de acordos, além de decisões estatais que colocam as populações locais sob constante e violenta ameaça em nome do discurso da segurança.

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Em Israel, por exemplo, o Primeiro‑Ministro Benjamin Netanyahu declarou publicamente: "Meus irmãos e irmãs, cidadãos de Israel, há pouco tempo Israel e os Estados Unidos lançaram uma operação para remover a ameaça existencial representada pelo regime terrorista no Irã".

Morte de Khamenei

Na mesma linha, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que "nosso objetivo é defender o povo americano eliminando as ameaças provenientes do regime iraniano". Do lado iraniano, o Ministério das Relações Exteriores do Irã declarou que "agora é o momento de defender a pátria e confrontar a agressão militar do inimigo".

Mais tarde, ao longo do dia, Israel e Estados Unidos confirmaram que o Aiatolá Ali Khamenei foi morto nos ataques. Os próximos passos são incertos, mas é provável que exista uma linha de sucessão previamente estabelecida dentro da estrutura política e religiosa iraniana. Khamenei foi, ao longo de décadas, um líder marcado por repressão interna, perseguição a opositores e severas restrições e violações a direitos civis. Ainda assim, a História oferece poucos exemplos de transições pacíficas ou democráticas resultantes da eliminação de líderes por ataques externos não autorizados por organismos internacionais ou não alinhados a processos políticos internos.

Diversos governos ao redor do mundo expressaram preocupação e condenaram os ataques de EUA e Israel, incluindo Brasil, França, Rússia e Espanha. As críticas destacam que os bombardeios ocorreram em meio a negociações diplomáticas e alertam para a ameaça internacional que representam, abrindo espaço para uma escalada militar entre países com arsenal nuclear.

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Como tem sido praxe em meio a conflitos, guerras, invasões e, inclusive, genocídios contemporâneos, Estados condenam certas ações políticas e militares, mas raramente tomam medidas práticas que garantam a proteção de seus cidadãos. Enquanto isso, decisões estatais continuam sendo tomadas dentro de uma lógica que prioriza o poder militar e a dissuasão, sem interromper os ciclos de violência.

O argumento falso da segurança

Historicamente, o argumento da segurança tem servido para legitimar ações militares, mesmo em contextos de negociações diplomáticas, mostrando que a retórica da proteção nacional ou internacional nem sempre corresponde à proteção de civis ou à estabilidade duradoura. É nesse contexto que os discursos de líderes como Netanyahu e Trump ganham significado: não apenas como declarações pontuais, mas como parte de uma lógica que associa segurança à capacidade de ataque e dissuasão.

Isso não é novidade. Ao longo da História, inúmeros conflitos foram justificados sob o argumento da segurança - seja a segurança nacional, quando se afirma que um país se defende de uma ameaça direta, seja a segurança internacional. Nos discursos de Netanyahu e Trump, o Irã e seu arsenal nuclear são apresentados como uma ameaça global, o que não é totalmente inverídico.

A questão, porém, é outra: de que forma provocar um país que possui esse arsenal durante negociações diplomáticas contribui para a segurança internacional? E, mais amplamente, como se pode manter a paz global com o controle da produção nuclear pelo Irã, enquanto outros países - incluindo Israel e Estados Unidos - não têm mecanismos para restringir seus próprios arsenais?

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Olhando mais especificamente para dentro de cada país, sabemos com base em dados seguros que os governos em questão não têm real preocupação com a segurança das suas populações. Nos Estados Unidos, temos testemunhado o assassinato, maus tratos e violações dos direitos humanos de civis à luz do dia por agentes de instâncias governamentais. Só em 2025, foram mais de 1300 mortes de civis assassinados por policiais.

Em Israel, a violência política e militar contra cidadãos palestinos e israelenses têm sido cada vez mais graves. O Irã tem uma longa história de violação dos direitos civis de seus habitantes, com um governo declaradamente autoritário e teocêntrico e só nos últimos meses tem agido com violência extrema em relação à população local, após uma série de manifestações civis.

Algumas fontes apontam para a possibilidade de terem sido mais de 30.000 mortes. A conta de que governos que violentam tanto internamente suas populações estão se dando ao trabalho de travar guerras internacionais para defendê-las não fecha. A retórica da proteção nacional perde consistência quando os próprios Estados recorrem sistematicamente à violência contra suas populações. A promessa de segurança externa contrasta com práticas internas que ampliam a vulnerabilidade de parte significativa da sociedade.

Ainda assim, pensemos diretamente nas guerras e no argumento da segurança internacional. Os ataques deste sábado exigem uma enorme mobilização de recursos, para todos os governos envolvidos: armamentos, transporte e soldados. Estamos falando de recursos econômicos, que estão sendo desviados de outras áreas sociais, como educação e saúde, e, principalmente, de recursos humanos.

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É importante lembrar que quando falamos de "militares" de "soldados" estamos falando, na maioria das vezes, de jovens entre 18 e 25 anos, enviados por seus governos para atacar e, possivelmente, morrer. Desde o final de 2023 quando teve o início sem precedentes do escalonamento militar por parte de Israel em Gaza, ocorreu a maior taxa de mortes de soldados israelenses desde a Guerra do Yom Kippur em 1973. Dezenas destes soldados, inclusive, por suicídio.

E, claro, a população civil. Enquanto grande parte da mídia internacional cobre os bombardeios, a violação do processo diplomático, as declarações governamentais e buscam realizar análises futuras, milhões de pessoas estão à mercê de mísseis, escondidas e com medo. E dezenas já morreram ou ficaram feridas.

É em nome da segurança - mas a segurança nunca chega. A diplomacia tradicional, centrada em elites políticas e acordos estratégicos, mostra-se incapaz de romper o ciclo entre ameaça, ataque e retaliação. Negociações que se limitam à gestão de arsenais ou à contenção tática de riscos não enfrentam a lógica que sustenta a escalada permanente: a ideia de que segurança se garante pela superioridade militar e pela capacidade de destruir o outro.

Quando a segurança é definida como poder de dissuasão e eliminação do inimigo, novos bombardeios passam a ser apresentados como medidas defensivas, e cada ataque encontra sua justificativa na ameaça anterior. O resultado não é estabilidade, mas uma sucessão constante de ataques e retaliações que mantém as populações civis em risco e desvia recursos estatais de áreas essenciais, como saúde e educação, para a guerra.

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O que aconteceu hoje marca mais um evento de acordos desrespeitados, ataques sem autorização prévia e uma nova ameaça de guerra internacional, envolvendo os mesmos atores que têm sido constantemente destacados internacionalmente por violações de direitos humanos e abusos sistemáticos contra suas próprias populações. É mais um acontecimento que mostra que a segurança real não se constrói com mísseis, mas com instituições legítimas, respeito a direitos e processos políticos que incluam as pessoas diretamente afetadas pelos conflitos.

Enquanto a resposta à insegurança continuar sendo mais violência, o que se multiplica não é proteção, mas vulnerabilidade.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Carla Habif não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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